CUT defende articulação global da classe trabalhadora contra o fascismo

A CUT participou na tarde desta sexta-feira (27), do debate “O Enfrentamento dos Trabalhadores ao Neoliberalismo e ao Fascismo”, atividade que integra a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, organizada por entidades da sociedade civil, demais centrais sindicais e partidos políticos. O debate reuniu lideranças sindicais e políticas da América Latina e da Europa para discutir os impactos das políticas neoliberais e do avanço do neofascismo sobre a classe trabalhadora, apontando a necessidade de uma resposta internacional articulada.
Na parte da tarde, a mesa evidenciou que o crescimento da extrema direita está diretamente ligado à precarização do trabalho, à retirada de direitos e à tentativa de desarticular a organização coletiva. Os participantes, vindos de várias partes do mundo, destacaram que o neoliberalismo e o fascismo operam como ferramentas do capital para aprofundar desigualdades e conter avanços sociais, defendendo a construção de uma unidade internacional da classe trabalhadora como caminho para enfrentar esse cenário.
Representando a CUT, o secretário adjunto de Relações Internacionais, Quintino Severo destacou que o fascismo é uma expressão das crises do capitalismo e ao defender a necessidade de fortalecer a consciência política entre os trabalhadores.
“Nós precisamos armar a classe trabalhadora para enfrentar esse debate. Ele não é um debate fácil. É um debate que exige muito argumento, muita explicação”, disse.
De acordo com o dirigente, a disputa não é apenas econômica, mas também ideológica, e passa pela compreensão de por que setores da própria classe trabalhadora acabam aderindo a projetos políticos contrários aos seus interesses. “Se fosse fácil, por que que os nossos associados votam na direita, votam na extrema direita e votam nos candidatos que não são candidatos à nossa classe?”, questionou
Quintino destacou ainda que o avanço do fascismo segue um padrão histórico, surgindo em momentos de crise do sistema capitalista. “Esse processo se utiliza sempre da crise do capitalismo. É quando a crise não dá conta que o fascismo aparece e cresce.”
Para o dirigente, o discurso da extrema direita busca deslegitimar o Estado para os trabalhadores, ao mesmo tempo em que preserva e amplia os interesses do capital.
Eles dizem que o Estado não serve e que precisamos de um Estado mínimo para os trabalhadores, mas máximo para o capital
O secretário defendeu que o enfrentamento passa necessariamente pela crítica ao modelo econômico. “Precisamos explicar para a classe trabalhadora que só existe o caminho do socialismo e do combate ao capitalismo, porque o fascismo é a face mais cruel do capitalismo.”
Quintino também alertou para a existência de uma articulação internacional da extrema direita, que atua de forma coordenada em diferentes países. “Há uma internacional neofascista que se organiza para juntar a extrema direita no mundo todo.”
Meio de controle
Nesse processo, ele destacou o papel das plataformas digitais como ferramentas de manipulação. “As Big Techs servem para mentir e enganar dia e noite a cabeça da classe trabalhadora.” Ao final, reforçou o papel estratégico do movimento sindical na disputa política e na construção de alternativas.
“A tarefa do movimento sindical é construir todos os dias o combate e os argumentos para defender aquilo que nos interessa: uma sociedade livre e democrática”, pontuou Quintino.
Saída política
Presidente da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, reforçou o caráter estrutural da disputa e defendeu uma alternativa clara ao modelo vigente. “Nós só temos dois caminhos: o socialismo ou a barbárie.”
Ele criticou o neoliberalismo como incompatível com soberania e democracia, apontando que sua implementação na América Latina tem como objetivo central enfraquecer o movimento sindical e ampliar a exploração.
Adilson também destacou o cenário brasileiro, marcado por reformas que retiraram direitos e pela necessidade de reorganização política diante da ofensiva conservadora.
Relatos internacionais reforçam diagnóstico
As demais intervenções trouxeram exemplos concretos da ofensiva neoliberal e autoritária em diferentes países.
O ex-preso político durante a ditadura na Argentina e líder da CTA (central sindical do país vizinho), Hugo Godoy afirmou que o neofascismo tem como alvo central o movimento sindical. “Eles querem um movimento sindical disciplinado”, disse, ao denunciar a tentativa de enfraquecer a organização dos trabalhadores. Para ele, “fragmentar o campo popular é a principal tarefa dos neoliberais”.
Humberto Montes de Oca, do Sindicato Eletricitários do México (SME)d reforçou o caráter global do problema. “O neofascismo não é um problema nacional, é um problema global”, afirmou, defendendo uma resposta internacional articulada.
O dirigente basco do ELA (Euskal Langileen Alkartasuna – Solidariedade dos Trabalhadores Bascos), Aitor Mugia, destacou a relação entre concentração de poder econômico e autoritarismo. Já o uruguaio Carlos Martinez apontou os impactos sociais, como fome e desigualdade.
A sindicalista argentina Mónica Guri denunciou a repressão aos trabalhadores em seu país. “O protesto não é delito, é um direito constitucional”, afirmou.
Da Europa, a eurodeputada Leila Chaibi (LFI-França), destacou o papel das grandes corporações na precarização do trabalho e foi direta ao relacionar os fenômenos. “A luta contra o fascismo é a luta contra o capitalismo”, disse.
Unidade como resposta
Apesar das diferentes realidades, o debate convergiu para a necessidade de construir uma agenda comum internacionalista, capaz de enfrentar o avanço da extrema direita, combater a repressão aos movimentos sociais e enfrentar o poder das grandes corporações.
A mesa integrou a programação da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que reúne, entre os dias 26 e 29 de março, milhares de participantes de cerca de 50 países em Porto Alegre.
Organizada por centrais sindicais, movimentos sociais e entidades populares, a conferência tem como objetivo articular uma resposta global ao avanço de movimentos autoritários, fortalecer a defesa da democracia, dos direitos sociais e da soberania dos povos.
O eixo central do encontro é a construção da unidade na diversidade — com a compreensão de que apenas a organização coletiva e a solidariedade internacional podem enfrentar o avanço do fascismo e garantir justiça social.
Fonte: CUT

