Ataque dos EUA na Venezuela ameaça soberania brasileira, alerta secretário da CUT

A recente intervenção dos Estados Unidos na Venezuela no último sábado (3), com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa acenderam um alerta em toda a América Latina para uma possível expansão da crise no continente, principalmente, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter dito claramente que seu interesse é o petróleo do país vizinho ao Brasil.

Trump em entrevista na terça-feira (6), veiculada em redes sociais, chamou os venezuelanos de feios, numa clara demonstração desrespeito e xenofobia aos latino-americanos.

Diante desta crise provocada pelos Estados Unidos no continente latino-americano que vive há décadas sem guerra entre seus países, a CUT que representa milhões de trabalhadores e trabalhadoras do Brasil e em consonância com sindicatos de todo o mundo, tem condenado veementemente a postura do governo norte-americano.

Para Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT, o episódio vai muito além do debate ideológico sobre o governo venezuelano e representa uma grave violação da soberania dos países da região. Segundo ele, a ação norte-americana não tem relação com a defesa da democracia, mas com interesses econômicos e geopolíticos.

Nesta entrevista, o dirigente analisa os riscos geopolíticos da ação, o posicionamento do movimento sindical internacional e os possíveis impactos para o Brasil.

Qual deve ser a principal preocupação do povo brasileiro diante da situação na Venezuela?

Lisboa — Esse episódio abre um precedente extremamente perigoso. Se a soberania da Venezuela pode ser violada, a de qualquer país da América Latina também pode. Precisamos defender a região como uma zona de paz e de povos soberanos.

Existe um discurso defendido pela direita brasileira de que foi deposto um ditador. Isso justifica a ação de Trump?

Lisboa — Independentemente da opinião que parte da população brasileira tenha sobre o presidente Nicolás Maduro, isso não é o centro da discussão. O que está em debate é a invasão de um país soberano por uma potência estrangeira e o sequestro de um presidente e de sua esposa. Chamar isso de captura é distorcer os fatos. É uma violação grave do direito internacional e algo inaceitável sob qualquer aspecto.

Como enfrentar essa narrativa da extrema direita no Brasil?

Lisboa — Mostrando os fatos e defendendo a soberania nacional. A extrema direita brasileira é entreguista e não está preocupada com o povo. Precisamos apresentar resultados concretos e alertar a população sobre os riscos à soberania e, que as decisões sobre o futuro da Venezuela cabem exclusivamente ao povo venezuelano, assim como as decisões sobre o Brasil cabem ao povo brasileiro.

O Brasil pode ser diretamente afetado?

Sem dúvida. As riquezas brasileiras, o subsolo e a soberania nacional também estão em risco. Já vimos interesses externos sobre o pré-sal. A lógica é a mesma: garantir acesso a recursos naturais estratégicos. O próprio Trump afirmou que o interesse é o petróleo. Se fosse uma questão de democracia, os Estados Unidos não manteriam alianças com regimes como o da Arábia Saudita. Não há coerência nesse discurso.

Essa ação também tem relação com a política interna norte-americana?

Lisboa — Claramente. Trump fala para seu público interno, especialmente em ano eleitoral. Ele tenta se mostrar forte e defensor dos interesses dos Estados Unidos para manter apoio no Congresso.

A perda de vidas no ataque tem sido minimizada?

Lisboa — Sim. Tratar isso como efeito colateral é desumanizar a população. Quem defende essa agressão não demonstra preocupação com vidas inocentes.

*Nota – Agência Brasil – O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, afirmou nas redes sociais que o ataque dos Estados Unidos deixou ao menos 100 pessoas mortas, inclusive civis. Segundo ele, mulheres que estavam em casa foram atingidas.

Qual tem sido a reação dos trabalhadores e sindicatos em todo o mundo?

Lisboa — Há um consenso internacional. A AFL-CIO, nos Estados Unidos, e as centrais sindicais da Europa, da América Latina e do Canadá condenaram a agressão contra a Venezuela. Não há divisão nesse ponto.

Há risco de um conflito maior envolvendo China e Rússia?

Lisboa — Sim. Bloquear rotas comerciais e petroleiros cria precedentes perigosos. Isso aumenta a instabilidade global, mesmo que esses países não tenham interesse direto em um confronto militar.

Qual o caminho daqui para frente?

Precisamos fortalecer a articulação entre trabalhadores, sindicatos e movimentos sociais da América Latina e do Caribe atuando em duas frentes: no Brasil, defendendo a soberania e combatendo o entreguismo; e na América Latina, articulando sindicatos e movimentos sociais para garantir que a região permaneça uma zona de paz, autonomia e prosperidade.