Tese de doutorado que debate educação e desigualdade no sistema prisional aberta à categoria
Quando 66,7% das pessoas privadas de liberdade são negras, jovens e pobres: a educação em prisões torna-se ato de liberdade
Aberta aos(às) professores(as) e orientadores(as) educacionais da rede pública de ensino do Distrito Federal e a toda a comunidade acadêmica, bem como à sociedade, a defesa da tese de doutorado intitulada “Prisioneiros do silêncio: socialização, educação nas prisões e violação sistemática dos direitos humanos” busca levar a todos e todas a refletirem sobre quem o sistema prisional insiste em invisibilizar — e por quê. O trabalho é de autoria de Vanessa Martins Farias Alves Bomfim, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania da Universidade de Brasília (UnB).
Mais do que um título, a pesquisa apresenta um diagnóstico contundente: o sistema prisional brasileiro não apenas restringe a liberdade física, mas também sequestra a subjetividade das pessoas privadas de liberdade (PPL) e das que atuam junto a elas, colonizando sua capacidade de ser, falar e existir como sujeitos de conhecimento e como cidadãos. A autora convida a todos(as) a participar da defesa de uma tese que coloca no centro do debate acadêmico aqueles(as) que o sistema tenta invisibilizar.
Números que revelam desigualdades estruturais
Os dados que fundamentam a pesquisa são alarmantes. Atualmente, 66,7% da população carcerária brasileira é composta por pessoas negras — enquanto negros representam 56,1% da população geral do país. Além disso, 75% das pessoas privadas de liberdade possuem baixa escolaridade, e a maioria é oriunda de periferias marcadas pela ausência de políticas públicas e pela escassez de oportunidades além do crime.
Longe de serem estatísticas abstratas, esses números representam pessoas com história, dignidade e capacidade de transformação. São trajetórias atravessadas pela colonialidade, pelo racismo estrutural e pela pobreza.
Educação entre emancipação e opressão
A pesquisa se apoia em narrativas (auto)biográficas e em uma metodologia decolonial para articular educação, direitos humanos e resistência. O estudo demonstra que a educação nas prisões pode se constituir tanto como espaço de emancipação quanto como mecanismo de reprodução das opressões já presentes na sociedade.
Ao oferecer uma perspectiva crítica sobre as políticas públicas penitenciárias, a tese propõe caminhos para uma educação verdadeiramente libertadora, que reconheça as pessoas privadas de liberdade como sujeitos de direitos e de saberes.
Por que esse debate importa?
O trabalho questiona estruturas de poder historicamente invisibilizadas e dá centralidade às vozes de quem foi silenciado. Ao reconhecer que o sistema penal opera como mecanismo de seleção social — onde cor da pele e condição econômica frequentemente determinam quem será julgado, condenado e esquecido — a pesquisa amplia o debate sobre justiça, equidade e direitos humanos.
Banca examinadora
A banca de defesa contará com a presença de:
- Prof. Dr. Rodrigo Matos-de-Souza (UnB)
- Profª. Drª Elen Cristina Geraldes (UnB)
- Prof.ª Drª Maria Helena Menna Barreto Abrahão (UFPe)
- Profª. Drª Elenice Maria Cammarosano Onofre (UFSCar), pesquisadora reconhecida nacionalmente por seus estudos sobre o sistema prisional
Serviço
Data: 26 de fevereiro de 2026
Horário: 10h
Local: Faculdade de Educação, Universidade de Brasília (UnB)
A participação no evento é também um gesto de reconhecimento. Trata-se de ouvir uma pesquisa que recusa silêncios, humaniza números e aposta na construção de futuros diferentes para aqueles que o sistema tentou apagar.
