Nota da CUT sobre os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã

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A Central Única dos Trabalhadores (CUT) repudia veementemente a ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, que, nos últimos dias, tem se espalhado pelo Oriente Médio, com desdobramentos imprevisíveis. Sob a justificativa de um “ataque preventivo”, Estados Unidos e Israel iniciaram uma ofensiva militar sem autorização do Conselho de Segurança da ONU – ou do próprio Congresso estadunidense –, impondo ao Irã um conflito armado de grande escala. Morreram não apenas o aiatolá Ali Khamenei e diversos outros líderes políticos e militares iranianos, mas também centenas de civis – incluindo crianças, entre as mais de 175 vítimas do bombardeio à escola primária Shajare Tayyiba, em Minab.

O conflito evidencia o quanto o sistema multilateral tem sido fragilizado para além de suas limitações estruturais, particularmente pelas dificuldades do Conselho de Segurança em prevenir ou conter ações unilaterais envolvendo grandes potências. É especialmente grave que os bombardeios tenham ocorrido durante um processo de negociações diplomáticas, no qual o Irã já havia sinalizado concessões importantes aos EUA, que têm dificuldade em justificar os ataques, uma vez que Trump havia anunciado ter “obliterado” o programa nuclear iraniano na guerra de 12 dias, em 2025.

Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel, recorrem a essa escalada militar em meio ao desgaste político que enfrentam em seus respectivos países, com Trump adotando uma postura cada vez mais confrontativa na política externa e se mostrando disposto a aprofundar a rivalidade estratégica com a China ao atacar o Irã, parceiro estratégico de Pequim e com papel relevante no fornecimento global de petróleo. Ao situar esse ataque no quadro mais amplo da política externa, essa ofensiva sucede ações como a intervenção militar dos EUA na Venezuela e medidas coercitivas contra Cuba, refletindo práticas unilaterais que vêm sendo denunciadas pela CUT e pelo conjunto do movimento sindical internacional como um padrão de agressão que viola o direito internacional e aprofunda o risco de uma crise internacional de proporções sistêmicas.

Não se pode permitir que a política externa seja instrumentalizada como mecanismo de recomposição de apoio interno – a guerra aprofunda a instabilidade internacional e impõe custos humanos e econômicos que recaem sobre os povos e sobre a classe trabalhadora. A guerra também recoloca no centro do debate as disputas estratégicas por rotas e recursos energéticos – especialmente o petróleo –, cujos efeitos já se traduzem em aumento de preços e pressão sobre o custo de vida da classe trabalhadora em todo o mundo.

Diante disso, defendemos um cessar-fogo imediato e a retomada urgente das negociações. É imperativo que todas as partes respeitem o direito internacional, exerçam a máxima contenção e atuem para evitar a ampliação de uma crise humanitária e econômica de alcance global.

A CUT reafirma seu apoio à tradição da diplomacia brasileira de busca pela solução pacífica de controvérsias e defesa da autodeterminação dos povos. Nenhuma mudança política pode ser imposta por meio de bombardeios ou intervenções externas. A soberania dos povos deve ser respeitada, assim como seu direito de decidir o próprio destino sem coerção militar.

A classe trabalhadora não pode pagar a conta de guerras que ceifam vidas, espalham violência e terror, geram sofrimento e trauma generalizados, além de elevar preços, ampliar desigualdades e desviar recursos públicos de políticas sociais para o rearmamento, em vez de priorizar a dignidade e os direitos dos povos.

 

São Paulo, 01 de março de 2026

Sergio Nobre

Presidente

Antonio Lisboa
Secretário de Relações Internacionais

Fonte: CUT