CNTE participa de mobilização em memória dos 50 anos do golpe na Argentina

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Nesta terça-feira, 24 de março, cinquenta anos após o golpe cívico-militar de 24 de março de 1976 que ocorreu na Argentina, organizações, movimentos sociais e sindicatos, incluindo a Confederação dos Trabalhadores da Educação da República Argentina (Ctera), convocaram a comunidade para uma grande marcha em todo país. O chamado “Dia da Lembrança, da Verdade e da Justiça” se concentrou na Praça de Maio, em Buenos Aires, Argentina, reunindo milhares de pessoas.

A programação em memória da ditadura argentina teve início no domingo (22), com o evento “50 anos após o golpe de Estado, resistimos à ditadura de ontem e ao fascismo de hoje”, no Centro Provincial de Artes de La Plata, Argentina. Um dos painéis contou com personalidades como Adolfo Pérez Esquivel, laureado com o Prêmio Nobel da Paz, e representantes da Associação Mães da Praça de Maio.

A presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Fátima Silva, participou deste evento em La Plata, no domingo, e também da Marcha, nesta terça-feira (24), em Buenos Aires. “Neste momento de total ascendência da extrema direita que exalta os feitos das ditaduras, é importante resgatar a memória, para não esquecer jamais as atrocidades de todas ditaduras e lutar para que isso não se repita jamais”, destaca. Ela acrescenta que “é preciso buscar a verdade para que a humanidade saiba a realidade – e não ocultação por parte do Estado – a verdade dos familiares e das vítimas. E lutamos por justiça, cadeia para todos torturadores e genocidas, além do reconhecimento por parte do Estado com as vítimas e familiares”.

Também participaram do evento o vice-presidente da Internacional da Educação, Heleno Araújo, e o vice-presidente da Internacional da Educação América Latina (IEAL), Roberto de Leão.

“É sempre emocionante e chocante estar na Argentina lembrando esta data, para evitar que a ditadura volte a acontecer. São assassinatos brutais, torturas e pessoas desaparecidas até hoje. É duro lembrar momentos terríveis como este, mas é preciso lembrar para não deixar acontecer outra vez. Ditadura nunca mais!”, reforça Heleno Araújo.

Na avaliação de Roberto de Leão, “Não existe ditadura democrática como alguns ousam dizer. Então é importante esse ato aqui na Argentina; aqui eles transformaram os centros de tortura, de violação de direitos, em centros de memória. A gente precisa dar esse recado para a juventude, que precisa saber o que aconteceu para não permitir que isso se repita, e para não ser enganada pelos discursos falsos de que é preciso salvar o país de alguma coisa”.

Leão também ressalta que a mobilização também é importante para contestar o governo do presidente da Argentina, Javier Milei, que empobrece o país com sua política, e é um negacionista da ditadura, e chegou a declarar que não houve 30 mil desaparecidos. “Isso é uma mentira. Ele nega os fatos que são evidentes, que estão marcados nos prédios, que estão nas cidades onde houve tortura. Então é importante que ele veja que a população sabe o que houve e está disposta a lutar para que não tenha mais ditadura”, conclui.

Ditadura na Argentina

Em 24 de março de 1976 ocorreu o golpe de Estado na Argentina que depôs o governo de María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita Perón, dando início a uma das ditaduras mais violentas da América Latina que perdurou até 1983.

A Junta Militar que tomou o poder deu início à ditadura mais violenta da história argentina. A “guerra suja” contra a guerrilha de esquerda e contra os demais opositores deixou 30 mil desaparecidos e quase 2 mil mortos. Uma das características mais cruéis dessa repressão foi a realização dos chamados “voos da morte”, por meio dos quais foram jogados no mar entre 1,5 mil e 2 mil prisioneiros vivos.

A violência da ditadura argentina também foi marcada pelo sequestro e roubo de bebês de mães militantes políticas que estavam presas. Essas crianças eram então repassadas para adoção por outras famílias, muitas das quais ligadas a militares. O movimento de Mães da Praça de Maio (em espanhol, Asociación Madres de la Plaza de Mayo) emergiu dessa busca por verdade e justiça, tornando-se referência na luta por direitos humanos no país.

A política de repressão argentina estava vinculada à Operação Condor, iniciativa secreta realizada em Santiago do Chile no final de outubro de 1975, que criou uma aliança entre as ditaduras instaladas nos países do Cone Sul na década de 1970 — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai — para a realização de atividades coordenadas, de forma clandestina e à margem da lei, com o objetivo de vigiar, sequestrar, torturar, assassinar e fazer desaparecer militantes políticos que faziam oposição aos regimes militares da região.

O assassinato de opositores foi generalizado: os alvos eram estudantes, professores, ativistas, sindicalistas, militantes, artistas – até pessoas que não tinham quaisquer vínculos com política foram executadas.

Fonte: CNTE