Comunicação popular e disputa digital marcam debate no Enacom da CUT
“Comunicação comprometida com a verdade” foi o tema destacado em um debate no segundo dia do Encontro Nacional de Comunicação da CUT (Enacom). Kriska Carvalho, da Fundação Perseu Abramo (FPA), e Lázaro Rosa, comunicador e produtor de conteúdo digital, trouxeram reflexões sobre o papel dos influenciadores progressistas, a construção de narrativas capazes de dialogar com a sociedade e a necessidade de ampliar o alcance das pautas do movimento sindical. A mesa foi mediada pelo secretário-geral da CUT Nacional, Renato Zulato.
O Enacom, que está sendo realizado em São Paulo, na sede do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) até este sábado (14), reúne comunicadores, dirigentes sindicais e militantes para debater os desafios da disputa política no ambiente digital.
Redes sociais e mobilização política
Em sua intervenção, Kriska Carvalho relatou sua experiência como militante e mobilizadora digital e destacou o papel das redes sociais na disputa política contemporânea.
Segundo ela, sem os mesmos recursos financeiros da extrema direita, a militância progressista levou algum tempo para compreender o peso estratégico desses espaços.
“A extrema direita entendeu há muito tempo como usar as redes. Eles são estruturados, treinados, têm estratégia. A gente demorou para entender esse jogo”, disse.
Ela contou que passou a intensificar sua atuação política nas redes no período que antecedeu a eleição de Jair Bolsonaro, quando percebeu o potencial de mobilização desses espaços.
“Ali eu percebi que as redes tinham poder de mobilização. A gente podia pressionar políticos, mobilizar pessoas e mudar cenários”.
Kriska também lembrou que, após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, parte da militância acreditou que a disputa política havia terminado, mas o cenário se mostrou mais complexo.
“A gente elegeu o presidente Lula e pensou: acabou. Só que não. A luta da esquerda ficou ainda mais difícil”.
Unificar pautas para ampliar alcance
Outro ponto central da fala da comunicadora foi a necessidade de maior unidade de discurso no campo progressista para ampliar o diálogo com a sociedade. “Não adianta cada um falar de um lado. É preciso um discurso unificado, mostrar o que significa o campo progressista e como isso impacta a vida do povo”.
Ela também defendeu que a comunicação política precisa dialogar diretamente com a vida cotidiana da população. “Hoje as pessoas não querem apenas sobreviver. Elas querem viver bem, ter lazer, cultura, qualidade de vida. Isso também precisa entrar na nossa comunicação”.
O poder das mobilizações digitais
Kriska apresentou ainda exemplos de campanhas digitais organizadas por militantes progressistas que ganharam repercussão nas redes sociais, entre elas vídeos que viralizaram em 2025, como a série “Congresso Inimigo do Povo” e “Hugo sem Volta”, em referência ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
Segundo ela, mobilizações em torno de hashtags e campanhas coordenadas demonstraram que a esquerda também pode disputar a narrativa no ambiente digital. “A esquerda conseguiu dominar as redes por uma pauta. Conseguimos romper a bolha e levar o debate para a sociedade”.
De acordo com a comunicadora, essas campanhas mostram que a mobilização digital pode se conectar diretamente com a ação política fora das redes. “As redes ajudam a levar as pessoas para as ruas. Elas são uma ferramenta de mobilização”.
Disputa pelo público não polarizado
Para Lázaro Rosa, influenciador digital com grande alcance nas redes, a comunicação política precisa dialogar principalmente com o público que ainda não está polarizado. “A direita já tem o voto dela decidido. A gente precisa falar com quem não está polarizado, com quem decide a eleição”.
Ele relatou que começou sua atuação nas redes durante a pandemia e que sua experiência demonstra como mensagens bem direcionadas podem dialogar com diferentes públicos.
“Quando comecei, muitas pessoas do meu círculo, inclusive do ambiente militar, discordavam de mim. Mas algumas começaram a ouvir e até mudar de opinião”.
Segundo o comunicador, campanhas focadas em temas que impactam diretamente a vida da população tendem a gerar maior engajamento. “Quando a gente fala de pautas que interessam ao povo, eles — a direita — ficam sem resposta”.
Não pautar o debate pela extrema direita
Outro ponto enfatizado por Lázaro Rosa foi a necessidade de evitar que a esquerda reproduza permanentemente as narrativas da extrema direita. “Eles querem que a gente passe o tempo todo falando deles. Se a gente faz isso, acaba ampliando a mensagem deles”.
Para ele, o caminho mais eficaz é colocar em evidência pautas que interessem diretamente à população, como trabalho, renda e qualidade de vida. “Quando a gente foca nesses temas, eles ficam perdidos, porque não conseguem entrar nessa conversa.”
Comunicação e organização social
Ao final da mesa, Renato Zulato destacou que a comunicação digital não substitui a atuação política direta do movimento sindical, mas precisa caminhar junto com ela.
“A comunicação vai ter um papel muito importante nas nossas vidas. Para levar nosso debate e nossas propostas aos territórios, a comunicação e a formação caminham juntas”.
Segundo ele, um dos desafios da esquerda é traduzir para a sociedade processos políticos e institucionais que muitas vezes são complexos. “Nós, da esquerda, lidamos com coisas que não são fáceis de fazer. Às vezes a sociedade imagina que um governo resolve tudo de um dia para o outro, mas não é assim, ainda mais com um Congresso de extrema direita. É preciso pressão popular e organização para avançar nas pautas da classe trabalhadora”.
Zulato também ressaltou que a extrema direita transformou a desinformação em instrumento político poderoso. “A comunicação da extrema direita, muitas vezes, não tem verdade nenhuma, mas consegue transformar mentira em verdade para convencer a população. O desafio é mostrar que muitas dessas ‘verdades’ são grandes mentiras”.
Para o dirigente da CUT, cabe ao movimento sindical e aos movimentos populares assumirem protagonismo nesse enfrentamento. “Quem vai mostrar a verdade somos nós: o movimento sindical, os movimentos populares e a esquerda”.
Encerrando o debate, ele reforçou que a combinação entre mobilização digital e organização nos territórios será decisiva para fortalecer o diálogo com a classe trabalhadora. “O poder das redes é grande, mas o poder da palavra também é. O sindicalismo precisa continuar presente nos locais de trabalho, conversando com os trabalhadores”.
Fonte: CUT
