Militarização em números: seis por meia dúzia
A “gestão compartilhada” de instituições de ensino é o único projeto concreto para a educação posto em prática nos governo Ibaneis Rocha / Celina Leão. Em sete anos de governo, 25 unidades de ensino da rede pública distrital foram entregues à gestão militar. Mas o que se anunciava como um grande choque de gestão e disciplina revela-se, em números, um estalinho pedagógico.
Os dados para esta reportagem foram obtidos via Lei de Acesso à Informação. Esses relatórios informam que logo no início de 2019, primeiro mês de governo Ibaneis, três escolas foram militarizadas: CED 03 de Sobradinho (em 5/1), CED 308 de Recanto das Emas (30/01) e o CED 01 da Estrutural (em 5/2).
“Militarização não tem nada a ver com melhoria dos índices educacionais – especialmente quando vemos os resultados do Ideb. A maioria das escolas militarizadas até o fim do ano reduziram o Ideb”, aponta o diretor do Sinpro Herbert Anjos.
Em números de setembro de 2025, todas as 25 escolas militarizadas têm uma característica em comum: atendem a comunidades da periferia de Brasília, nas regionais de Brazlândia, Ceilândia, Gama e Sobradinho (1 escola militarizada em cada regional), Guará, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas e Santa Maria (2 escolas militarizadas em cada CRE), Samambaia e Núcleo Bandeirante (3 escolas) e Taguatinga (4 escolas). Mesmo a escola militarizada na CRE do Plano Piloto, o CEF 01 do Lago Norte, atende à comunidade do Varjão.
Dentre essas 25 escolas militarizadas, 44% têm mais profissionais em regime de contrato temporário do que profissionais efetivos – uma realidade de várias outras unidades educacionais da rede do DF.
Dados podem mascarar realidade
Esses números devem ser lidos e analisados com cautela, pois podem levar a interpretações erradas. O número de matrículas, por exemplo, tem se mantido razoavelmente estável nessas unidades educacionais, “mas não há vagas nas outras escolas não militarizadas”, aponta a diretora do Sinpro Márcia Abreu. “Esse é o maior argumento dos militares à frente dessas escolas: se você não gostou, vai pra outra escola, mas não tem vagas nas outras escolas, então você volta a se matricular na militarizada”.
A quantidade de abandono escolar também se mantém estável entre os anos de 2021 e 2024, e mesmo assim saltam aos olhos o números do CED Myriam Ervilha, do Recanto das Emas, militarizada em dezembro de 2024: em 2023, a escola teve 12 abandonos; no ano seguinte, esse número saltou para 154. (Link para a matéria da semana passada)
Já sob o ponto de vista do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), trocar gestão civil por gestão militarizada é trocar seis por meia dúzia: do total de 25 escolas militarizadas, dez foram avaliadas por esse índice nos anos de 2021 e 2023. Dessas dez escolas, sete tiveram queda no índice. Apenas o CED 416 de Santa Maria teve um aumento sutil no IDEB dos anos finais do Ensino fundamental (de 4,7 para 4,8), e um incremento considerável no ensino médio (de 4 para 4,7).
“E a militarização ameaça a autonomia pedagógica da escola, já que em muitos casos o chamado disciplinar se sobrepõe ao pedagógico. Em várias escolas militarizadas não é possível, por exemplo, ter sala ambiente”, lembra Herbert Anjos.
