Racismo não racista: branquitude e machismo na live do PCO
Na questão racial, a tarefa das pessoas negras em “desalienar” o Brasil ainda nos mantém muito ocupados. Porém, em tempo, trago à tona uma análise do discurso do racismo não racista e do machismo reverberados mais uma vez numa live do Partido da Causa Operária-PCO.
É muito comum em alguns discursos a presença do “racismo não racista” (Alves, 2024). Em resumo, esse tipo de discurso – calcado na cultura de apagamento dos rastros da escravidão negra e indígena – procura diminuir a gravidade do racismo enaltecendo outro fator como sendo mais relevante, ou também quando elege uma pseudo solução generalista para uma infinidade de problemas que não são diretamente raciais.
Em termos práticos, o racismo não racista também está presente naqueles jargões de opinião quando dizem: “ao invés de cotas raciais, deveríamos ter apenas cotas sociais, porque contempla a todos igualmente”; “ao invés de consciência negra, devemos falar em consciência humana”; “perante a lei, somos todos iguais”…
Já as figuras de autoridade e suas organizações sociais, predominantemente hegemonistas, apresentam discursos mais estruturados – em termos de gestos, ações, argumentos, “silêncios”, omissões, negligências – muitos elementos do racismo estrutural, institucional e da branquitude. Porém a fobia não os permite esconder por muito tempo o racismo historicamente cultivado pelo “Eu Soberano” (Carneiro, 2005).
O racismo não racista não advém apenas do racismo, mas de sua ideologia gemelar, a saber, a branquitude (Theodoro, 2022; Bento, 2022). A branquitude é uma ideologia perversa, camuflada, invisibilizadora e que produz uma infinidade de benesses e privilégios às pessoas brancas. Embora a intenção do racismo não racista não seja do cometimento do racismo em si, a sua prática alimenta a branquitude, porque não reconhece o racismo como instrumento de violações de direitos e violências (pretéritas e hodiernas).
O racismo não racista – ao mesmo tempo que procura tutelar o que a pessoa negra é, o que ela pode ser, saber, ter, dizer, como viver e como morrer – também procura uma tangente para solução do problema causado pelo racismo, porém fugindo da questão racial, porque o reconhecimento da existência do racismo equivale ao reconhecimento das responsabilidades dos racistas e das instituições em aplicar a reparação, assim como o reconhecimento do racismo expõe o mar de privilégios das pessoas brancas.
Por estas razões, o racismo não racista é um discurso típico de pessoas brancas, sobretudo as que possuem mais privilégios sociais, econômicos, políticos, culturais e acadêmicos, por exemplo. Ao passo que o racismo não racista praticado pelos demais segmentos representa o poder de influência ideológica que as correntes hegemônicas possuem sobre as massas subalternizadas.
Foi veiculada numa live do PCO no YouTube, em 26/05/2025, uma palestra do presidente do partido, na qual ele fez uma leitura rasa e machista sobre o estupro secularmente cometido por brancos colonizadores do Brasil contra as mulheres negras e indígenas. Nessa fala o presidente do PCO expôs a matriz de um discurso de “racismo não racista” e seus nichos ideológicos.
A justificativa do palestrante em defender uma pauta dita não racista consiste no argumento de que o PCO é um partido que mais pensa nas pessoas negras, porque se todos nós, negros, brancos, pobres, indígenas etc., nos unirmos venceremos o capitalismo. Ora, mas o capitalismo (industrial) surge não necessariamente com o processo inglês de industrialização com base no motor à combustão, mas com base na propulsão humana (capitalismo comercial) – que “queimou” músculos, sangue, ventres, identidades, culturas, vidas, reinos, aldeias, dignidade humana – de massas de escravizadas e escravizados das populações tradicionais africana, afrodiaspórica e indígenas no Brasil e no mundo explorado pelo Velho Continente. Quaisquer tipos de capitalismos ainda se sustentam no sucumbimento das vidas negras e das pessoas dos demais segmentos socialmente subalternizados.
Neste discurso do PCO, cheio de barbáries do racismo não racista e machismo nefasto, o presidente do PCO, um homem branco, desconsidera a questão de gênero e de raça arraigadas na cultura do estupro, do feminicídio e da violência doméstica no Brasil. As mulheres negras foram estupradas e violentadas não apenas na escravidão, aliás, é no escravismo que se inicia a cultura do estupro moderno. – A sua fala, senhor presidente do PCO, tenta invisibilizar as diferentes realidades, pautas, segmentos sociais sob a ótica de uma única variante, o capitalismo. Saia desta cantilena soberanista!
Senhor presidente do PCO, aqui é Brasil. Mesmo as pessoas brancas não devem fugir ao debate sobre seus privilégios de cor, pois a sua cor, raça, crença, ideologia, classe lhes garantem, além dos direitos que todos deveriam ter garantidos igualmente, benesses, privilégios.
Como pessoa branca que o senhor é, muito me admira a sua paixão identitária pelas ideologias políticas – que não são inteiramente descartáveis – de pessoas brancas. Neste quesito, retomando uma recomendação do grande Xamã Yanomami Davi Kopenawa (apud Alves, 2024) às pessoas brancas identitariamente perdidas, o senhor poderia abandonar essa sombra funesta do “Eu Soberano” (Carneiro, 2005) e orientar-se pela ancestralidade boa das pessoas brancas de suas linhagens antigas e cooperar com todos nós contra a necropolítica (Mbembe, apud Alves, 2024), o racismo, o patriarcalismo, a pobreza, as desigualdades de todos os tipos.
Nos Estados Unidos da América, a luta pelos Direitos Civis deflagrada pelos movimentos negros teve grande apoio do comunismo, porque o então Império Russo na Guerra Fria tinha como alvo não a questão racial negra em si, mas o objetivo de enfraquecimento do capitalismo endossado pelos Estados Unidos. O comunismo e os direitos civis foi de fato uma combinação bonita, potente e até promissora para aquele contexto e época, mas já há uma suspeita em que os fatores unicamente ideológicos, políticos e econômicos não conseguem corrigir problemas estruturais, até porque, em alguma medida, os Direitos Civis foram conquistados pelos negros norte-americanos, mas o racismo latente naquelas terras ainda encarcera em massa, mata e viola direitos das pessoas negras, inclusive além das fronteiras americanas.
Se a intenção do PCO é arregimentar um exército para o seu quartel, ele precisará, antes de tudo, se alfabetizar racialmente e em termos de gênero, porque a questão negra nos é muito cara. Aliás, boa parte das pessoas negras tem suas vidas vividas em trincheiras sociais e identitárias. São os nossos corpos que ainda tombam em massa nos morros, favelas, periferias. Somos nós, pessoas negras e indígenas, sobretudo mulheres, as que ocupam maciçamente a linha da pobreza e da miséria, do analfabetismo, e dos demais tipos de violações de direitos.
A nossa questão é identitária sim, mas não “apenas identitária” como o senhor disse. Saiba que se ainda estamos de pé nesse lodaçal que o senhor chama apenas de “capitalismo” é porque nos milhares de terreiros de matriz africana, nos milhares de quilombos, nas centenas de territórios indígenas, nas centenas de irmandades negras, por exemplo, temos fortalecidas as nossas tradições ancestrais, as nossas tecnologias de cura, as nossas políticas de combate ao racismo. Racismo este arraigado no capitalismo ou mesmo no comunismo.
Concordo com o senhor em um ponto. Precisamos mesmo nos unir. Porém a causa da questão negra não é apenas socioeconômica, como dito antes, porque ela vai muito além das questões identitárias, operárias/trabalhistas preconizadas pelo nicho do PCO. Assim sendo, eu convido o PCO a tomar parte em nosso exército que a séculos luta bravamente, desde as nossas maiores lideranças, tais como Dandara, Zumbi dos Palmares, o Almirante Negro, Luís Gama, Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Marielle Franco. Inclusive algumas destas lideranças fundaram o então Estado Palmarino, criaram milhares de quilombos e terreiros de matriz africana.
Referências:
ALVES, Adeir Ferreira. Vidante: um filosofar de candomblé. (Tese de doutorado), Programa de Pós-graduação em Metafísica. Universidade de Brasília, 2024.
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Carneiro, 2005
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. (Tese de doutorado) Faculdade de Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005.
THEODORO, Mário. A sociedade desigual: racismo e branquitude na formação do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
Rui Costa Pimenta detona os ideólogos do identitarismo: Cortes da Análise Política da Semana. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=48YfO0ZsKW0. Acesso em 11/12/2025.
Adeir Alves – Doutor em Metafísica (UnB), Mestre em Direitos Humanos (UnB), Graduado em Filosofia (Inst. Sto. de Aquino) e Professor da SEEDF.
