Eleição na Costa Rica indica risco de avanço da extrema direita na América Central

Conhecida internacionalmente como um dos países mais estáveis da América Central, a Costa Rica vive um momento de inflexão política que preocupa analistas e movimentos democráticos da região. A candidata de extrema direita, Laura Fernández, de 39 anos, foi eleita neste domingo (01/02), com 48,3% dos votos, a presidenta do país. A vitória ocorre em um país historicamente associado à paz, aos direitos humanos e ao fortalecimento de políticas públicas de bem-estar social.
O resultado garantiu ao novo governo não apenas o controle do Poder Executivo, mas também maioria no Poder Legislativo, uma combinação que amplia significativamente sua capacidade de implementar mudanças estruturais. O temor agora recai sobre o equilíbrio entre os Poderes, especialmente diante da possibilidade de avanço sobre o Judiciário.
A Costa Rica ocupa um lugar singular na história latino-americana. É o único país da América Central que aboliu formalmente o Exército, em 1948, decisão que permitiu redirecionar recursos públicos para educação, saúde e assistência social. Também foi palco da assinatura do Pacto de San José da Costa Rica, documento fundamental do sistema interamericano de direitos humanos, e sede de importantes organismos multilaterais.
Ao contrário de seus vizinhos, o país não enfrentou guerras civis no século XX e promoveu, ainda nos anos 1960, uma reforma agrária que contribuiu para a redução das desigualdades sociais. Durante décadas, consolidou políticas públicas robustas, um sistema de proteção social relativamente abrangente e uma imagem internacional associada à democracia estável e ao respeito às liberdades civis.
Avanço conservador e impactos na região
A campanha capitalizou fortemente o apoio de setores religiosos evangélicos, que têm ampliado sua influência política em diversos países da América Latina. A pauta moral conservadora, combinada a um discurso de “ordem”, combate ao crime e rejeição às instituições tradicionais, mostrou-se decisiva para a vitória nas urnas.
O pleito foi definido ainda no primeiro turno. Pela legislação eleitoral costarriquenha, candidatos que alcançam pelo menos 40% dos votos válidos não precisam disputar uma segunda rodada, que, se necessária, ocorreria em 5 de abril. A margem confortável eliminou qualquer possibilidade de reversão do resultado.
A presidenta eleita simboliza, à primeira vista, um marco histórico. No entanto, especialistas alertam que a representatividade de gênero, por si só, não garante compromisso com a democracia, os direitos humanos ou a justiça social. Sua trajetória política, alianças e propostas indicam alinhamento com a nova onda conservadora que atravessa o continente, fortemente influenciada por estratégias políticas e narrativas oriundas dos Estados Unidos.
A eleição na Costa Rica não é um fato isolado. Ela se insere em um contexto mais amplo de avanço conservador na América Latina, impulsionado por crises econômicas, desinformação, descrédito nas instituições democráticas e pela crescente influência de lideranças autoritárias que prometem soluções rápidas para problemas estruturais complexos.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a mudança de governo, mas os rumos de um país que, por décadas, foi referência em estabilidade política, políticas sociais e compromisso com os direitos humanos.
Fonte: CNTE
