Juçara Dutra Vieira: a primeira presidenta da CNTE

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A professora aposentada da rede pública estadual do Rio Grande do Sul, Juçara Maria Dutra Vieira, que também é pesquisadora, gestora pública e militante política, foi a primeira mulher a comandar a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) nas gestões 2002-2005 e 2005-2008. Formada em Letras, com doutorado em Políticas Públicas e Gestão da Educação pela Universidade de Brasília, Dutra iniciou sua carreira docente no interior do estado, em São José do Ouro e Cacique Doble, no início dos anos 1970.

Em sua trajetória, integrou a direção estadual do Cpers-Sindicato, foi vice-presidente da Internacional da Educação (IE), integrou diversos conselhos, entre os quais o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República e o Conselho Internacional do Fórum Mundial de Educação. Juçara Dutra Vieira conta, à Revista Mátria, as principais conquistas de sua gestão e também fala sobre os desafios da atual diretoria, sobretudo para as trabalhadoras em educação.

Professora Juçara, como a senhora avalia a trajetória das mulheres na liderança sindical da educação, especialmente considerando que foi a primeira presidenta da CNTE?

Juçara Dutra Vieira: A própria organização da sociedade fez com que as mulheres assumissem a educação e a saúde como os primeiros espaços de vida pública. Então a história profissional da mulher também é uma história de superação dentro dessas duas áreas. Por isso a grande maioria dos sindicatos que se formaram começaram com as professoras primárias, que eram a grande maioria da área profissional. Mas isso não significava que elas já fossem eleitas presidentas dos sindicatos. Então a superação desse paradigma foi lenta, um processo da mulher ir avançando, dirigindo os sindicatos em nível municipal, estadual. E na CNTE também foi um processo moroso, tanto que eu fui a primeira presidenta até esse momento. Então eu entendo que a minha trajetória expressa um pouco dessa afirmação coletiva. Na medida em que eu cheguei à presidência da CNTE, todas as mulheres da educação chegaram à presidência da CNTE.

Quais foram as principais conquistas para a categoria durante sua gestão?

As lutas ganharam mais visibilidade. A CNTE, na época em que eu fui presidenta, teve um protagonismo muito grande relacionado à possibilidade de fazer uma luta para avançar porque, por coincidência, nós tivemos um governo do campo democrático e popular. O movimento sindical sempre tem que lutar, seja com governos do campo democrático e popular, seja em governos que são adversos às lutas da classe trabalhadora. Mas há uma diferença no sentido de que em determinado momento você faz uma luta de resistência e em outros momentos você consegue fazer uma luta para ter avanço. Então, coincidiu com as minhas gestões a conquista, por exemplo, do piso salarial, que foi negociado e consolidado durante a minha gestão e assinado pouco depois que deixei a presidência. Conseguimos também a valorização do segmento dos funcionários da educação, que não estavam incluídos na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional. Outra contribuição importante ocorreu na época em que fui secretária de Assuntos Educacionais: comecei a trabalhar a política editorial da CNTE: fiz a primeira edição dos cadernos de educação e lancei a própria revista Mátria, que nasceu com a contribuição da Fátima Aparecida da Silva, do sindicato do Mato Grosso do Sul, que publicava um tipo de pastinha, sobre o Dia Internacional da Mulher. Inspirada nesse material, a gente começou, na CNTE, a dar esse formato à revista Mátria, que é publicada anualmente até hoje.

Quais são os maiores desafios atuais para as mulheres e profissionais da educação em tempos em que enfrentamos uma onda de conservadorismo?

O impeachment da presidenta Dilma teve uma simbologia muito grande. Uma mulher alcançou a presidência da república, e os setores conservadores nunca aceitaram isso. A presidenta foi golpeada e isso tem um impacto muito grande nas lutas das mulheres até hoje. Além disso, um dos grandes desafios que nós vivemos é o caso da violência contra as mulheres, que recrudesceu com crueldade, atingindo também as escolas – alunas, professoras e funcionárias. Não é só essa violência explícita e física, é uma outra violência, também, que são as propostas de usar câmeras em sala de aula, que chegam junto com o discurso reacionário do “escola sem partido”. São iniciativas que visam controlar o pensamento crítico e a atuação das mulheres, majoritárias na educação básica. Também precisamos enfrentar a desvalorização profissional, agravada por tendências como a uberização e a pejotização, que precarizam a jornada – já extensa e não contabilizada – das educadoras. Você sai da escola, volta para casa e já tem que preparar a aula do dia seguinte: a jornada não contabilizada da educação precisa ser revista.

E quais devem ser as prioridades da nova gestão da CNTE a partir de 2026?

Temos que fazer um intercâmbio maior com as nossas juventudes, que serão as profissionais e os profissionais do futuro. Além disso, temos um desafio muito grande, que é a privatização por dentro da escola, promovido por governos que compram material produzido por bancos, material didático, material escolar. Esse resgate do conceito de público é muito importante, porque a educação é um direito público. Também é preciso consolidar a valorização dos funcionários da educação, garantindo os avanços legais e de formação. É fundamental manter o avanço e o resgate de valores de solidariedade e companheirismo, de valorização das lutas das mulheres, de negros e negras e em defesa da diversidade. Vamos continuar vivendo na sociedade capitalista, mas precisamos superar tudo o que ela traz, a misoginia, a homofobia, o racismo e, agora, o fascismo.

Fonte: CUT