Heloísa Teixeira: quando a palavra vira ponte

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Heloísa Teixeira foi uma das vozes mais potentes da literatura e do pensamento feminista brasileiro. Entre livros, críticas e pesquisas, construiu pontes entre a academia e a cultura popular, abrindo caminhos para novas narrativas e para a inclusão. Em março de 2025, aos 85 anos, Heloísa morreu no Rio de Janeiro, encerrando uma trajetória que permanece viva na memória coletiva — celebrada, inclusive, na Academia Brasileira de Letras, onde o documentário Helô, dirigido por Lula Buarque de Hollanda, revisitou sua história pessoal e intelectual.

Nascida em Ribeirão Preto (SP), Heloísa construiu uma trajetória profundamente ligada à crítica cultural, ao feminismo e à ampliação dos horizontes do pensamento literário brasileiro. Com formação em Letras Clássicas pela PUC-Rio, mestrado e doutorado em Literatura Brasileira pela UFRJ e pós-doutorado em Sociologia da Cultura pela Universidade de Columbia (EUA), tornou-se uma referência incontornável nos estudos culturais, nas relações de gênero e na crítica da cultura.

Entre suas obras mais marcantes está 26 Poetas Hoje (1976), antologia que ajudou a consolidar a chamada poesia marginal como expressão legítima da cultura brasileira. Ao reunir autores então pouco reconhecidos, Heloísa abriu espaço para linguagens e experiências que escapavam aos circuitos literários tradicionais. Décadas depois, esse gesto seguiria ecoando em outras gerações e territórios.

Para o escritor, editor e educador Michel Yakini-Iman, referência no movimento de literatura das periferias de São Paulo, iniciativas como essa foram fundamentais para tensionar um campo literário historicamente excludente e elitizado. Segundo ele, no âmbito acadêmico e da crítica literária, a legitimação de outras vozes e narrativas muitas vezes só ocorre quando há uma tensão inicial no próprio meio; caso contrário, essas produções permanecem restritas a seus territórios de origem.

Esse gesto crítico — de olhar para além das regras — acompanhou toda a trajetória de Heloísa. Segundo a pesquisadora e professora da Universidade de Buenos Aires (UBA) Lucía Tennina, especialista em literaturas das periferias brasileiras e amiga da intelectual, Heloísa foi uma das poucas críticas que, desde cedo, se recusou a reproduzir os filtros excludentes da academia. “Quantos dos críticos literários que menosprezavam escritores com trajetórias não letradocêntricas realmente leram suas obras? Não há dúvida de que a maioria naquela época não os lia, exceto Helô”, afirma.

Nos anos 2000, Heloísa voltou seu olhar para a literatura marginal do século XXI, especialmente para as produções de escritores das periferias das grandes cidades. De acordo com Lucía, assim como fez nos anos 1970 com 26 Poetas Hoje, Heloísa novamente compreendeu a crítica como ação. “A reflexão crítica da Helô consistiu na criação de plataformas de troca de conhecimentos, de publicação e de divulgação de autores marginalizados”, explica. Para Yakini, quando a crítica e a pesquisa passam a apontar novos sentidos e possibilidades, todo o campo literário se movimenta, seja no interesse de novos leitores, no mercado editorial ou nas instituições culturais, ainda que de forma desigual.

Nesse contexto, Heloísa dirigiu, entre 2007 e 2016, a coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano, dedicada à publicação de autores periféricos, e criou, em 2009, a Universidade das Quebradas, iniciativa inovadora que promoveu o encontro entre intelectuais, artistas e produtores culturais das periferias urbanas. Mesmo sem ter participado diretamente do projeto, Yakini avalia que a Universidade das Quebradas representou uma ruptura importante na forma como a universidade passou a se relacionar com a produção intelectual das periferias, ao valorizar saberes historicamente marginalizados dentro de uma instituição pública e tensionar os limites tradicionais do conhecimento acadêmico.

Lucía Tennina relata que essa postura teve impacto direto em sua própria trajetória acadêmica. Em um momento em que seu interesse pelos saraus das periferias era desacreditado, foi Heloísa quem a incentivou a seguir adiante. “Ela levantou o telefone, ligou para o Sérgio Vaz (poeta, escritor, agitador cultural, idealizador da Semana de Arte Moderna da Periferia, fundador da Cooperifa “Cooperativa Cultural da Periferia”) e disse: ‘uma argentina vai para o Sarau da Cooperifa’. Depois me falou: ‘vá fazer a sua pesquisa lá’”, recorda. A partir desse estímulo, Lucía desenvolveu pesquisas que se tornaram referência internacional sobre literatura periférica, além de trabalhos de difusão inspirados diretamente no legado de Heloísa.

Esse diálogo entre academia e periferia também se expressava na forma como Heloísa se colocava. “Ela não se situava no lugar de saber nem de poder, mas estabelecia um diálogo de saberes a partir da escuta como ferramenta fundamental”, destaca Lucía.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde foi professora emérita, Heloísa coordenou o Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) e consolidou a Universidade das Quebradas como um espaço de experimentação social e cultural. Em 2010, Lucía integrou a primeira turma do projeto e lembra da força simbólica daquele espaço. “Era um laboratório de tecnologias sociais, onde se pensava que outro mundo era possível, com encontros entre ativistas, intelectuais e agentes da cultura periférica”, relata.

A influência de Heloísa se deu também em projetos editoriais contemporâneos. Como editor do selo Elo da Corrente Edições, que já publicou dezenas de autores negros e periféricos, Michel Yakini observa continuidades entre sua atuação e o gesto crítico de 26 Poetas Hoje. Para ele, a estratégia das antologias — especialmente as ligadas aos saraus — é fundamental para dar visibilidade coletiva a autorias pouco reconhecidas pelo mercado editorial, permitindo que muitos escritores se projetem posteriormente com obras individuais, como ocorreu com nomes revelados na antologia organizada por Heloísa.

Em um gesto simbólico e político, Heloísa abandonou o sobrenome de casada (Buarque de Hollanda) e retomou o sobrenome materno (Teixeira), reafirmando publicamente sua identidade feminista e sua trajetória intelectual.

A mulher na Academia Brasileira de Letras

Em 2023, Heloísa Teixeira foi eleita para a cadeira nº 30 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo a escritora Nélida Piñon e tornando-se a décima mulher a integrar a instituição em mais de 130 anos de história.

Sua entrada na ABL foi celebrada como um marco de ampliação da representatividade de gênero e de reconhecimento de vozes críticas e culturais diversas. Para Lucía Tennina, esse reconhecimento institucional não anulou o caráter “anfíbio” de Heloísa como crítica cultural. “Helô circulava por mundos que não seriam o habitat natural de um crítico literário: a gestão cultural, a edição, a divulgação. Ela compreendia a literatura como uma atividade sociocultural”, afirma.

A morte de Heloísa Teixeira gerou comoção nos meios cultural, político e intelectual do país. Em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a perda de “uma das maiores pensadoras de nossa literatura e de nossa arte”, destacando seu compromisso com as vozes marginalizadas e com o feminismo brasileiro.

“Houve muitas Helôs”, resume Lucía Tennina. “A Helô que passou pela minha vida é apenas uma delas. Acredito que há uma Helô em cada pessoa que a leva no coração.”

Heloísa Teixeira foi mais do que uma intelectual: foi uma voz que ecoou o feminismo, a cultura marginal e a inclusão social no Brasil. Sua obra e sua prática seguem vivas como referência fundamental do pensamento crítico contemporâneo.

Fonte: CNTE