Por administrador em 19/maio/2014

Contraturno evita evasão de alunos em comunidades carentes



O estudo está cativando mais os alunos em favelas brasileiras. A escola e projetos de instituições e ONGs são uma forma de oferecer melhores oportunidades aos moradores das comunidades. Em pesquisa de 2013, realizada pelo Data Popular em 63 favelas brasileiras, com 2 mil moradores, 17% afirmaram que tinham intenção de entrar para a faculdade no próximo ano, enquanto no Brasil urbano (como foi chamado o restante da cidade), o percentual foi de 10%. A empolgação se repete com os cursos profissionalizantes: enquanto no Brasil urbano 14% pretendia cursar um técnico dentro de um ano, entre os moradores da favela, o número crescia para 31%.

Diversos projetos acontecem nas favelas pelo Brasil afora com o objetivo de incentivar a educação e levar a oportunidade de estudar para a maior quantidade de brasileiros possível. Um dos que mais se destaca acontece há 15 anos no morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. Desenvolvido pela Casa da Arte de Educar, o projeto aproveita os conteúdos comunitários para ajudar os alunos na escola, por meio da metodologia da Mandala dos Saberes, já adotada pelo Ministério da Educação (MEC). A gestora de projetos da Casa, Lolla Azevedo, explica que as mandalas foram escolhidas porque seu símbolo é centralizador, é uma visão sistêmica de que nós somos um todo com o conhecimento.

Para participar, os estudantes precisam ter entre seis e 16 anos, frequentar uma escola regular e morar na Mangueira. No contraturno, os alunos participam de atividades na sede do projeto por quatro horas diárias, como oficinas de artes plásticas, música, capoeira, jogos que resgatam a memória da comunidade e aulas de reforço para auxiliar nos conteúdos da escola. Todas norteadas pelas experiências e bagagem cultural trazidas pelos moradores. As mandalas, muitas vezes confeccionadas manualmente ou impressas, são utilizadas em sala de aula para direcionar as discussões entre professores e estudantes, relacionando os conteúdos escolares com vestuário, lazer, organização comunitária e habitação.

Segundo a coordenadora geral da Casa da Arte de Educar, Sueli de Lima, o objetivo é mostrar que é possível educar compreendendo os diversos universos culturais populares. “Ouvíamos muito na comunidade que a escola não utilizava os saberes dos estudantes de classes populares. Os professores dizendo que esses alunos não sabem nada, por exemplo. Mas eles têm uma experiência diversa dos moradores de outras partes da cidade. O projeto tenta mostrar para o mundo acadêmico que podemos colocar o universo das comunidades populares em contato com o restante da cidade e todos se beneficiam”, diz.

Pais voltam a estudar; alunos viram professores
Outro diferencial é que a metodologia não é instrumentalizada, mas sim livre para ser apropriada conforme a realidade em que está inserida, formulando campos de diálogo entre professores, alunos e pais, além de valorizar o morador da favela e suas experiências e conhecimentos. “A metodologia permite que um professor de capoeira possa conversar com o de matemática e eles possam trabalhar juntos, complementando a escola”, explica Sueli. A participação comunitária é muito grande. O projeto realiza pesquisa sobre a realidade local e as avaliações são feitas em conjunto com os moradores. Com as famílias, são realizadas rodas de conversa, onde são discutidos seus direitos e deveres. Os pais dos alunos que quiserem voltar a estudar são bem-vindos na Casa, que oferece o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) no turno da noite.

A professora Rose Carol da Silva, moradora da Mangueira, passou de aluna à educadora da Casa. Após se formar em pedagogia na Universidade da Cidade, Carol retornou ao projeto como monitora e, após dois anos, passou a ser professora. O que mais a atraiu no método é a liberdade de criação. “Não ficamos presos no que está pré-estabelecido, podemos desconstruir para construir de novo depois. Realizamos um trabalho continuado. As crianças que entram no projeto criam uma vontade enorme de viver e participar do mundo”, comenta.

Os resultados do projeto já começaram a aparecer. O índice de evasão escolar, em 2011 e 2012, para os alunos da Casa, foi de 0%. Em termos de reprovação escolar, enquanto a média da Mangueira é de 14%, a dos estudantes da Casa cai para 2%. O que sugere que o reforço de conteúdo oferecido pelo projeto ajuda os estudantes na escola. O aluno Emerson Pereira dos Santos, 14 anos, confirma que a melhora do desempenho na escola acontece. “Desde que comecei a frequentar a Casa, há 5 anos, minha vida mudou. Não sabia muito bem o que era equação, a matemática. As atividades na Casa são como um reforço”, conta.

O estudante do 9º ano do ensino fundamental, que no futuro quer ser bombeiro, participa das aulas de capoeira, dança, música e outras tantas porque gosta. “Antes eu apenas ficava em casa estudando. Hoje venho para a Casa porque tenho vontade de participar. O diálogo escolar também me ajuda muito”, afirma.

Sueli atribui a permanência dos alunos do projeto na escola à forma com que as atividades são desenvolvidas: construindo sentido para o aprendizado. “Invertemos a ideia de decorebas e de que o aluno é um ser passivo que não deve se colocar em uma posição. Na Casa, ele é ativo, realiza projetos de educação, empreende, identifica as falhas e pensa em ações que pode fazer para contorná-las. As informações que eles aprendem na escola passam a ter um sentido”, explica.

A participação familiar também é uma conquista do projeto. Do grupo de pais ou responsáveis pelos alunos, 95% participa das reuniões organizadas pela ONG, segundo dados da Casa. Dos quatro filhos da dona de casa Ednezer Rezende, moradora da Mangueira, três participam das atividades. Ela mesma irá integrar um curso de maquiagem. “Todo mês tem reunião, tem roda de conversa, psicólogos para orientar sobre o desenvolvimento das crianças, dar dicas. Nós também podemos opinar sobre o que queremos na Casa”, conta.

A vida de uma de suas filhas mudou bastante com a ajuda dos professores do projeto. A menina de 14 anos tem déficit de aprendizagem, descoberto na Casa. “Ela não passava de ano, tinha muitas dificuldades. Na sede, ela tem muito apoio, eles nos ajudaram a achar onde fazer o tratamento, depois de detectarem o motivo das dificuldades”. A moradora acredita que seja importante para as crianças participarem de atividades educativas, mesmo que só um esporte, e conta que os filhos adoram os passeios, que muitas vezes viram assunto para a semana inteira. “Eles vão muito a museus. São crianças que não teriam oportunidade de ir de outra forma, algumas não sabem nem o que é um museu. Além disso, os que participam hoje estão mais tranquilos, menos rebeldes”, conclui.

Parceria com lideranças de outras comunidades
O projeto tem parceria com diversas lideranças da comunidade da Mangueira, além de prefeituras de outras cidades fluminenses, secretarias de educação e de cultura, museus, escolas, conselho tutelar, entre outras. Sueli informa que está prevista uma ampliação dos trabalhos do projeto para 10 favelas que constituem a grande Tijuca. A Casa também oferece uma capacitação aos professores que queiram utilizar a metodologia da Mandala dos Saberes em seu trabalho. Qualquer professor que tenha interesse em aprender ou contribuir com o projeto pode entrar em contato.

O projeto Casa da Arte de Educar mostra que é possível incluir cada vez mais o jovem na educação e mantê-lo estudando. “O saber não é apenas o que se ensina na escola. O importante é criar relações com o que se aprende no colégio com a vida. As pessoas que moram em comunidades populares são ágeis em diversos aspectos da vida social, resolvem problemas de forma autônoma, e o seu saber não pode ser jogado na lixeira”, afirma Sueli. E se 94% dos moradores das favelas entrevistados pelo Data Popular se considera feliz nas comunidades, 81% gosta de viver onde vive e 66% não gostaria de sair da favela, por que não utilizar seus elementos para educar os jovens que vivem nessa realidade?

“A educação na comunidade popular é um tema social, de toda a sociedade. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas, melhores serão os avanços. Principalmente os moradores. Muitas vezes, eles não sabem como participar da escola, se é o lugar deles ou não. Mostramos o que é de direito deles e o que podem cobrar”, acrescenta Lolla Azevedo.

Educação na favela
Ainda na pesquisa realizada pelo Data Popular no ano passado, as novas gerações de moradores das favelas estão mais escolarizadas: dos 18 aos 30 anos, apenas 2% não têm escolaridade nenhuma e 48% possui ensino médio, contra 9% sem escolaridade e 17% com ensino médio dos moradores de 48 a 60 anos. A taxa de quem tem ensino médio é baixa na faixa etária de 18 a 30 anos, apenas 1%. Porém, o otimismo nas comunidades brasileiras prevalece. Sete em cada 10 entrevistados concordam que, para progredir na vida, é preciso estudar.

Segundo o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto 14,7% da população residente em outras áreas havia concluído o ensino superior, nos moradores de aglomerados subnormais (como são denominadas as favelas e comunidades populares pelo IBGE), o número era de 1,6%. Em relação a frequentar a escola, 7,12% o faziam nos aglomerados subnormais, contra 29,24% do total da população. “Queremos desmistificar que o pobre é sempre carente e que para ele serve qualquer coisa. Eles mesmos acabam acreditando e essa ideia deve ser desconstruída”, conta Lolla. A gerente acredita que, se o indivíduo se sentir integrado e pertencendo a algum lugar em seu aprendizado, deixará de pensar que é invisível. “Estamos na mesma cidade, no mesmo lugar que as pessoas que não moram na favela. Os moradores daqui devem sentir que pertencem à cidade e vice-versa”.

(Do Terra)

Imprimir