Arlene Muniz transforma educação, arte e inclusão em literatura

Baiana de origem e brasiliense por opção, a professora Arlene Muniz carrega na própria história a síntese de sua obra: resistência, educação e compromisso com a inclusão. Segunda de oito filhos, ela lembra que levava o material escolar dentro de um saco de açúcar — imagem que traduz as dificuldades da infância e, ao mesmo tempo, a força que a levou a enxergar na educação um caminho de transformação de vida.

Professora aposentada, Arlene dedicou cerca de 30 anos à educação pública, atuando como coordenadora de professores(as) de estudantes surdos(as). Nesse período, ministrou cursos, construiu e difundiu jogos e brinquedos pedagógicos em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e também materiais em Braille, muitos deles desenvolvidos no Gama, Região Administrativa do DF onde vive e mantém forte atuação cultural. Seu trabalho na educação inclusiva também dialogou com a pauta racial: por 5 anos integrou o Movimento Afrodescendente de Brasília-MADEB, criando jogos educativos com temática afro-brasileira.

Arlene no lançamento do livro “Você pode”, em dezembro de 2025. Foto: Divulgação

 

A arte sempre esteve presente em sua trajetória. Artesã, pintora, cordelista e xilógrafa, Arlene transita com naturalidade entre palavra, imagem e educação. Integra a Academia Inclusiva de Autores Brasilienses-AIAB, com atuação voltada à literatura acessível, e é membro fundadora da Academia Gamense de Letras-AGL, criada há 4 anos no Gama, onde ajudou a estruturar a sede e a consolidar as atividades. Também faz parte do Coletivo Cultural Cordeliando, que atua em todo o Distrito Federal com cursos e oficinas de cordel e xilogravura, além do Clube de Leitura Entrelinhas, que participa de encontros itinerantes em diversas cidades da capital do país.

Na literatura, Arlene acumula participação em dez coletâneas, incluindo publicações temáticas, como a dedicada a Paulo Freire. É autora de 17 cordéis educativos  já publicados — todos acompanhados de xilogravuras produzidas por ela — e prepara outros cinco títulos para lançamento. Seu trabalho autoral inclui ainda dois livros infantis com acessibilidade em Libras. O primeiro, “O Meguinho Sapeca”, marcou sua estreia na literatura infantil inclusiva e recebeu menção honrosa, além de repercussão na imprensa. O segundo livro, intitulado “Você pode”, foi lançado em dezembro de 2025. Elaborado e produzido em parceria com a filha, Reni Muniz, psicóloga, a obra infantil reforça o compromisso coletivo da autora com a inclusão.

Cordelista, a professora aposentada tem várias edições de cordéis publicadas. Foto: Divulgação

 

Nessa obra mais recente, ela reúne diferentes vozes e vivências: as ilustrações são de Luiz Eduardo, jovem artista autista, e os sinais em Libras foram desenhados por Lorrane, jovem surda, moradora do Gama e ex-aluna da rede pública de ensino do Distrito Federal. Hoje ela é estudante de Letras-Libras (UnB). Para Arlene, a escolha dos colaboradores reflete o próprio sentido do livro: dar visibilidade, protagonismo e acessibilidade.

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Com seus livros, Arlene Muniz já percorreu 96 escolas com contações de histórias, oficinas de Libras e atividades de sensibilização sobre acessibilidade. O segundo livro foi viabilizado por meio do Fundo de Apoio Cultural-FAC, o que ampliou o alcance do projeto. Mais do que publicações, sua produção literária se consolida como ferramenta pedagógica, de formação humana e de afirmação do direito à diferença.

Ao transformar a própria história em literatura e educação, Arlene Muniz reafirma que escrever, para ela, é um ato político, pedagógico e profundamente coletivo. Confira a entrevista que o Sinpro fez com a professora.

Arlene e Reni Muniz, sua filha, autoras do livro “Você pode”. Foto: Divulgação

Entrevista – Arlene Muniz

Em dezembro de 2025 você lançou uma nova obra. O que esse livro traz de novidade em relação às suas publicações anteriores?
A novidade é que o livro foi ilustrado por um jovem com deficiência, o Luiz Eduardo, que é autista. Toda a obra é inclusiva. Quem desenhou os sinais em Libras foi a jovem surda Lorrane, que foi minha aluna aqui no Gama. Toda a história foi construída de forma coletiva e acessível.

Que tipo de literatura você produz e quais são os principais temas que atravessam seus livros?
Minha produção é voltada, principalmente, para livros infantis. Trabalho também com cordel, poesias e contos em coletâneas, mas a literatura infantil é sempre inclusiva, com Libras e acessibilidade como elementos centrais.

De que forma suas obras dialogam com a escola e contribuem para a educação inclusiva?

Coloco Libras nos livros para que as crianças surdas tenham o primeiro contato com a leitura em sua língua materna. Depois, elas avançam para o português. Mando fazer 10 livros em Braille para Escolas e Bibliotecas que atendem as pessoas cegas. Mostro a necessidade da inclusão e da acessibilidade desde a infância.

Como seus livros têm sido aplicados nas escolas?
Vou às escolas contar a história, faço oficinas de Libras e apresento jogos em Braille e em Libras. As professoras e os professores usam esse material em sala de aula para que estudantes ouvintes também aprendam Libras, o que amplia a comunicação e o respeito.

Como você define o lugar do seu trabalho na literatura infantil inclusiva?
Meus livros são usados em atividades pedagógicas, datas comemorativas e projetos escolares. Eles facilitam o trabalho da professora e do professor, promovem leitura, escrita e acessibilidade para estudantes surdos e cegos.

Qual é a importância da circulação dos seus livros em escolas e bibliotecas?A inclusão precisa ser conhecida para ser respeitada. Quando falamos de Libras e de acessibilidade, promovemos respeito às pessoas com deficiência e ampliamos o olhar da sociedade.

Quais são os principais objetivos do seu trabalho como escritora?
Dar acesso à literatura respeitando as diferenças, promover oportunidades de aprendizagem e mostrar que pessoas com deficiência podem ilustrar, escrever e criar.

Em que momento você decidiu se tornar escritora?
Durante minha trajetória na educação, escrevia histórias para minha neta, a Giulia Leão. Quando me aposentei, tive tempo de lapidar esse conteúdo e publicar. O primeiro livro foi ilustrado por ela, com 6 anos, o que mostra que todos são capazes de criar.

Fale sobre a parceria com sua filha.
A parceria surgiu naturalmente. Ela acompanhou o primeiro livro e, no segundo, escrevemos juntas uma história vivenciada no Centro de Ensino Especial do Gama. O trabalho continua, sempre com o objetivo de promover respeito e inclusão.