Visibilidade trans, trabalho e resistência são temas do Podcast Estúdio CUT

O Podcast Stúdio CUT dedicou um episódio especial à Visibilidade Trans, cuja data é celebrada em 29 de janeiro, reunindo a trajetória e as reflexões de Athena Joy, artista, assessora jurídica da Apeoesp e mulher trans, em conversa conduzida por Rô Vicente. O diálogo reafirma que visibilidade não pode se limitar à exposição da violência, mas precisa estar associada à ocupação de espaços, acesso ao trabalho, políticas públicas e reconhecimento social.
Ao se apresentar, Athena destacou sua atuação no jurídico da Apeoesp, onde auxilia professoras e professores em demandas administrativas e trabalhistas. Para ela, estar em um sindicato historicamente vinculado à defesa da educação pública também tem um significado político. “As pessoas veem que nós somos pessoas LGBTs, que somos pessoas trans, e que estamos atuando na sociedade, não só em uma esquina”, afirmou, ressaltando a capacidade profissional das pessoas trans em diferentes áreas.
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Lugar de fala
Um dos eixos centrais da conversa foi a empregabilidade trans e o papel das políticas públicas para romper ciclos de exclusão. Athena relatou que sua formação acadêmica em Direito só foi possível por meio do Programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo. “Foi a única oportunidade que eu tive de terminar meus estudos e mostrar para a sociedade que a minha capacidade era muito mais do que o lugar onde tentaram me colocar”, disse.
Ela destacou que programas como esse vão além do acesso à renda: criam condições reais para permanência na escola, formação profissional e inserção no mercado de trabalho. Para Athena, a ampliação dessas políticas é fundamental. “É preciso criar mais cotas, mais oportunidades, não só em São Paulo, mas no Brasil inteiro”, defendeu.
Prostituição e exclusão social
A conversa também abordou a realidade da prostituição entre pessoas trans e travestis, tema tratado sem moralismo e com densidade social. Athena compartilhou sua própria experiência e foi direta ao afirmar que não se trata de escolha livre em um contexto de exclusão estrutural. “Muitas vezes, se a gente não fizer esse trabalho, a gente morre de fome”, afirmou.
Ela reforçou que a prostituição é um trabalho digno, mas se torna um problema social quando surge como única alternativa. “As pessoas acham que é uma vida fácil, mas não é. É uma vida de risco, com violência, exposição e solidão”, relatou, defendendo políticas que garantam outras possibilidades de sobrevivência e realização profissional.
Violência, transfobia e o papel da educação e da política
O episódio também discutiu os altos índices de violência contra pessoas trans no Brasil, que seguem colocando o país entre os que mais matam essa população no mundo. Para Athena, combater essa realidade exige ações estruturais. “A gente tem que conscientizar, educar desde a infância e ocupar a política”, afirmou.
Rô Vicente reforçou que a visibilidade reivindicada hoje é outra: não a dos corpos mortos ou marginalizados, mas a presença ativa em espaços de decisão, no mundo do trabalho e na política institucional. A conversa destacou que representatividade política aliada à consciência de classe é fundamental para enfrentar o conservadorismo e a exclusão.
Arte drag como resistência e expressão política
Além do trabalho jurídico e da militância, Athena compartilhou sua trajetória artística como performer drag, cantora e atriz, com mais de duas décadas de atuação. Para ela, a arte sempre foi um espaço de resistência e sobrevivência. “A arte me salvou muitas vezes”, afirmou, ressaltando que a cultura drag é também uma forma de ativismo e denúncia.
Ela lamentou o impacto da pandemia sobre a cena cultural e a diminuição de espaços para apresentações, mas reforçou que a arte segue sendo fundamental para a expressão da identidade e para a construção de autoestima coletiva. “A vida é uma arte, e a arte não pode morrer”, disse.
Espiritualidade, ancestralidade e acolhimento
A espiritualidade de matriz africana apareceu como outro eixo fundamental do diálogo. Iniciada no candomblé, Athena falou sobre o acolhimento encontrado no terreiro e a importância da ancestralidade. “No candomblé eu fui respeitada, acolhida e fortalecida. Foi onde eu cresci espiritualmente”, relatou.
Ela destacou que muitas pessoas trans constroem suas próprias famílias fora dos laços sanguíneos, encontrando apoio em comunidades religiosas, culturais e políticas. “A nossa família muitas vezes é a que a gente constrói pelo amor”, afirmou.
Visibilidade trans para o ano inteiro
Ao final, o episódio reforçou que o Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, deve ser entendido como um marco de luta permanente. Para Athena, a visibilidade que importa é a que garante vida digna. “A gente já cansou da visibilidade da morte. A visibilidade que queremos é a do trabalho, da vitória, da dignidade”, disse.
O Podcast Estúdio CUT reafirma, com este episódio especial, o compromisso da Central com a defesa dos direitos humanos, da diversidade e da justiça social. Ao trazer a trajetória de Athena Joy para o centro do debate, a CUT reforça que não há democracia, trabalho decente ou igualdade sem a presença e o protagonismo das pessoas trans em todos os espaços da sociedade.
Fonte: CUT
