Avanços e desafios da EJA no DF marcam o segundo dia da Semana Pedagógica do Sinpro

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Distrito Federal representa mais do que uma modalidade de ensino; é um instrumento de reparação, inclusão social e esperança. Durante o segundo dia da Semana Pedagógica do Sinpro, realizado na terça-feira (10), palestrantes, professores(as), orientadores(as) educacionais e diretores(as) do sindicato debateram os avanços e desafios do segmento no DF.

A mesa foi composta pelas diretoras do Sinpro Márcia Gilda e Ana Bonina, e ainda contou com a participação dos(as) professores(as) Aldemira Rodrigues do Nascimento; Cláudio Passos; Dorisdei Valente Rodrigues; Indira Rehem; Vanessa Bomfim; e Waldeck Batista dos Santos.

Apesar de seu papel fundamental — ao permitir a retomada dos estudos, a certificação e a ressignificação da trajetória de vida de milhares de pessoas —, a EJA enfrenta o descaso do GDF e a falta de estrutura. Essas limitações comprometem um de seus princípios basilares: a redução de desigualdades históricas e a promoção da cidadania, contribuindo assim para a construção de um país mais justo e desenvolvido.

Cláudio Passos, professor da Secretaria de Educação do DF, lembra que a EJA possui uma série de complexidades, fato que exige mais estrutura e comprometimento do governo. “Nossa realidade é de uma demanda por educação especial, com alunos com deficiências múltiplas e transtornos globais do desenvolvimento, por exemplo, falta de recursos e de educadores. Nossa luta é pela formação dos professores, contra as constantes trocas de educadores, dentre tantas outras.”

Diante de todos estes desafios, Passos lembra que o DF tem, hoje, 600 mil pessoas que não concluíram o ensino médio. Uma das propostas é oferecer prosseguimento educacional para trabalhadores. “Uma das propostas é a de oferecer aos trabalhadores da SLU a oportunidade de estudarem na região em que moram. Isto poderia facilitar a possibilidade de muitos em dar prosseguimento aos estudos”.

 

Modalidade de ensino invisibilizada

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) configura-se, historicamente, como uma modalidade profundamente invisibilizada e marginalizada no cenário educacional, operando frequentemente à sombra das políticas e dos discursos oficiais voltados para o ensino regular. Sua invisibilidade não se resume à carência de recursos ou à precariedade de muitas de suas estruturas, mas se consolida em um silenciamento simbólico que a posiciona como um “apêndice” do sistema, como se fosse uma segunda chance menor ou uma concessão, e não um direito fundamental inalienável.

Waldeck Batista dos Santos, mestre em Educação e professor aposentado da SEEDF, fala que o retrato se mantém até hoje. “Esta modalidade de ensino é invisibilizada e marginalizada até os dias atuais, o que nos leva a enfrentar esta realidade tão difícil no Distrito Federal. O que vemos são escolas fechadas, perseguição e retaliação”, comenta o educador, complementando que o ideal é que existam polos de EJA “com estrutura para trabalhar o segmento em várias localidades do DF”.

 

EJA na modalidade a distância

Indira Rehem, historiadora e professora da SEEDF, ressalta que a EJA na modalidade a distância surge como uma ferramenta fundamental para a democratização do acesso à educação, oferecendo flexibilidade de horários e local de estudo, o que é essencial para alunos trabalhadores e com rotinas familiares complexas. “Utilizando ambientes virtuais de aprendizagem, materiais digitais e mediação docente online, essa modalidade permite que o estudante construa seu conhecimento de forma mais autônoma, sem abrir mão do suporte pedagógico necessário. O desafio é a implantação desta EJA com a tipologia de EAD, mas com a estrutura necessária.”

 

EJA integrada à educação profissional

Outro ponto debatido foi o da possibilidade de a EJA estar integrada à educação profissional. Para Dorisdei Rodrigues, a integração seria uma proposta inovadora e transformadora. “Ao articular a formação básica com a qualificação técnica e cidadã, esse modelo atenderia às necessidades educacionais e aspirações de vida de uma população que, muitas vezes, foi excluída do sistema regular. Mais do que a simples justaposição de currículos, a integração promove um diálogo entre conhecimentos, onde a matemática, a língua portuguesa e as ciências humanas iluminam e são iluminadas pela prática profissional, conferindo sentido concreto aos saberes escolares. Dessa forma, não se visa apenas a emissão de certificados, mas a efetiva emancipação dos sujeitos, ampliando suas oportunidades no mundo do trabalho e fortalecendo sua capacidade de intervenção crítica e autônoma na sociedade”, destaca a doutora e mestra em educação.

O oferecimento de educação para milhares de analfabetos também é uma luta da EJA. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que Ceilândia tem 287 mil habitantes, com a estimativa de que 1,7% (4.900 mil) destas pessoas sejam analfabetas. “Ainda como referência Ceilândia, 66 mil habitantes não têm ensino fundamental completo e 94 mil sem ensino médio finalizado. A maioria deste grupo ficou fora da escola porque teve necessidade de trabalhar, falta de unidades escolares próximas às suas casas, dentre tantos outros pontos que a EJA pode suprir. Precisamos de ações mais sistemáticas e de busca ativa, projetos pedagógicos contextualizados e ampliação de oferta de turmas”, ressalta Aldemira do Nascimento, professora da SEEDF.

 

EJAIT nas prisões

A importância da Educação de Jovens, Adultos e Idosos nas prisões (EJAIT) foi outro ponto apontado durante o encontro. Para Vanessa Martins Alves, professora da SEEDF e mestre em Educação, o segmento desempenha um papel fundamental no sistema socioeducacional, indo muito além da simples transmissão de conhecimento formal. “Ela atua como um pilar essencial para a ressocialização, oferecendo aos indivíduos privados de liberdade ferramentas para reconstruir seu projeto de vida, recuperar a autoestima e desenvolver habilidades críticas e cidadãs. Ao possibilitar a conclusão da escolaridade básica, a EJAIT não apenas cumpre um direito humano fundamental, mas também abre portas para futuras qualificações profissionais, aumentando significativamente as perspectivas de reintegração social, reduzindo a probabilidade de reincidência criminal.”

Nesse contexto, o Sinpro tem sido um ator essencial na defesa e na qualificação da Educação de Jovens e Adultos. O sindicato luta incansavelmente por melhores condições estruturais nas escolas; formação continuada e valorização dos(as) professores(as) da EJA; políticas públicas permanentes e voltadas às reais necessidades dos(as) estudantes; e pelo reconhecimento da EJA como uma política de Estado, e não apenas de governo. “A atuação do Sinpro vai além da defesa categórica: promove debates, pressiona o poder público e fortalece a voz dos educadores e estudantes, garantindo que a EJA não seja tratada como um “apêndice” do sistema educacional, mas como um eixo estratégico”, finaliza a diretora do Sinpro Ana Bonina.

 

Clique aqui e confira o álbum do Facebook.