Por administrador em 19/nov/2008

Democráticos???



No mês de setembro, o jornal Folha de São Paulo publicou artigo do economista Fábio Giambiaggi, no qual tecia críticas veladas – nunca diretamente – ao posicionamento da CUT durante o Fórum Nacional da Previdência. Prontamente, a Central enviou um artigo em resposta. O jornal não a publicou. Mesmo após dois meses, o artigo assinado pelo presidente Artur Henrique continua atual, por discutir o conceito de diálogo social e os efeitos dessa prática democrática sobre a sociedade como um todo. Veja o texto a seguir:

Democráticos???

“Em artigo na FSP de 21/09/2008, intitulado “autoritários”, um conhecido economista representante do pensamento neoliberal teceu duras críticas à segmentos da universidade, dos partidos de esquerda e do sindicalismo por seu caráter autoritário, porém a atual crise financeira internacional além de balançar a economia dos países centrais vem colocando em xeque esse conjunto de idéias por ele defendidas- estas sim autoritárias – que perpassaram as últimas décadas do século XX e o início do século XXI na qual a hegemonia do mercado era a solução para todas as mazelas do mundo.

O pensamento único neoliberal legitimado por um discurso tecnicista que procurava esconder por trás de planilhas e fórmulas econométricas interesses de grupos determinados, em especial os ligados ao setor financeiro, hoje encontra na realidade sua principal adversária e tal qual em outros momentos tentam classificar como autoritários todos que ousam ampliar o debate democrático sobre às escolhas políticas de nosso país.

Artur HenriqueIncomoda aos defensores do pensamento único cunhado pelo Consenso de Washington a pluralidade de idéias e os espaços de discussão e interlocução política abertos nos últimos anos. Ainda reféns do “Círculo de Viena” acreditam ser os portadores da razão e imersos em suas planilhas não percebem a complexidade da realidade histórica na qual são tão somente uma das muitas vozes que construirão o Brasil de amanhã.

Avessos a idéia que a história se faz para além dos escritórios de consultorias tentam insistentemente desqualificar os movimentos sociais classificando-os como obstáculos “à agenda que pretende integrar o Brasil às tendências mais modernas do mundo”.

Uma característica comum aos defensores do pensamento único está em acreditarem no “mito do novo”, na qual o moderno é sinônimo de ótimo. Não percebem porém que, confrontados com a realidade a cada nova crise, vão deixando de serem eles os “modernos” superados pela própria dinâmica da história.

A principal mudança ocorrida nos últimos anos em nosso país mais do que qualquer outra está na participação da sociedade organizada em fóruns coordenados pelo governo em substituição às decisões tecnocratas que ocultavam nas brumas da isenção científica interesses de grupos específicos.

Nos espaços democráticos de discussão todas as análises e argumentos são passíveis de contestação, tanto técnicas quanto políticas. Os interesses são explicitados e as caixas pretas dos modelos matemáticos são abertas para crítica científica e social. Não há verdades absolutas, tão pouco pensamento único, mas uma pluralidade de visões das quais são definidas as escolhas. Se são as certas, somente o tempo dirá, mas pelo menos são escolhas da qual diferentes atores delas participaram.

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES (berço do Plano de Aceleração do Crescimento – PAC e da Política de Desenvolvimento Produtivo – PDP) e o Fórum Nacional da Previdência são espaços característicos dessa visão, que não é nova ou moderna, ao contrário, ela tem origem nos mecanismos que criaram a Organização Internacional do Trabalho – OIT já em 1919 tendo como princípio a democracia que tem suas origens na Grécia antiga.

Vale a pena aqui detalhar um pouco o processo de discussão no Fórum Nacional da Previdência que tentam desqualificar por este não ter optado pelas reformas defendidas pelos neoliberais. Neste, as diferentes posições foram explicitadas e os diversos modelos de projeções para a previdência foram confrontados deixando claras as diferentes visões de cada modelo.

Na ocasião defendíamos que as projeções que subsidiavam os que defendiam a reforma da previdência não consideravam o impacto do crescimento econômico, da inclusão previdenciária, do aumento dos empregos e da remuneração dos trabalhadores e muito menos das melhorias na gestão, fatores estes determinantes quando tratamos das contas da previdência.

Mais do que defender aqui nossas posições, mesmo porque as próprias contas da previdência com o aumento crescente da arrecadação associado ao crescimento econômico já evidenciam o que apontávamos, é importante se ater para o fato de que lá se conseguiu construir consensos a respeito de um conjunto de preocupações que hoje são objetos de discussão de políticas para sua superação, como é o caso do grande contingente de trabalhadores desprotegidos do sistema social brasileiro que carecem de medidas concretas de formalização.

Por fim, cabe aqui a lembrança, de que as escolhas no que se refere às potencialidades abertas pelas descobertas dos poços de petróleo do pré-sal e da bioenergia são patrimônios dos quais a nação deverá definir em espaços democráticos, na qual o papel dos técnicos será fundamental, porém, somente uma das múltiplas determinações que definirão nosso futuro.” Artur Henrique, presidente nacional da CUT

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