EducaDF: sistema ruim também adoece professor
Manuseio difícil. Interface pouco amigável. Excesso de comandos para uma única inclusão. Gestão de folha de pagamento de contratos temporários que não gera o pagamento das pessoas. Dados que desaparecem e precisam ser reinseridos, gerando retrabalho, ansiedade, adoecimento. Tudo vindo de São Paulo, ao custo de R$ 40 milhões para o contribuinte da Capital da República. Essa é a realidade do EducaDF, o sistema de diário eletrônico da rede pública do DF, que foi tema de debate realizado na tarde desta quinta-feira (9/4) na Câmara Legislativa da cidade (CLDF), em sessão ordinária transformada em Comissão Geral para discutir o tema, que contou com a participação de educadores e representantes de classe.
A Secretaria de Educação do DF não mandou representante. A iniciativa do debate, que faz parte do calendário de lutas aprovado na assembleia de 18 de março, partiu do deputado Gabriel Magno (PT), que lamentou a ausência da secretaria de Educação e anunciou já ter feito representações junto ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) solicitando tudo o que foi defendido pelos participantes do evento: “Foram enviadas três representações que solicitam o rompimento do contrato terceirizado do sistema EducaDF e o restabelecimento do sistema anterior, o i-Educar, de software livre. Ainda não obtivemos resposta”, lamenta.
Todos os participantes do evento concordaram: o que a SEEDF precisa fazer é retornar a gestão dos salários dos contratos temporários ao sistema Chronos e voltar a gestão escolar pro i-educar com um investimento mínimo para atualização desse sistema.
SEEDF: ajuda e suporte ignorados, e cobranças constantes
Uma das diretoras do Sinpro presente ao evento, Berenice Darc lembrou que o EducaDF é uma opção política da SEEDF. “Quando relatamos os problemas do EducaDF à secretaria, ninguém nos escuta. Pelo contrário, o que ouvimos é que o sistema é maravilhoso pois veio de São Paulo. Justamente um dos estados com a educação mais sucateada e precarizada. O que a prática do dia a dia das escolas demonstra é que o sistema de 40 milhões de São Paulo não serviu pro DF, pois não dá conta das demandas das nossas escolas.”
A SEEDF dificulta qualquer tipo de diálogo a respeito do EducaDF. Não fornece suporte técnico, não sana dúvidas e, em contraponto, faz cobranças inexequíveis aos gestores: “Temos milhares de alunos para serem inseridos numa turma. São necessários sete cliques por aluno para incluí-lo. Professores inserem dados de presença e notas que desaparecem, gerando retrabalho, ansiedade e cansaço. A SEEDF pressiona para fazer os lançamentos em dia. No quinto dia útil do mês, por exemplo, tudo tem que estar pronto para o aluno receber o pé de meia. Mas como fazer a gestão adequada num programa inconsistente?”, pergunta o vice-diretor do Centro de Ensino Médio 2 de Ceilândia, Nemias Araújo.
Alunos perdem benefícios, principalmente na EJA
O prejuízo para os alunos vai muito além de dados inconsistentes no diário escolar. Benefícios como Pé de Meia e passe escolar também deixam de ser gerados devido à inconsistência do sistema eletrônico paulista, que também desconhece as particularidades da modalidade da Educação de Jovens e Adultos. Não é possível, por exemplo, remover a matrícula de alunos em uma dada turma que apresentem certificado de que já cursaram aquela disciplina. Isso gera inconsistências e faltas, que não permitem que aquele aluno receba o pé de meia, como conta o coordenador pedagógico do Centro de Educação de Jovens e Adultos da Asa Sul (Cesas), Wagner Medeiros. Ele também avisa que cansou de abrir reclamações no SEI, e simplesmente não obtém respostas.
“Existe uma modalidade de dispensa de aluno que só é possível na EJA, que é o Ajus, ajuste justificado, que ocorre quando o aluno trabalhador tem que sair mais cedo ou chegar mais tarde na escola. Eu tenho toda uma normativa que eu simplesmente não consigo inserir nesse sistema. E isso é uma garantia legal para o professor, que não pode dar presença para um aluno adulto, até mesmo por questões jurídicas e legais”, reclama.
Faltam secretários
O vice-diretor do Cem 02 de Ceilândia e o coordenador do Cesas relataram ainda a falta de pessoal para ocupar cargos nas secretarias das escolas. A diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Políticas Públicas e Gestão Educacional de Suporte Operacional, Administrativo e Pedagógico no Âmbito da Rede Pública de Ensino da Educação Básica e Superior do Distrito Federal (SAE-DF), Andressa Barros da Costa, lembrou aos presentes que o último concurso para secretário escolar aconteceu há 10 anos. “Há pessoas de TI aprovadas no último concurso que não são nomeadas. Por quê? Também já perguntamos à SEEDF por que não foi investido para se modernizar o i-educar?” As perguntas do SAE continuam sem resposta.
O dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Cláudio Antunes, lembrou que o Dicel, primeiro diário eletrônico usado no DF, foi resultado de solicitação do Sinpro-DF e de muito diálogo com gestores e gestoras das escolas. “Num primeiro momento, o sistema foi desenvolvido para atender às especificidades do ensino médio. Num segundo momento, houve a escuta de Gestores e gestoras de Escolas Classe para que houvesse adaptação para as particularidades dessas”, lembrou.
Ainda segundo o dirigente da CNTE, o sistema que substituiu o Dicel, i-educar, é desenvolvido em base de software livre, e cada município deve fazer um investimento mínimo para se adaptar às particularidades locais. “E nem de longe será um investimento de R$ 40 milhões. Você precariza pra justificar um contrato de R$ 40 milhões que só é bom pra empresa desenvolvedora do sistema, pois nós trabalhadores estamos abandonados e adoecidos com esse sistema”, aponta Cláudio.
Assista à sessão ordinária da CLDF:
