Filhos frustrados, pais revoltados: escolas militarizadas revelam-se um fiasco para a sociedade
Coação. Intimidação. Constrangimento. Assédio psicológico. Abuso. Falta de respeito com a comunidade escolar. Preconceito e racismo. Ausência completa de qualquer prática ou conduta com base na pedagogia, que dirá em direitos humanos. Alunos de periferia obrigados a “pagar flexão” pois não estavam com o casaco do uniforme – que ainda não foi fornecido pela SEEDF; jovens impedidos de assistir às aulas, com advertências e ameaças de suspensão. O motivo? O corte de cabelo não é satisfatório. Essa é a realidade das escolas do Distrito Federal que foram militarizadas.
O Sinpro inicia uma série de reportagens com denúncias de abusos por parte de policiais, e uma análise de que, sete anos depois, ainda resta comprovar, em números, a ineficácia do processo de militarização de parte das escolas da rede pública de ensino do Distrito Federal. “Defendemos um projeto político pedagógico que priorize a pedagogia humanizada e a gestão democrática como valores basilares para a formação de jovens cidadãos e cidadãs com visão de mundo crítica. O modelo de formação de pessoas obedientes e subservientes não atende às necessidades do mundo do século XXI”, aponta a diretora do Sinpro Ana Bonina.
Ao contrário do que o senso comum leva a acreditar, as consequências dessas ações de militares passam bem longe da disciplina e do bom comportamento de supostos “marginais baderneiros que acabam com a disciplina da escola”.
“Entendo que há perseguição reiterada, constrangimento psicológico, retirada indevida de sala de aula com prejuízo pedagógico, discriminação e tentativa de intimidação contra meu filho e nossa família”, explica Fabiana Alves de Carvalho, professora da SEEDF e mãe de um estudante do CED Myriam Ervilha, recentemente militarizado pelo Corpo de Bombeiros. O rapaz, de 14 anos, é assediado desde que militares do Corpo de Bombeiros passaram a cuidar da escola, em maio do ano passado.
Cabelos longos e crespos
A infração cometida pelo filho de Fabiana: usar cabelos crespos e longos. “Assim que os militares chegaram na escola, mandaram meu filho cortar o cabelo. Eu aleguei que o cabelo do meu filho fazia parte da identidade dele. Os militares disseram que meu filho era branco, e que a exceção seria apenas para estudantes negros e autistas. O assédio não parou mais”, conta Fabiana, que precisou recorrer ao Ministério Público.
Desde maio do ano passado, o filho de Fabiana é abordado pelos militares durante o intervalo, na entrada da escola, na saída, em sala de aula e onde estiver. Na última sexta-feira (24/4), foi retirado da sala de aula duas vezes e levado para a sala dos militares. A primeira vez foi no início de uma aula de História, e por conta disso o rapaz quase perdeu atividade que impacta na avaliação do bimestre. Na segunda abordagem, o estudante perdeu seu intervalo de aulas.
“Não adianta entrar na justiça, nunca ninguém ganhou”
Na abordagem contra o rapaz, os militares alegaram que o corte de cabelo realizado no dia anterior “ainda não era suficiente”, e deveria ficar conforme a imagem apresentada nas advertências anteriores. Também fizeram comentários sobre sua aparência física, dizendo “pare com isso, você é branco, loiro, de olhos claros e bonito, você fica bem de qualquer jeito, mesmo com o cabelo raspado”.
A ausência de qualquer critério pedagógico é evidente, pois a abordagem é feita com o objetivo de assediar moralmente o adolescente, como se ele fosse militar: “disseram ao meu filho que ele deveria sentir vergonha por ‘dar esse trabalho aos pais’, afirmaram que poderiam conseguir outra escola para ele e repetiram falas de intimidação, como a de que somente ‘quem é alguém na vida’ e ingressa nas melhores universidades estuda em escolas militares.”, conta Fabiana.
A mãe questionou a imposição do regimento da escola sobre leis mais importantes: “apresentei aos bombeiros a LDB, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Constituição Federal. Os militares dizem que o regimento é quem manda na escola. E que não adianta entrar na justiça contra eles, nunca ninguém ganhou. Não aceitei isso e fui ao Ministério Público”, conta a mãe.
O rapaz se sente acuado, ameaçado e desestimulado a frequentar a escola: “Muitas vezes meu filho pede pra ficar em casa, e diz: ‘Mãe, pra quê ir pra escola se eu vou ser tirado de sala?’ Sempre que um militar entrava na sala de aula, ele se levantava pronto pra sair da sala, e me contava: ‘Eu sei que é comigo que eles querem falar, então já vou me retirando de sala’”.
Após diálogo com a direção da escola e ciência do Ministério Público, os militares recuaram do assédio contra o filho de Fabiana.
