Mulheres avançam na luta por justiça climática

notice

A Organização das Nações Unidas reconhece: as mulheres e meninas são as mais afetadas pelos impactos da crise climática, que amplificam desigualdades já existentes e impõem ameaças únicas aos seus meios de subsistência, saúde e segurança. E foi com muita organização que elas participaram da 30ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 30), realizada em Belém (PA), entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025.

A presidenta da CUT Pará, Vera Paoloni, esteve presente na COP30 e relata que a mobilização de organizações feministas do Brasil e do mundo já estavam se preparando para apresentar suas reivindicações. Nesse processo, ela acrescenta, a CUT Pará criou uma ação de formação política chamada “Escutatória”, rumo à COP30, que discutiu com os sindicatos a pauta ambiental, de gênero e saúde, e os impactos que a mudança climática traz para a vida dos trabalhadores.

“Quando conversamos com os públicos mais femininos e feministas, nós percebemos que as mulheres estão na linha de frente e, para elas, o impacto do extremo climático, do sol inclemente, é muito pior. Elas brigam para ter direito a um chapéu decente, uma roupa, um EPI (Equipamento de Proteção Individual)  e tudo vai para o processo de negociação coletiva, de pressão”, detalhou Vera Paolini.

Gênero na COP30

O Gender Day (Dia de Gênero) da COP30, celebrado nos dias 19 e 20 de novembro, foi um dos espaços destinados para a promoção de debates, painéis e apresentações sobre transversalização de gênero nas ações climáticas, governança com igualdade e construção de indicadores sensíveis ao gênero.

A presidenta da CUT Pará participou deste evento que contou com participação massiva das mulheres. “O auditório cedido ficou pequeno. Muitas mulheres ficaram do lado de fora. E muitas, até no gesto de solidariedade feminista, decidiram se revezar. A cada 10 minutos, mulheres saíam para que 10 pudessem entrar e participar”.

Após forte incidência de movimentos feministas, negros e latino-americanos, o Plano de Ação de Gênero 2026-2034 foi aprovado. O documento reconhece defensoras ambientais, o trabalho de cuidados, a violência de gênero e, pela primeira vez, mulheres e meninas afrodescendentes como centrais na ação climática.

Apesar deste avanço, o plano não estabelece metas de participação nem prevê recursos específicos para implementação. Na avaliação de Vera Paoloni, é preciso desburocratizar e financiar mais diretamente as ações das mulheres nas suas áreas de atuação. “Então, se aquela comunidade foi impactada e as mulheres têm uma linha de frente, qual é a política que vai se criar? Nós precisamos estar o tempo todo orando, vigiando e lutando para efetivar o que foi aprovado, por quê? Porque sempre vai existir barreiras para que as mulheres assumam a liderança dos processos, para que as mulheres tenham o custeio das suas atividades, no sentido de proteger o meio ambiente”.

Vera Paoloni conclui: “Aqui no Brasil, obrigatoriamente, a pauta é manter o governo democrático popular, ampliar as bancadas mais progressistas do Senado, da Câmara Federal, na Assembleia Legislativa. Democracia tem que estar muito forte para segurar os ataques de quem suja o rio, de quem desmata a floresta, de quem avança para cima dos nossos direitos”.

Mulheres no Plano

A Estratégia Transversal Mulheres e Clima, um dos cinco eixos que compõem a estrutura transversal do Plano Clima, foi colocada em consulta pública na plataforma Brasil Participativo e ficou aberta para contribuições até 15 de janeiro de 2026.

O documento, primeiro a estruturar a política ambiental brasileira a partir da igualdade de gênero, foi apresentado oficialmente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) durante a COP30.

Elaborada no âmbito do Plano Clima, a estratégia explicita as evidências de que a crise climática intensifica diferenças e afeta mulheres e meninas de forma desproporcional — especialmente negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, periféricas e de povos e comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, reconhece que são elas que lideram soluções, inovação e proteção socioambiental em seus territórios.

O documento estabelece diretrizes e mecanismos orientadores para que o governo federal, estados e municípios incorporem a perspectiva de gênero em políticas, planos, programas e financiamentos relacionados à ação climática.

Também propõe mitigação com justiça de gênero, garantindo transição justa, adaptação integrada, considerando desigualdades estruturais e vulnerabilidades específicas, fortalecimento do protagonismo feminino na gestão de riscos, emergências e desastres, além da incorporação de indicadores, protocolos, instrumentos regulatórios e governança climática inclusiva.

Fonte: CNTE