Por administrador em 03/nov/2014

“Terrorismo ideológico”, artigo de Cristino Cesário Rocha



Após a trajetória eleitoral no Brasil em 2014, precisamente escolha de Presidente, Senadores/as, Deputados Federais, Estaduais e do Distrito Federal e Governadores/as, sinto-me profundamente interessado em compartilhar uma impressão sobre o que intitulo como terrorismo ideológico. A ideia é fazer o debate sobre discursos terroristas muitas vezes despercebidos, mas que estão presentes em discursos
implícitos e escancarados das imagens, gestos, notícias, propagandas comerciais e práticas desde milênios.

O conceito é poderoso, mas possui limitação sutil, a começar pelo fato de não dar conta de tudo, daí o cuidado com o contorno de cada ponto de vista. Não obstante, parto de dois conceitos importantes, o de terrorismo e o de ideologia. O primeiro é percebido por Ferreira (2001:670) como modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror.

Já Ideologia percebo como um modo de ver a vida por diferentes lentes, umas com menores e outras com maiores alcances, de acordo com suas representações de pessoa, Deus e mundo, muito simples, apesar da vasta possibilidade conceitual, tanto do terrorismo quanto da ideologia. Daqui podemos começar uma conversa, sem necessidade de ater a grandes nomes das epistemologias política, filosófica, religiosa, sociológica, econômica e antropológica.

Parece-me importantíssimo o conceito do dicionário da língua portuguesa, conduzido por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Esse instrumento pode ser bem utilizado nas escolas, de modo que estudantes e docentes possam partir do conceito para chegarem a um contexto e construir um texto com pretexto analítico. O conceito é uma das asas, a outra é construção própria de quem acessa e vá além do que já está dado.

Vejo com certa cautela, mas seguro de minhas convicções que podem ser relativizadas a partir do contraditório que o terrorismo possa ter um contorno ético muito significativo: perpassa várias instituições e se aloja no sujeito, por meio da ideologia veiculada, assimilada, fabricada e vivida.

Partindo desse pressuposto ético-analítico, considero importante avaliar o terrorismo ideológico presente em sujeitos e instituições, com suas exceções. Quem se enquadra na exceção, que ótimo. Não tomo essa reflexão como ataque gratuito a qualquer instituição, mesmo porque se assim o fizesse estaria também, paradoxalmente, produzindo um efeito cascata do terrorismo ideológico.

É muito comum atribuir o terrorismo tão-somente aos ataques suicidas, de protestos e guerras no oriente médio e que se estende a outros países e continentes.Entretanto, ao fazer uma viagem aos meandros da experiência humana, não há, historicamente, nada que descredencie a seguinte realidade: o terrorismo ideológico é um fato, que pode ser tão violento quanto o terrorismo do uso do instrumento vil.

No reinado de Herodes, na Judeia, houve um evento que traduziu a articulação dos terrorismos ideológicos e de Estado. Herodes o Grande mandou matar todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de idade em Belém e seus distritos. Percebe-se que Jesus experimentou o terrorismo de Estado acoplado ao ideológico já no ventre materno. Herodes pretendia eliminar Jesus, alvo de seu ataque fulminante em defesa do reinado.

O mestre Jesus experimentou o terrorismo ideológico em seu tempo, na prática sociocultural, religiosa e política dos grupos da alta hierarquia (Escribas, Saduceus, Fariseus, Essênios, Zelotes, Sumo Sacerdote, herodianos…). O terrorismo ideológico o levou à morte de cruz. Como em qualquer sociedade com divisão de classes, com Jesus não foi diferente, embora divisão de classes seja uma expressão melhor elaborada em sociedades capitalistas, globalizadas, neoliberais e industriais contemporâneas, nitidamente no Brasil e outros cantos do mundo.

Fato curioso é que qualquer grupo que se pretenda dominante nos planos religioso, cultural e político fabricam um tipo ideal e um tipo a ser rechaçado, daí o terrorismo declarado sob a forma de discurso. No caso Jesus de Nazaré, adotaram o alarde de que Jesus pretendia ser rei, dizia ser filho de Deus, amotinava o povo e que destruiria o templo de Jerusalém. Além dessa justificativa que o levaria à condenação, prisão e morte, questionavam o fato dele ser procedente de um carpinteiro, dona de casa e de uma pequena cidade sem muitos recursos. Vejam que os estereótipos em torno de uma família simples e empobrecida estiveram presentes mesmo no tempo de Jesus.

A classe abastada do tempo de Jesus, inclusive os fariseus e doutores da lei se achavam os iluminados e puros, ao ponto de produzirem exclusões dos doentes, leprosos e mulheres considerados impuros. Crianças, mulheres, doentes e empobrecidos não tinham vez, surgindo Jesus como uma espécie de porta-voz desses segmentos. Na verdade Jesus anunciou o Reino de Deus (justiça, verdade, amor, compaixão,
misericórdia, perdão…) e não a igreja.

Ao longo dos tempos, colocaram-se igrejas arquitetônicas no lugar do Reino, situação que traduz a incompreensão dos grupos dominantes e dirigentes sobre o sentido do reinado de Jesus e a interpretação cultural de nosso tempo que assume espaços físicos como sinais do reino de Deus. O surgimento de igrejas (templos) não seria uma necessidade de Jesus, mas das diferentes culturas emergentes, pois a ideia de igreja era a de oikós, basicamente pequenas comunidades, povo em marcha.

Nesta perspectiva os poderosos do tempo de Jesus confundiam deliberadmanete o perfil emancipador de Jesus para atingirem objetivos e interesses do ponto de vista da classe como tal. Neste contexto, desconsideraram o seguinte perfil de Jesus: sabia ouvir e acolher as crianças; rompia com a cultura separatista e excludente entre samaritamos e judeus, acolhendo, aproximando e dialogando com a mulher samaritana; chorou a morte de seu amigo Lázaro, atendendo apelos de Marta e Maria; sensível diante do sofrimento humano, questionando a farsa dos grupos políticos e religiosos; ajudou a ver a vida de outro modo etc.

O terrorismo ideológico em torno da pessoa de Jesus teve motivações ligadas ao poder, mesmo porque os grupos políticos e religiosos tinham o receio de que Jesus queria ser rei. Isso se mostra mais claramente no interrogatório feito por Pilatos a Jesus: És tu o rei dos judeus? Sabendo Jesus que já se tinha feito a cabeça do povo acerca de suas mensagens, disse: “dizes isso por ti mesmo ou foram outros que te disseram de
mim?.
O reinado foi um nó na garganta dos poderosos do tempo de Jesus por duas razões: pretendiam o poder temporal e interpretavam erroneamente o ideário de Jesus. Veja a confusão entre o que Jesus falava e o que Pilatos entendia. Jesus disse: o meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, os meus súditos certamenteteriam agido para que eu não fosse entregue. E reitera: mas meu reino não é deste mudo. Já indignado e temendo um possível concorrente, perguntou-lhe Pilatos: És, portanto, rei? O tempo passa, avança na temporalidade, mudam-se os sujeitos e circunstâncias, mas os fatos se repetem, com outro protagonismo.

Dando um salto na história, no medievo, o terrorismo ideológico esteve presente, sob o formato insuspeito, dentro de setores da igreja católica. O altar pode ser espaço de onde se produz e veicula um discurso capaz de fortalecer identidades ou amortecer consciências e até submetê-las aos ditames de doutrinas meramente religiosas, distantes do chão da história e das diferentes culturas e sem preocupar-se com a promoção da dignidade humana.

O terrorismo ideológico perpetrado por determinados segmentos de liderançasreligiosas católicas medievais era baseado no anúncio de uma vida futura no além-corpo e a inculcação das ideias sobre pecado e santidade, céu e inferno, deus e o diabo. Neste contexto religioso Deus se tornou policial, vigia, juiz, delegado e carrasco, menos o Deus de Jesus Cristo que ouviu e defendeu a prostituída; chorou a morte de Lázaro,
enfrentou e denunciou a hipocrisia dos fariseus, escribas, sacerdotes e outras lideranças políticas de seu tempo; foi solidário com a causa dos oprimidos; colocou em xeque o tipo de organização social, política, econômica, religiosa e cultural e assumiu a humanidade com seus sucessos e fracassos por meio de uma kénosis humanitária.

Seguramente há diferentes igrejas dentro da mesma igreja católica, cada uma tentando fazer o que mais se aproxime do Deus de Jesus Cristo. Dessa forma a Igreja Tridentina não é a mesma Igreja do Pós-Vaticano II; a igreja católica apostólica romana que assume com rigor as notas tradição, apostolicidade e catolicidade e a igreja latino americana com uma vasta vivência do sagrado, da fé e dos costumes; a Carismática é
distinta de uma Comunidade Eclesial de Base; a popular devocional difere da hierárquica; a eletrônica e de massa se distingue das pequenas comunidades locais; a das cruzadas contra religiões mediúnicas e a da ecumênica e respeitosa às diferentes manifestações do sagrado; a de caráter meramente doutrinário e a de dimensão pastoral, inserida no meio do povo com seus problemas, crenças e potencialidades etc. Assim,
vai-se fazendo a história, cada um ao seu modo, dentro de determinada temporalidade.

Pois bem, já é do conhecimento de muitas pessoas que vivenciamos no Brasil, entre as décadas de 60 e 70 a experiência do terrorismo contra o comunismo. O salto no tempo não impede outras experiências significativas. Trata-se de um recorte na história. Pensava-se ingenuamente que neste período comunista comia crianças, expressão que trago a baila para tentar explicar, grosso modo, a larga inconsistência do discurso
anticomunismo. Nesse contexto igrejas de diferentes denominações engrossaram o ataque ao comunismo, de maneira que o terrorismo da elite política tradicionalista fundia-se ao terrorismo fundamentalista religioso.

Entre as décadas de 90 e 2000, o Brasil conviveu com uma experiência singular na política: o terrorismo contra a barba de Lula. Ideologicamente, pelo menos naquele momento, pensava-se que usar barba grande seria sinônimo de libertinagem, dureza e violência, embora Lula não tivesse participação alguma com esses adjetivos produzidos mais para desqualificá-lo enquanto um possível Presidente da República do que para ajudá-lo a repensar o corpo físico.

Lula foi taxado de “sapo barbudo”, estereótipo típico de um ataque terrorista que assume o corpo ou parte do corpo para atingir objetivos eleitorais. Corpo, portanto, não é apenas uma articulação de nervos, ossos, células e etc. É, sobretudo, espaço cultural, estético, político e espiritual. Hoje, em pleno ano 2014, véspera do ano 2015, Lula continua com barba, mas ainda vítima de outros níveis de preconceito.

Além da barba, Lula foi largamente satirizado pelo fato de possuir uma linguagem mais próxima do povo e ter um sotaque nordestino. Perdurou por longos anos a visão elitista e assimilada pelo povo simples que “Lula não tinha cultura”. Lula foi nitidamente atacado pelo terrorismo ideológico acoplado ao epistemológico, quando se acreditava que só podia ser presidente da república quem possuísse certificação escolar, embora certificação não confunda com formação e Lula não use linguagem simples como populismo fácil. Conhecer, nesta mesma proporção, não se limita a acúmulo de conteúdos, de tempo em sala de aula, da mesma forma que cultura esteja para além do letramento.

A história foi revelando que Lula tinha e tem condições de governar o pais, por sinal duas vezes e quantas vezes for possível, quebrando com a lógica meritocrática elitista que teme um projeto que promove dignidade do povo, tirando milhões da pobreza extrema, além de acessar a juventude aos bancos das universidades, que até o final da década de 90 e o primeiro ano de 2000 era inacessível aos filhos/as de trabalhadores/as.

Mediante o terrorismo ideológico da globalização, do capitalismo sem coração e do avanço tecnológico, produziu-se dentro das escolas secundaristas o terrorismo ideológico do mercado de trabalho para quem esquentasse bancos escolares e acessasse diploma. E as escolas públicas e privadas têm sido em certa medida, servas das universidades, pensando o ensino a reboque de como as universidades se organizam em termos de Vestibular, Enem e PAS. Esse modo de ver vem sendo colocado em xeque pela grande massa desempregada no mundo. A divisão social e internacional do trabalho tem condicionado grupos e indivíduos a uma exclusão institucional. Seria irônico, a exemplo, um especialista em qualidade de vida desempregado.

Entendo que diploma não seja passaporte para a empregabilidade, nem para uma valorização salarial. O que se pode apostar como crença é que educação é sim meio de mobilidade social, disso não tenho dúvida, mas dentro de uma avaliação mais ampla da significação de pessoa, sociedade, educação e mundo em sociedades contemporâneas contraditórias.

Do ponto de vista da cultura, houve uma maior compreensão do povo e da elite brasileira de que cultura não se restringe aos bancos escolares, nem a um certificado. Cultura é termo amplo que se produz nas relações de trabalho; na instituição da família; nos processos organizacionais políticos e sociais; nas diferentes expressões do sagrado; nas concepções e vivências estéticas; nas diversas etnias, raças e gêneros; na produção
literária; no acúmulo histórico dos bens materiais e imateriais da existência; nos movimentos sociais; nas manifestações artísticas, filosóficas e etc.

Outra experiência que se pode lembrar é que Lula, sendo procedente da classe trabalhadora, foi duramente atacado na condição como tal. Como pode um trabalhador de baixo escalão, nordestino e sem instrução nas cadeiras escolares chegar a ser presidente? Essa pergunta fervilhava o coração e as mentes das pessoas acostumadas com presidentes generais, ditador, falso caçador de marajás e o doutrinado nas
Academias sem compromisso social com os empobrecidos. Apesar de uma consciência contemporânea mais esclarecida, ainda se convive com o preconceito linguístico, socioespacial, cultural etc.

Lembro-me da preocupação que tinham os doutores da lei, os escribas e fariseus do tempo de Jesus: como pode um filho de trabalhador braçal, de uma mulher dona de casa e de um carpinteiro que mal sabe se é de fato pai, que nasceu em Nazaré, pretender falar para nós sobre o reino de Deus, a virtude, a verdade, a justiça e o amor ao próximo?

Há evidências, de tempos remotos, que não se valoriza nem se legitima experiência significativa de quem é simples, povo e distante dos holofotes da grande mídia. A linguagem, por exemplo, mostra claramente de que lado se está. Veja o tratamento que a grande mídia deu ao Francisco Everardo Oliveira Silva, nome artístico (Tiririca) quando foi eleito Deputado por São Paulo em 2010. Dizia-se o palhaço Tiririca, já ao lidar com Antônio Renato Aragão, conhecido como Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufunbo (nome artístico) diz-se o humorista Didi. A distinção é apenas semântica? Eu não acredito que seja.

O terrorismo ideológico não tem tempo fixo, nem parte de uma única instituição e pessoa. Veja o que vivemos nas eleições de 2014: igrejas e pessoas construíram uma imagem de Dilma e do PT como coisas do diabo, ressurgindo a velha caça às bruxas medievais. Aqui o fundamentalismo religioso funde-se com o terrorismo ideológico. Há discursos dos mais simples aos mais complexos, ambos com uma direção muito real: modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror e o contexto brasileiro atual dá maior credibilidade ao conceito de Ferreira. É interessante retomar a ideia de que haja diferentes igrejas dentro de uma mesma igreja, por isso a importância
de saber de qual igreja está falando.

O estereótipo agressivo e que fere direitos vem se arrastando ao longo dos tempos. A cada tempo uma situação nova: Tempo em que comunismo era sistema que comia crianças; tempo em que Lula era sapo barbudo, sem cultura e autóctone; tempo em que Dilma não é cassada e não tem família; tempo em que o Partido dos Trabalhadores, Dilma e Lula são coisas do diabo, aquele que etimologicamente divide.

Ambiente de trabalho é lugar tensionado por relações de poder, conflitos e práticas socioculturais, políticas e religiosas dos mais diversos. A propósito do que intitulo como terrorismo ideológico, recordo-me de um colega de trabalho no ano eleitoral (2014), poucos meses antes do início da campanha propriamente dita, disse com indignação: “Dilma matou gente na ditadura, não sabe governar e é sapatão, PT
nunca mais”.

O senso comum fabricado pela grande mídia, revistas e jornais acredita que família seja apenas o tripé pai, mãe e filho. Essa crença já está amplamente ultrapassada dentro de um cenário sociocultural marcado por várias formas de se conceber e viver a família. A convivência de um filho e o pai é uma família, da mesma forma que uma filha, o neto e uma mãe constituam uma família, contestadas por um tradicionalismo
neoconservador e avesso às mudanças e diversidades no e com o mundo.

Em relação à ditadura, o nobre colega não soube dizer com precisão e veracidade quem morreu sob a mão armada de Dilma, nem tão pouco percebeu que Dilma nunca foi o problema da ditadura, nem para populações excluídas, marginalizadas e violadas em seus direitos. O problema nunca foi Dilma, mas sim a própria ditadura e o que se construiu de negatividade e estereotipia em torno dela. Já as visões homofóbica e machista são instrumentos ideológicos terroristas que afetam quem nutre desses sentimentos, antes de chegarem ao seu destino e quando chegam causam danos morais, físicos, emocionais e espirituais.

Há quem ainda não saiba o que significou a ditadura militar para milhares de pessoas, inclusive para a própria Dilma e freis Tito, Ivo, Fernando e Beto, sendo que o último vivenciou a ditadura com menor intensidade, sobrevivendo para recontar a história com outra lógica, a de quem sofreu dois níveis de terrorismo, o de Estado e o ideológico no governo Vargas.

Não se tem a noção básica também da extensão do que representou a ditadura militar para Frei Tito, quando preso injustamente pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), torturado por pau-de-arara; choques elétricos na cabeça, nos órgãos genitais, pés, mãos e ouvidos; socos, pauladas e palmatórias, queimado com cigarros, entre outras. É preciso nos perguntar: o que representou para os presos e torturados a sucursal do inferno, a Operação Bandeirantes e o DOPS?

Não tenho dúvida que Tito, Ivo, Fernando e Beto representaram uma tendência de igreja católica com uma fé de última consequência, aberta aos desafios e problemas da pessoa humana, revolucionária em seu conteúdo e inserida no abismo da condição humana, ao ponto desses frades pensarem o livro O canto na fogueira, expressão do significado profundo de uma vida dedicada a defesa dos direitos à vida digna, respeitada
e livre. Não menos valoroso, Beto socializou o trabalho Batismo de sangue, revelando tramas e traumas da ditadura militar, o que rendeu um filme com o mesmo nome.

Parece-me oportuno lembrar que haja vários espaços de fomento do terrorismo ideológico: grande mídia, igrejas, face book, whatsapp, blogs etc. É impressionante como esses espaços usam um falso moralismo para desqualificar Dilma, Lula e o Partido dos Trabalhadores. Em nome de um conceito unilateral de família, sem considerar a diversidade de experiências de família diz-se que Dilma não é casada e fere princípios cristãos; em nome de um deus carrasco e único, prega-se a exclusão de quem pensa e vive diferentes dimensões do sagrado; justifica-se a intolerância por meio de textos bíblicos, interpretados ao pé da letra e sem humanismo e o pior, desrespeita o ser humano com palavras que não são compartilhadas por um cristão que de fato segue as atitudes de Jesus Cristo. Dito de outro modo: fala-se e vive um deus sem coração,
sem respeito e sem pudor. Qualquer esquema de violência é um atentado à vida.

É de se questionar, por exemplo, por que no tempo da eleição, pastores e padres pediram para que não se votasse em Dilma e no PT. Ouvi pessoas dizerem que o padre dizia na missa para não votar na Dilma, porque ela representaria o mal. Pela lógica, Aécio representaria o bem, na pior das hipóteses. O terrorismo ideológico-religioso fez e faz as suas vítimas, principalmente as que são sectárias, embora com parca noção dos
fundamentos da doutrina do que segue como regra absoluta.

O veículo de comunicação TV tem igrejas de diferentes denominações como aliadas. De um lado a TV muda o modo de ver o mundo, mais para o fatalismo, a alienação e a miopia diante dos fatos do que para a vida promissora; no outro lado, entre as paredes, igrejas pregam uma vida traçada dualisticamente, cujo pensamento é mais alinhado com o terrorismo escatológico de maneira clara ou subliminar, salvo exceções.

Infelizmente TV, Revistas e Jornais são monopolizados, de maneira que se acessa apenas o que se dispõe de notícias e informações sob a lógica dos interesses dominantes, ou seja, da elite brasileira. O caso da Revista é emblemático: evidencia o contraditório mais por determinação da justiça do que por iniciativa dos donos desse meio. É o mercado da notícia que aterroriza ideologicamente o leitor e quem faz o visionamento de programas televisivos.

Outro esquema de terrorismo ideológico é a propaganda comercial da TV e Revistas. Propagam-se produtos e ideário de perfeição do corpo. Em meio a esse apelo às consciências, subjugam-se o pensar e os sentimentos, principalmente de crianças e adolescentes, os mais vulneráveis aos apelos midiáticos. Se não bastasse a violência do apelo ao consumo desenfreado, divulga-se uma noção equivocada de maneira subliminar que existam cabelos bons e ruins, provocando uma larga corrida por cosméticos e alisamento de cabelo.

Pessoas jovens morrem vítimas do terrorismo ideológico comercial que vendem um conceito europeu de beleza. A ditadura da beleza é tão premente em sociedades contemporâneas que rendeu um belíssimo livro de Augusto Cury com o título a ditadura da beleza e a revolução das mulheres.

O terrorismo ideológico do corpo perfeito produz uma insatisfação com a beleza intrínseca e abafa a grandeza da estética que se expressa de maneira diversa. A violência ditatorial do mercado, acoplada ao discurso invisível das propagandas comerciais que aterrorizam os cinco sentidos produzem morte por cirurgias dos seios e das nádegas; consumo de produtos para emagrecer; dieta forçada e extravagante; exercício físico exacerbado etc.

A mesma TV que noticia o fim como decadência e não como plenitude divulga uma imagem positiva de quem ela tenha o interesse de governar o país. Para a felicidade do Brasil, o povo tem quebrado lentamente a lógica do poder midiático que faz a sua escolha em tempo de eleição, explicitamente no discurso midiático anti-PT e suas lideranças. A TV Globo possui um viés mais para o campo da direita neoconservadora
do que para uma aglutinação de forças capazes de melhorar o Brasil. Em outra perspectiva, enfatizam-se futurólogos e clarividentes nos campos político e econômico, assumindo o fatal como projeto de vida que sustenta campanha eleitoral de quem a globo defende.

O modo de pensar dos donos das empresas televisivas, dos grandes jornais e revistas tem representado o status quo e a visão unilateral. Noticia-se o que dá lucro, ou seja, sangue, mortes e corrupção como espetáculos e em certos casos usa-se bodes expiatórios para vender produtos. A tirania do mercado tem muita aproximação da ditadura do consumo e a notícia como produto ideológico e ambos instituem o que
chamo de terrorismo ideológico.

Fato que merece atenção no contexto eleitoral, tendo por base o terrorismo midiático é a seguinte situação: quando a grande mídia, setores da elite e do povo evidenciam que o Partido dos Trabalhadores já está no poder por 12 anos, o faz com desprezo, truculência e ataque. Quando se trata de Geraldo Alckmin, do PSDB que assume o 4º mandado em São Paulo, chegando aos 16 anos no poder, não se alardeia nem se posiciona contra, por qual razão, todo mundo sabe, ele não é do PT.

Grandes nomes na política brasileira despontaram nessas eleições de 2014, no caso de Aécio Neves, Marina Silva e Dilma que já construiu a sua história sem a ajuda da grande mídia, como tem sido o caso de muitos candidatos fabricados pelo jogo de interesse da mídia e do capital financeiro. Aécio Neves apareceu no cenário político na condição de candidato a presidência da república como um falso messias, cujo messianismo político-religioso de agentes institucionais e sociais teve profundas limitações em determinado contexto brasileiro. Marina, por sua vez, entrou em um barco sem fundo, embaraçou nas próprias pernas no segundo turno, ao decretar apoio ao messias prometido pelo PSDB e seus aliados. No conjunto das propostas de Marina Silva há ideias significativas, mas teve dificuldade de manter uma coerência entre o
discurso político e a luta pelo poder.

O fato é que tivemos nessas eleições dois grandes projetos: o da sustentabilidade ambiental e econômica acoplada ao capital financeiro, em que banqueiros teriam a primazia, o controle e o domínio do interesse público, que na verdade seria mais adequado dizer interesse privado, além de uma ambiguidade do discurso que pretendeu fazer o jogo de vários interesses sob a égide do clichê por uma nova postura, mas sem sustentação, representado por Marina Silva e Aécio Neves, acrescido do ideário de governabilidade baseado em um messianismo anacrônico e o projeto de um Brasil que persiga mudanças substantivas em todas as áreas, representada por Dilma Rousseff.

O terrorismo da grande mídia é muito evidente em todos os processos políticos, sociais e econômicos, distinguindo dos espaços religiosos pela dinâmica de cada grupo. No campo religioso representantes de diferentes igrejas e tendências religiosas fazem um discurso dualista e dicotômico, separando o bem do mal e a fé da política, embora seus próprios membros e a lideranças convivam com o dia-bólico e o sim-bólico ao mesmo tempo.

Muitas lideranças religiosas tentam imprimir nos fieis a imagem de uma instituição e pessoas livres de qualquer impacto do bem e do mal, adotando uma visão que aterroriza por meio do uso de figuras que assustam: trevas, sombras, satanás, diabo e outras possibilidades metafísicas. Ainda não consegui entender como pode o diabo ter tanto poder ao ponto de adentrar a casa de Deus, afrontar lideranças religiosas e até bater em adeptos. Já no campo midiático, alardeia e enfatiza o fatalismo, adoçando o terror e produzindo desesperança. A grande mídia vive do terrorismo ideológico que pode matar tanto quanto as armas letais.

As grandes emissoras de televisão e a revista veja, entre outras precisam construir um bode expiatório para divulgar a imagem, nitidamente no cenário político brasileiro atual. Hoje o bode expiatório é José Dirceu, de modo que se esquece de outros que foram presos e de forma muito lúcida e deliberada, diferentes meios de comunicação social invisibilizam mensaleiros e corruptos de outros partidos políticos. Dilma, Lula e o PT são os bodes expiatórios por excelência do terrorismo midiático, resta saber quem os meios de comunicação social canonizarão, preparando o terreno para as eleições de 2018.

Em meio ao turbilhão de acontecimentos nessa eleição 2014, um fato chama muito atenção: a ideia de que o Brasil está dividido após os mais de 50 milhões de votos de Aécio Neves e os votos de Dilma que se aproximaram de 54 milhões. Essa ideia pode ser mais um engodo, pois não há divisão, mas aposta em diferentes caminhos de conduzir projetos de Brasil. Em outra perspectiva, pode-se questionar se não exista divisão em várias esferas da vida humana desde milênios.

É notório que a perda de Aécio para Dilma não se configure como divisão do Brasil, pela mesma razão que o discurso de Aécio pós-derrota tenha apenas um valor religioso simbólico, quando expressou da seguinte forma:

Eu deixo essa campanha ao final com o sentimento de que cumprimos
o nosso papel. São Paulo de forma mais clara o sentimento que tenho
no meu coração pelo cumprimento da minha missão: combati o bom
combate, cumpri minha missão e guardei a fé.

De qualquer modo, a lembrança do texto de Paulo de Tarso tenha um valor simbólico no contexto pós-derrota eleitoral. Entretanto, sabendo do percurso da vida de Paulo, só faltou a Aécio dizer que caiu do cavalo, vestiu-se de uma nova couraça e se converteu, o que seria uma violência ao modo de vida de Paulo de Tarso. Ademais, há que evidenciar possíveis divisões que antecedem ao que se presumiu ocorrer nas eleições no Brasil 2014.

O que dizer, por exemplo, da divisão entre riços e pobres, em todos os cantos do mundo, em que um pequeno grupo monopoliza e concentra rendas ao lado de milhões de pessoas que padecem de carência do básico para sobreviver? Há uma divisão mundial, produzida pelas grandes potências, havendo o que se instituiu como países desenvolvidos e países subdesenvolvidos; Há as regiões no país que julgam as melhores
em infraestrutura, em detrimento das demais, por uma visão extremante preconceituosa, egoística e excludente; Há a histórica produção da divisão sócio-espacial, em que uns habitam nas grandes metrópoles e outros nos morros, favelas, prostíbulos e ruas, basta lembrar como se construiu Brasília e as demais cidades satélites, hoje Regiões Administrativas; Há divisão entre tendências religiosas, latente e em certos casos,
explícitas;há divisão entre etnias e raças, uns sentindo superiores aos outros por causa da cor da pele; há divisão social do trabalho que produz assimetrias de classe, etnia e gênero; há, portanto, divisão multifacetada, por que só ver a divisão de votos, que por sinal revelam escolhas de projetos.

O ataque aos programas sociais, por sua vez, principalmente em tempo de eleição é terrorismo ideológico, pois ninguém vive apenas de voos metafísicos. Todo ser vivo precisa de um pouco de água e um pouco de pão, simbolicamente representando outros estados de espírito e de condições de vida.

Faz um bom tempo que se usou o velho clichê que não se pode dar o peixe, mas ensinar a pescar. Herbert de Souza, o Betinho, em sua passagem pela terra deixou grandes contribuições no campo do humanismo. Fez grandes intervenções pela vida e contra e fome e em certa medida foi contra o puro assistencialismo. Com a passar do tempo, Souza cresceu na postura e chegou a considerar que uma discussão acerca da
necessidade de avançar na direção da superação da pura assistência não podia invalidar a ajuda imediata a quem precisasse. Nesse patamar de compreensão não se pode deixar alguém morrer de fome na espera de uma ideologia que transforma. Quem passa fome não pode esperar.

O complemento de renda das famílias do Brasil, com maior extensão no nordeste é parte de uma solução imediata, o que muitas lideranças políticas, intelectuais e elite questionam e são contra, mas é bom perguntar se essas pessoas que são contra precisam desse tipo de ajuda. Seguramente não precisam ou quem já precisou, mudou de patamar socioeconômico. Quem concentra renda não precisa de complemento de renda, daí ser mais fácil ser contra a partir de uma zona de conforto. Tudo indica que é preciso avaliar com seriedade e profundidade em que medida apenas ensinar a pescar seja única solução, pois seria bom analisar se existe peixe no rio e se existe o próprio rio e mais do que isso, saber quem suja o rio e mata os peixes.

O ataque aos programas sociais, não mera coincidência, se estende ao ataque aos nordestinos. Há quem pensa ser o nordestino preguiçoso e acomodado, tendo que receber bolsas para sobreviver e até rejeitar trabalho. A visão negativa em relação ao povo nordestino tornou-se um modus vivindi, de forma que grupos neonazistas têm o nordestino como um dos alvos de seus esquemas de violência. Essa experiência não tem
nada que ver com vitimização. Trata-se de uma triste realidade que precisa ser transformada, para além de reformas pontuais e parciais.

Por razões óbvias, construídas no seio da história-processo, o nordestino sofre de um terrorismo sócio-espacial. Ainda vê o nordeste como um paraíso de praias, mas sem condições para quase nada. Vê-se com desprezo considerando o conjunto da região, da mesma forma que se tem visto a África, tão – somente com suas paisagens belíssimas, mas quem vê de fora e com um olhar de colonizador/a enfatiza-se o sofrimento, mortes, doenças, divisão etc. Ainda herdamos da colônia a profunda divisão produzida com interesses escusos e escancarados e há quem se assusta e diga que o Brasil atual vive uma divisão pós-eleição. Se houve divisão, deve-se considerar a luta de classe presente com maior nitidez, seja no campo das ideias, seja na escolha de projetos, mas tudo indica que não haja divisão ao estilo GloboNews.

Vejo com receio essa percepção sobre o povo nordestino, pois uma coisa é não trabalhar, outra coisa diferente é possuir um salário e em muitos casos, menos do que um salário para custear uma família grande. Eu faria a seguinte sensibilização, melhor do que uma provocação: como um patrão, um empresário/a, um latifundiário, um banqueiro e uma liderança política conseguiria viver com um salário mínimo ou com menos de um salário mínimo, como ocorre em vários estados brasileiros? Há injunções no percurso de vida das pessoas que precisam ser consideradas.

É urgente que se faça uma releitura dos fatos, a fim de que não caiamos na ingenuidade de pensar apenas com a cabeça da grande mídia, andar apenas com as muletas das lideranças religiosas e esquecer o que a história tem a nos ensinar e produzir novos conceitos sobre todas as formas de vida…

Se é possível um terrorismo com suas várias facetas e espaços, é possível também uma educação que desarticule qualquer terrorismo e fundamentalismos; é possível também uma sociedade do presente e da posteridade livre de qualquer esquema de violência que impeça a vida de convergir para a plenitude e nenhuma ação dia-bólica (que divide, exclui..) terá força contra a ação sim-bólica ( a que une, aproxima, acolhe,
equilibra…). A consciência sobre a pessoa humana em sua integralidade permite dizer que é o sim-bólico e o dia-bólico que constroem a realidade, entrecruzando e entrechocando na jornada que se faz ao caminhar.

Aproximamos do Natal (para quem acredita), Festas Natalinas e Ano Novo. É um tempo oportuno para a renovação das esperanças, das ideias e dos projetos. É momento para auscultar a grandiosidade do espírito que não é aterrorizante, nem falsificação do tempo da graça (kairós). A esperança em um mundo melhor é sempre condição para a superação de qualquer terrorismo, pois não há caos em que a humanidade não possa ser salva.

*Cristino Cesário Rocha é professor da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal.

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