Mais mulheres na política é condição para enfrentar desigualdades
O Mês Internacional da Mulher, em 2026, reforça o caráter político do debate sobre representatividade. A mobilização da CUT, de organizações de mulheres, movimentos sociais e entidades sindicais coloca como fundamental ampliar a presença feminina nos espaços de poder como condição para enfrentar a violência de gênero e reduzir desigualdades estruturais.
Nesse contexto, com as eleições se aproximando, o debate sobre representação deixa de ser apenas estatístico e assume sua dimensão política e de mobilização. A escolha de parlamentares para o Senado e a Câmara definirá quem ocupará os espaços responsáveis por aprovar leis, estabelecer prioridades orçamentárias e definir políticas públicas que impactam diretamente a vida da população.
“A sociedade brasileira precisa dar atenção especial a quem escolhe como deputado e deputada, senador e senadora. Nos últimos anos, nas últimas legislaturas, o país tem elegido candidaturas que nem de longe representam a realidade do povo brasileiro e nem lutam pelas suas pautas reais. E é aí que falamos da representatividade feminina, muito aquém do justo”, diz Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, sobre a baixa presença de mulheres nos espaços políticos.
Embora as mulheres representem mais de 51,5% da população brasileira e cerca de 52% do eleitorado, atualmente elas ocupam menos de 18% das cadeiras no Congresso Nacional. No recorte racial, a desigualdade é ainda mais profunda: mulheres negras representam cerca de 2% do parlamento brasileiro.
O desafio colocado para a sociedade é transformar o voto em instrumento de enfrentamento dessa desigualdade histórica e ampliar a presença de mulheres nos espaços de poder
Disparidade
Para os movimentos de mulheres, esses números revelam um déficit democrático histórico. A sub-representação feminina nos espaços de decisão não é resultado apenas de escolhas eleitorais, mas de um conjunto de barreiras estruturais que dificultam a participação política, como desigualdade no financiamento de campanhas, violência política de gênero, candidaturas fictícias e resistência interna dos partidos em dividir poder.
Representatividade real: a escolha pelo voto
Para Amanda Corcino, o debate sobre representatividade não se resume a números, mas à disputa de projetos políticos. Ela se refere à escolha de quem irá representar a sociedade, levando em consideração o alinhamento com valores democráticos e com a defesa de direitos.
“Precisamos de mais mulheres no Parlamento para que haja equidade real na distribuição de poder. Quando ampliamos a presença feminina comprometida com a democracia e com uma visão progressista, as políticas públicas deixam de ser promessa e passam a transformar a vida das pessoas. Mas é fundamental escolher representantes alinhadas à defesa da liberdade, da autonomia sobre nossos corpos e nossas trajetórias. Há mulheres que atuam em defesa de projetos conservadores que contrariam direitos históricos e restringem avanços fundamentais”, afirma.
A fala reforça uma discussão recorrente dentro dos movimentos feministas. Ocupar espaços institucionais é essencial, mas a representatividade também envolve compromisso com agendas voltadas à igualdade, à justiça social e à defesa dos direitos das mulheres.
Estatísticas
A experiência internacional aponta que maior presença feminina nos parlamentos está associada à ampliação de políticas públicas voltadas à proteção social, combate à violência de gênero, equidade salarial e acesso a direitos. Países latino-americanos como México, Bolívia e Argentina já superaram a marca de 40% de mulheres em seus parlamentos, resultado de políticas de paridade e incentivos institucionais.
O Brasil, no entanto, ainda aparece em posição distante nesse cenário. No ranking global de representação feminina nos parlamentos, elaborado por organismos internacionais, o país ocupa a 133ª colocação.
Os dados mais recentes também indicam que o crescimento da presença feminina tem sido lento. Nas eleições municipais de 2024, as mulheres eleitas para câmaras municipais passaram a representar cerca de 18% do total de vereadores — avanço de dois pontos percentuais em relação ao pleito anterior.
Apesar da legislação que exige pelo menos 30% de candidaturas de cada gênero, mais de 700 municípios registraram descumprimento dessa regra. Além disso, candidatas continuam enfrentando obstáculos como menor acesso a recursos de campanha e episódios de violência política de gênero.
A Emenda Constitucional 117/2022 determinou que ao menos 30% dos recursos dos fundos partidário e eleitoral sejam destinados às candidaturas femininas. Ainda assim, especialistas apontam que a desigualdade persiste por causa de práticas internas nos partidos e dificuldades de fiscalização.
No Congresso Nacional, o cenário permanece semelhante. A Câmara dos Deputados conta atualmente com 91 deputadas entre 513 cadeiras, o equivalente a cerca de 17,7%. No Senado Federal, a participação feminina varia entre 18% e 19,8%, com aproximadamente 15 ou 16 senadoras entre os 81 parlamentares.
Mesmo sendo os maiores números já registrados na história do país, os percentuais continuam abaixo da média mundial, hoje em torno de 27%, e muito distantes da paridade.
A baixa presença feminina nos espaços institucionais impacta diretamente o processo de elaboração de políticas públicas. Temas como combate à violência contra a mulher, acesso a creches, igualdade salarial, saúde reprodutiva e políticas de cuidado muitas vezes enfrentam maior resistência quando não contam com representação significativa de mulheres nas instâncias de decisão.
Para os movimentos sociais, fortalecer a democracia passa necessariamente por ampliar essa presença.
Não é aceitável que mulheres sejam maioria no país e nas urnas, mas continuem com menos de um quinto das cadeiras no Congresso. Essa realidade torna evidente uma desigualdade histórica que ainda estrutura a política brasileira
Mudanças estruturais
A ampliação da representatividade feminina na política também é apontada como parte de um conjunto mais amplo de transformações necessárias na sociedade. Amanda Corcino reforça que enfrentar a violência e as desigualdades de gênero exige mudanças estruturais que vão além das instituições.
“Passa pela revisão de comportamentos historicamente naturalizados, especialmente entre homens, pela educação de meninos desde cedo para relações baseadas em respeito e igualdade e pelo enfrentamento da cultura de misoginia que se reproduz em diferentes espaços. Há ainda que se olhar atentamente e ter ações efetivas sobre o papel das redes sociais, que têm sido ambiente fértil de disseminação de discursos de ódio e ataques contra mulheres, ou seja, é preciso ter mecanismos de regulação e responsabilização das plataformas”, diz a dirigente.
Pautas do mês internacional das mulheres
A ampliação da representatividade política está entre as principais bandeiras das mobilizações do 8 de Março em 2026, mas não é a única. Os atos e debates realizados em todo o país também articulam outras pautas centrais para a vida das mulheres.
Entre elas está o combate ao feminicídio e a todas as formas de violência de gênero. As organizações alertam que a violência não se resume aos casos extremos que chocam o país, mas se manifesta também nas desigualdades econômicas, sociais e políticas que limitam a autonomia das mulheres.
Outra reivindicação presente nas mobilizações é o fim da escala de trabalho 6×1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — modelo considerado especialmente prejudicial às mulheres, que continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas de cuidado e pelo trabalho doméstico.
A desigualdade salarial também integra a pauta. No Brasil, as mulheres recebem em média 20,9% a menos que os homens no exercício da mesma função. A Lei nº 14.611/2023, que trata da igualdade salarial, é apontada como avanço, mas as organizações defendem fiscalização efetiva e políticas que garantam sua aplicação.
As mobilizações também reforçam a defesa da democracia e da soberania dos povos, entendidas como condições essenciais para a garantia de direitos. Para os movimentos, democracias fragilizadas tendem a aprofundar desigualdades e a reduzir políticas públicas voltadas às populações mais vulneráveis.
Fonte: CUT

