Por administrador em 06/out/2009

Racumin passou no vestibular e foi embora da biblioteca… E agora?



Em função de sua história de grupo e da prática de vários projetos pedagógicos inovadores em sala de aula, há muitos anos a Escola Classe 18 de Taguatinga é referência de qualidade em educação no DF. Há 15 anos as crianças das 30 turmas da escola têm na Biblioteca Maria Clara Machado seu espaço vivo de alegria e a oportunidade de participar de atividades que fazem ler, imaginar e criar onde desenvolvem atividades coordenadas pelas professoras regentes da biblioteca.
Os estudantes têm atendimento de 50 minutos, com cronograma definido para as atividades como contos, jogos, concursos da melhor história de cada um, brincadeiras, dramatizações, teatro, tudo integrado com a literatura infantil. Além deste atendimento, o projeto coordena outras atividades culturais e pedagógicas na escola como o Recreio Artístico, um espaço para as crianças apresentarem livremente suas artes, a Leitura no Recreio, caixas de livros e revistas que se constituem uma opção de lazer no recreio, a Quinta Livre, que permite visitas espontâneas à biblioteca , para leitura livre, empréstimos de livros e fantasias.
Do livro ao palco, onde as crianças encenam uma peça teatral a partir de texto literário para toda a escola e comunidade, com ensaios, sonoplastia, cenário, figurino cuidadosamente preparado por eles mesmos e professoras da biblioteca. Com a criação das duas mascotes, Racumim e Racutia (personificados pela professoras Raquel e Célia), os ratinhos personagens que foram morar na biblioteca com intuito de roer os livros, mas aprenderam a ler e desenvolveram grande paixão por eles, se tornaram grande sucesso entre os alunos. Os ratinhos participam de peças teatrais temáticas, relacionadas ao conteúdo e cotidiano escolar e aparecem em datas e ocasiões especiais como a entrega do livro didático, as feiras culturais, o lançamento de livros.

Valor pedagógico

A receptividade é tanta, que as professoras resolveram transformar a história das mascotes, em livros e já lançaram “Deu rato na biblioteca”, em 2005, “O rato adormecido” em 2007 e em 2009, “Os amores de Racutia”. Pelos relevantes serviços prestados em educação, as mediadoras Maria Célia e Raquel Gonçalves foram condecoradas pela Câmara Legislativa do DF com o título de Cidadãs Honorárias de Brasília no ano de 2003, que considerou a prática pedagógica inovadora, no sentido de despertar o interesse e o hábito da leitura em crianças da rede pública.
Entretanto, apesar do imensurável valor pedagógico do projeto “Reinventando a Biblioteca”, a Secretaria de Estado de Educação não prioriza sua realização na escola. Em 2007 as atividades da Biblioteca Maria Clara Machado foram suspensas por determinação superior, com a alegação de existirem carências de professores em sala de aula. Naquele ano houve uma movimentação em defesa da escola. A comunidade escolar, preocupada com a perda da qualidade no trabalho da biblioteca, se mobilizou para uma aula de cidadania em frente à sede do governo local, com abaixo assinado e manifestação com brincadeiras, poesias, peça de teatro, dança. A mobilização garantiu a permanência do projeto.
Certa do valor pedagógico do projeto, neste ano de 2009 a Secretaria de Educação, por meio da EAPE, convidou as professoras Raquel e Célia para reproduzir sua prática e proporcionou a mais de setenta professores da rede pública o curso “Reinventando a Biblioteca”, com carga horária de sessenta horas e a intenção de disseminar a idéia das salas de leitura vivas, com atividades diversificadas, como acontece na Escola Classe 18 há quinze anos.
O surpreendente é que há uma dicotomia entre discurso e prática na Secretaria de Educação. Não satisfeitos, gestores-técnicos, que não reconhecem o valor do projeto, constantemente dificultam a realização das atividades. Em agosto de 2009, com a aposentadoria da Professora Célia Madureira, mais uma vez, o projeto foi atingido. Na contramão da história, a DRE de Taguatinga não abriu a carência nem enviou substituto para que as atividades não sejam paralisadas. O projeto funciona atualmente com apenas 50% de sua capacidade, visto que é impossível atender a trinta turmas com uma professora apenas.
No momento, a comunidade aguarda decisão favorável da Secretaria, para a continuidade do projeto, com a permanência da professora mediadora Raquel Gonçalves Ferreira e ainda uma substituta para a professora Maria Célia Madureira, que aposentada, juntamente com a equipe da escola e a direção, reivindicam compromisso e apoio nesta luta. Racumim passou no vestibular e estará sempre presente como voluntário, cabe a todos nós darmos continuidade a essa idéia que começou com simplicidade e eficiência. Afinal, como ensinam Racumim e Racutia, o Brasil só será um país de leitores quando a biblioteca for o coração das escolas. A Luta pela qualidade da educação na escola pública do DF é de todos nós! (por Maria da Gloria Bomfim Yung – Professora da rede pública de ensino do DF desde 1985)

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