Reportagem do Sinpro na 135º edição da revista Xapuri alerta para racismo ambiental no DF

A 135ª edição da revista Xapuri traz uma reportagem produzida pelo Sinpro que aborda o racismo ambiental e como esse fenômeno se manifesta no Distrito Federal. O levantamento é realizado a partir de um estudo protagonizado por estudantes do Centro de Ensino Fundamental 04 do Guará, com apoio de professores.

Entre outros pontos, a matéria mostra como a qualidade da água e o acesso a serviços urbanos variam conforme as condições socioeconômicas das regiões, revelando que comunidades mais pobres convivem com infraestrutura precária e maiores riscos ambientais.

A 135ª edição da revista também aborda temas como a luta do povo venezuelano por democracia popular, biodiversidade, consciência negra, ecologia, direitos humanos e outros. Leia a revista aqui.

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Leia reportagem do Sinpro publicada na 135ª Revista Xapuri. 

 

Racismo ambiental na capital do Brasil 

Estudantes do CEF 04 do Guará protagonizam estudo e mostram que, quanto mais pobre a região, piores as condições da água que chega aos moradores do DF

O termo racismo ambiental foi criado na década de 1980 por Benjamin Franklin Chavis Jr. para explicar como as consequências da ação do homem sobre o meio ambiente afetam de forma desproporcional as populações mais vulneráveis.

Partindo desse conceito, estudantes do Centro de Ensino Fundamental 04 do Guará realizaram um estudo para analisar as condições ambientais e a qualidade da água em áreas  com alguma relevância para a comunidade escolar. O trabalho foi desenvolvido com apoio e supervisão dos professores Wellington Silva, Luís Felipe e Jackson Barreiros.

Os parques Ezequias Heringer e Ermida Dom Bosco, o córrego Cabeceira do Valo e a comunidade Santa Luzia, na Cidade Estrutural, além da própria escola, foram alguns dos locais observados pelos alunos. As áreas, em sua grande maioria, são marcadas por menores indicadores de desenvolvimento humano e pela concentração de populações em situação de maior vulnerabilidade social.

Ao longo das visitas, foram avaliados aspectos diversos, como a existência — ou não — de arborização, parâmetros de distribuição de água e coleta de lixo, a disponibilidade de infraestrutura nos parques e outros fatores.

Os dados coletados revelaram que, quanto mais próximo do Plano Piloto — região central de Brasília, marcada por maior renda média —, maior é o acesso a serviços urbanos, o que evidencia uma desigualdade estrutural no Distrito Federal, onde o direito à cidade não é assegurado de forma igualitária.

“Quando a infraestrutura só chega plenamente a determinados territórios, estamos falando de racismo ambiental, porque são sempre as mesmas populações que ficam expostas à falta de saneamento, de água de qualidade e de serviços públicos”, afirmou o professor Wellington Silva.

O retrato da desigualdade ambiental

A análise da água trouxe resultados preocupantes e incentivou os estudantes a irem além. Eles aprofundaram a investigação e, durante a visita à comunidade Santa Luzia, identificaram problemas no abastecimento de água potável e condições precárias de saneamento básico, com a presença de esgoto a céu aberto.

Para dimensionar a gravidade da situação, a análise da água coletada na residência de uma moradora identificou a presença de brometo, composto que pode se transformar em bromato, substância potencialmente cancerígena. A análise foi realizada em parceria com o Laboratório de Limnologia da Universidade de Brasília. O cenário era tão crítico que, em uma das amostras analisadas, foi identificada uma substância que nem o próprio equipamento conseguiu classificar.

Por sua importância ambiental e social, o projeto dos alunos ultrapassou os muros do CEF 04 do Guará e foi premiado em várias mostras científicas: 1º lugar na etapa regional do Guará do 14º Circuito de Ciências do DF, 3º lugar na etapa distrital do mesmo circuito, e 1º lugar na Feira Brasiliense de Tecnologia e Ciência (Febratec).

Nessa última, os alunos concorreram com estudantes de todo o país e conquistaram credencial para participar de uma feira científica na Espanha. Agora, o grupo se mobiliza para arrecadar as verbas necessárias para viabilizar a viagem e a participação no evento internacional.

“O estudo mostra que o racismo ambiental não é um conceito abstrato, mas uma realidade que afeta diretamente a vida das comunidades mais vulneráveis. A pesquisa permitiu que os estudantes compreendessem, na prática, como a desigualdade ambiental se manifesta no território do DF e por que políticas públicas são urgentes. Agora, vamos nos mobilizar para levar esse estudo para fora do país”, afirmou o professor Wellington Silva.