Quem educa quem?

Escrito por Prof.João Monlevade
Sou um cidadão atípico. Nascido em São Paulo, capital, e residente em Campinas, fui matriculado desde os cinco anos de idade, em um “jardim da infância” agregado a um colégio de freiras antes de 1950, quando grande parte da população morava na zona rural e só tinha disponível os anos iniciais dos cursos primários.
Como me lembrava minha mãe – professora com diploma de Normal público em Pirassununga, já com três filhos e com uma Licenciatura da Universidade de Campinas na área de Trabalhos Manuais e Economia Doméstica – a escola devia se tornar para mim a garantia de uma vida adulta de sucesso, até o nível superior. Dizia-me ela que eu fora “expulso do Jardim” dado meu atrevimento de criticar a professora em plena aula. Fui então obrigado a me “transferir” para o primeiro ano de uma escola privada – o Educandário Campineiro – onde me senti à vontade desde o primeiro dia de aula. Na conversa com o diretor, confessei meu desejo de fazer os três primeiros anos lá e me transferir para a Escola Normal do Instituto de Educação Carlos Gomes, público e gratuito, e que com eficiência preparava seus alunos para o Colégio Estadual Culto à Ciência, perto de minha casa e famoso por seus ilustres ex-alunos, como Alberto Santos Dumont, inventor do avião.
Neste momento, com menos de dez anos de idade, meu pai foi vítima da inflação que crescia a cada ano. Seu salário de engenheiro não acompanhou o aumento do custo de vida, e minha mãe teve que assumir o trabalho de professora na cidade de Fernandópolis, a 17 horas de trem de Campinas. Acompanhei-a na posse e fiquei impressionado: o ginásio da cidade ficava a três km de seu centro, no meio de um cafezal enorme, que sufocava a paisagem com seus quilômetros quadrados de “natureza” ameaçada pelo progresso da sociedade paulista.
Longe de mim continuar esboçando uma auto biografia. Quero somente passar para o leitor a realidade pujante de uma escola que iria permitir e impulsionar uma nova educação, agora urbanizante, das novas gerações de paulistas, mineiros e nordestinos que inundavam o estado de São Paulo nos meados do século XX. O Ginásio público de Fernandópolis, como também os de Catanduva, São José do Rio Preto e Votuporanga formavam um conjunto de instituições até então confinadas à Capital, e a cidades de cem mil habitantes ou mais, como Santos, Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto e Taubaté.
Usei aqui a palavra “urbanizante” como adjetiva de “escola”. E pergunto: quem educa os e as cidadãs? A família, a escola, o professor ou professora, o “técnico” e o “apoio”, a sala de aula, ou os livros, os cadernos, os gestores, as “suspensões”, os objetivos e Planos,, as avaliações?
A resposta correta é decepcionante: são TODAS as pessoas, são TODAS as instituições com as quais a criança, o jovem, os adultos, os e as idosos(as) SE RELACIONAM. Sociologia, história, economia e pedagogia investigam e apresentam conclusões para direcionar a educação. Alguns destes agentes são mais valorizados que outros, mais reconhecidos: mas vamos nos entender, a educação é uma síntese, como a vida. TODOS(AS) EDUCAM TODOS E TODAS. Ou seja, educação dá trabalho, muito trabalho. V a m o s t r a b a l h a r ?
Fonte: CNTE
