A escola e o combate à violência de gênero
O ano de 2026 começou e com ele a contagem de feminicídios no Distrito Federal. Em 2026, a primeira vítima de feminicídio no DF é uma estudante de escola pública. Na madrugada do dia 18 de janeiro, a menina Ester Silva, de apenas 14 anos, foi assassinada por um homem que a tratou como um objeto de sua propriedade, pelo simples fato de ela ser mulher.
Feminicídio é uma chaga em nossa sociedade. A violência de gênero é a fonte do feminicídio. Pessoas são mortas porque são mulheres. Porque homens acreditam poder dispor de suas vidas, de seus corpos, de suas existências. É preciso combater essa mentalidade e desnormalizar essas crenças. Isso é trabalho não só da polícia e da Justiça, que só atuam (muitas vezes de forma insatisfatória) na iminência da ocorrência de um crime, ou quando o fato já está consumado – todas as marias, clarices e esteres mortas porque eram mulheres que o digam.
O Distrito Federal, que é a 20ª Unidade da Federação em número de habitantes, há pelo menos três anos vem ocupando o 3º lugar nacional em números de homicídios, atrás de estados mais populosos, como Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2025, houve um aumento significativo no número de homicídios no DF, com 25 mortes.
O combate à violência de gênero é trabalho mais que necessário de toda a sociedade. Professoras e orientadoras, e também professores e orientadores educacionais têm papel fundamental nesse processo. “A escola é o equipamento mais poderoso do Estado, porque tem a oportunidade de mudar a sociedade. E, ao assumir a postura de combate à violência de gênero, a escola diz à comunidade que está preparando uma sociedade com mais equidade, que respeita diversidade de gênero e a mulher”, explica a coordenadora da secretaria de Assuntos e Políticas para Mulheres Educadoras do Sinpro, Berenice Darc
É preciso garantir que as meninas possam se emancipar por meio da educação. Essa luta vai além da escola. Alcança toda a comunidade escolar e fortalece a construção de uma sociedade mais justa e segura para mulheres e meninas.
“Ester era extrovertida, divertida, uma adolescente alegre, participativa, com grande poder de argumentação, um grande carisma. Uma criança admirada e reconhecida entre os colegas e os professores, crescendo como toda criança merece.”, lamenta Juliana Cândida Pereira, diretora da Escola Classe Aspalha, onde ela estudou até 2023. Ester era aluna do CELAN, escola do Lago Norte, onde começaria a cursar o nono ano em fevereiro. Uma menina, de 14 anos, com todo o futuro pela frente.
Papel do Estado
O combate à violência de gênero é papel de toda sociedade, e quem deveria liderar esse trabalho atua de forma insuficiente. O governo do Distrito Federal falha fragorosamente em sua capacidade de entregar o básico em combate ao feminicídio, para tirar o DF, que ocupa o 20º lugar em número de população, do top 3 do ranking de feminicídios.
Com 35 Regiões Administrativas, o Distrito Federal conta com apenas duas Delegacias da Mulher, em Ceilândia – a última, inaugurada em 2020. Juntas, cobrem apenas 5% da área da Capital Federal. Não há previsão de criação de novas unidades. Outras delegacias contam com meros “núcleos de atendimento” para mulheres, mas não são delegacias especializadas.
“O papel das educadoras como agente de transformação da sociedade é inegável, mas sem um governo que atue de maneira firme e que trate a segurança da mulher como política pública, nosso trabalho será de enxugar gelo”, aponta a diretora do Sinpro Berenice Darc.
