Livro de professor da rede pública integra programa de redução de pena pela leitura
O jovem Emerson Franco sonhava em ser jogador de futebol. Em algum momento, também quis ser Bombeiro. Como milhares de jovens brasileiros moradores de periferia, sonhava, antes de tudo, em ter um futuro. A vida, porém, o levou por outros caminhos, dos quais construiu um novo ponto de partida.
Dentro do complexo penitenciário de Brasília, Emerson enxergou na educação uma oportunidade de recomeço e, na escrita, a chance de reescrever o futuro. Dia após dia, colocou em palavras os sentimentos e os aprendizados que a privação da liberdade o ensinou. Anos depois, seus registros materializaram-se no livro “Francas Palavras”, que, recentemente, passou a integrar o catálogo da Política de Remição de Pena pela Leitura do Distrito Federal. A obra reúne prosas poéticas inspiradas em histórias verídicas.
“Sinto-me bastante realizado, porque alcancei exatamente o público que eu queria. Muitas pessoas leem o livro, mas quem eu desejava tocar, de fato, foi alcançado. Minha história está ali, nas páginas, nas rimas e nas palavras ácidas. Estou muito feliz!”, disse entusiasmado.
“Francas Palavras” foi lançado pela AVÁ Editora e integra a lista de mais de 400 obras do programa que permite a pessoas privadas de liberdade reduzirem dias da condenação por meio da leitura e da produção de resenhas. O encarcerado pode ler e resenhar até 12 obras por ano. Cada livro lido abate quatro dias da pena.

O poder transformador da educação
Emerson é a primeira pessoa da família a se formar no ensino superior. Hoje, aos 36 anos, é pai de Catharina e Manuela. Ele também é professor de sociologia na rede pública de ensino do DF, escritor, poeta, palestrante, arte-educador, estudante do curso de geografia e educador social. Já adulto, Emerson segue sonhando: agora, almeja cursar um mestrado em sociologia na Universidade de Brasília (UnB).
De alguma forma, a educação sempre esteve presente em sua vida. Na escola, como aluno, gostava de língua portuguesa. Lia bastante e se saía muito bem na disciplina. Essa proximidade com as palavras foi determinante no período em que esteve em reclusão.
Preso em uma cela com capacidade para, no máximo, doze pessoas, mas ocupada por mais de trinta detentos, Emerson notou que era um dos poucos que sabia ler e escrever. Há época, tinha o terceiro ano do ensino médio incompleto. Foi ali que entendeu que, apesar de ser um direito constitucional, o acesso à educação ainda enfrenta muitos obstáculos e barreiras no Brasil.
Num contexto de privação de liberdade, saber ler e escrever ganha outras proporções. Emerson transformou esse domínio em ferramenta de mediação: passou a ajudar os demais companheiros de cela a se comunicarem com seus familiares por meio de correspondências, as “choronas”.
Em determinado momento, Emerson percebeu que poderia ir muito além: decidiu então ensinar seus companheiros a escreverem os próprios textos. Usando principalmente trechos da Bíblia Sagrada — principal livro utilizado dentro dos presídios — restos de jornais encontrados nas latas de lixo do pátio, embalagens de cigarro e outras ferramentas, Emerson construiu um processo de ensino e aprendizagem.
“Ali, eu estava fazendo o papel do Estado. Eu ajudava pessoas que não tinham acesso nem ao básico, como por exemplo, escrever uma carta para a família. Quando isso não é garantido, a ausência do Estado também se manifesta como violência simbólica”, aponta Emerson.
Já fora do sistema prisional, com a pena cumprida, Emerson levou consigo o dom de ensinar, e hoje é professor da rede pública de ensino do DF.

Em busca de formação cidadã, Emerson também criou em 2016 o projeto social “Papo Franco”, em que dialoga com jovens das periferias sobre educação, cidadania e escolhas de vida. A iniciativa já alcançou mais de 450 escolas públicas no DF e Entorno, além de unidades prisionais e de internação, clínicas de reabilitação, casas de recuperação e outros espaços.
“Levar o debate sobre educação a esses espaços é essencial, porque muitos nunca tiveram acesso real a esse direito. Quando a educação chega, ela abre caminhos, amplia o olhar e mostra que existem outras possibilidades além daquelas que nos são apresentadas. Assim como aconteceu comigo, acredito que é por meio dos estudos e da educação que as pessoas conseguem se reconhecer como sujeitos de direitos e reconstruir suas próprias histórias e realidades”, disse Emerson.
