24 de agosto de 1954: Getúlio se mata com um tiro no coração

Os ideais nacionalistas do ex-presidente Getúlio Vargas, que governou com políticas desenvolvimentistas favoráveis ao Brasil, com empresas nacionais e patrimônio público gerido pelo Estado, não agradaram aos Estados Unidos da América (EUA).  Vargas fez um governo quase que democrático. Sob pressão dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos políticos do campo da esquerda, criou o Ministério do Trabalho, instituiu regras trabalhistas e legalizou a existência dos sindicatos no Brasil.
Nada disso agradou os EUA. Para os megaempresários estadunidenses e o governo norte-americano, era mais lucrativo para eles que o povo brasileiro continuasse no modelo escravagista de relação de trabalho e as riquezas nacionais apropriadas e expropriadas por eles. E que o Brasil permanecesse uma colônia, ou seja: um Brazil.
Enquanto isso, aqui, em território nacional, a elite latifundiária e industrial, subserviente, nunca hesitou em obedecer aos comandos do país imperialista. Não é à toa que o sociólogo Jessé Souza a chama de “elite do atraso”. Sempre ganhou muito dinheiro para trair o Brasil e subjugar a classe trabalhadora.
A carta-testamento de Getúlio Vargas denuncia isso. Tanto é que não se trata de uma carta de um suicida, e sim de uma carta-testamento: “uma reação a uma campanha subterrânea dos grupos internacionais, aliados aos grupos nacionais, para bloquear a legislação trabalhista e o projeto desenvolvimentista”.
Semelhante a 2016, o golpe de 1954 era para impedir a emancipação da classe trabalhadora e a apropriação das riquezas nacionais pelo próprio povo brasileiro. Mas, naquela época, o povo reagiu a essa interferência norte-americana. A comoção nacional, com a morte de Vargas, tornou-se cólera contra as Forças Armadas e as empresas estrangeiras que habitavam solo brasileiro.
“Atualmente, a prisão de um ex-presidente, do campo democrático-popular, defensor dos interesses nacionais e da classe trabalhadora mostra a ação clara dos interessados em colonizar o Brasil e a tentativa arbitrária de repetir, hoje, 1954, 1964 e outros golpes aplicados na América Latina”, compara Cláudio Antunes, diretor de Imprensa do Sinpro-DF.
Os EUA não param. Com a colaboração da elite financeira e militar brasileira, nunca aceitaram a implantação de um projeto democrático, popular e desenvolvimentista no Brasil. Em 1964, para retirar o ex-presidente João Goulart do poder, mais uma vez, acionou os militares para aplicar um golpe de Estado que durou 21 anos.
Em 1985, ano que terminou a ditadura, a nação foi devolvida quase que totalmente desmontada pelos interesses imperialistas dos EUA e da elite militar e civil brasileira. Mas o povo reconstruiu o país. Em menos de uma década, entre 2002 e 2015, o país se desenvolveu. Alcançou o pleno emprego. O país ia muito bem nos BRICS etc. Descobriu o pré-sal e estava investindo parte dos recursos financeiros provenientes desse mineral em seu próprio desenvolvimento.
Todavia, novamente a interferência dos Estados Unidos com um golpe de Estado, aplicado em 2016, sustentado pela Operação Lava Jato e pela elite financeira e latifundiária nacionais. As consequências do golpe de 2016 estão aí: a reforma trabalhista para desmontar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do governo Vargas; a reforma do ensino médio – um projeto semelhante ao MEC-USAID, de 1968, que foi rejeitado e veementemente combatido na fim da década de 1960; e a entrega do pré-sal e de outras riquezas nacionais. Confira, a seguir, matéria do site Memorial da Democracia, publicado na Carta Capital, sobre o golpe de 1954.

24 de agosto de 1954: Getúlio se mata com um tiro no coração
Suicídio interrompe golpe, que já era comemorado com campanha por Lacerda

Créditos da foto: Velório de Getúlio Vargas no palácio do Catete

De manhã cedo, o presidente Getúlio Vargas, de pijamas, sai do seu quarto no palácio do Catete, vai até o gabinete de trabalho e volta com um envelope. Pouco tempo depois, ouve-se um tiro. O filho, Lutero, corre para os aposentos do pai, seguido pela irmã, Alzira, e pela mãe, Darci. Encontram Getúlio caído na cama, com um revólver Colt calibre 32 perto da mão direita. Na altura do coração, um buraco da bala e uma mancha de sangue. Encostado no abajur, sobre o criado-mudo, estava o envelope contendo a carta que, datilografada na véspera por um amigo, explica o gesto — não é um lamento, mas um manifesto político.
A carta-testamento não deixava dúvida sobre como o suicídio deveria ser entendido: era uma reação a uma campanha subterrânea dos grupos internacionais, aliados aos grupos nacionais, para bloquear a legislação trabalhista e o projeto desenvolvimentista. “Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”, dizia a carta, que concluía: “Serenamente dou o meu primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar para a história.”
Naquele momento, seu maior adversário, Carlos Lacerda (UDN), ferido no pé dias antes no atentado da rua Tonelero, comemorava com champanha o golpe que parecia vitorioso.
Horas antes, uma reunião de oficiais de alta patente recusara a proposta de Getúlio de licenciar-se da Presidência enquanto se desenrolasse o Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o atentado. Brigadeiros, almirantes e generais foram taxativos: só aceitariam a renúncia.
Certo de que vencera o último round na luta contra Getúlio, Lacerda vociferou numa emissora de rádio: “Aqui estou, no dia da redenção nacional […] para declarar que esse covarde, esse pusilânime, não está licenciado, está é deposto, o lugar dele é no Galeão [palco do IPM] ou no estrangeiro, e deve apodrecer na cadeia!”
Getúlio estava encurralado. Às duas horas da manhã, numa reunião ministerial, ouvira dos ministros militares que os oficiais das três armas haviam se unido em torno do manifesto dos brigadeiros que pedia sua renúncia. Às seis horas, dois oficiais da Aeronáutica foram ao Catete convocar Benjamim, irmão de Getúlio, para depor no Galeão.
Pouco antes do suicídio, o presidente recebera a notícia de que o comando das Forças Armadas havia se somado ao movimento pela sua renúncia imediata.
Getúlio cumpriu então o que havia prometido ao país dias antes. Eleito pelo povo, só sairia morto do palácio do Catete. Por volta das oito horas da manhã, suicidou-se com um tiro no peito.
A notícia, veiculada pouco depois pelas rádios, chocou o país. A população, revoltada, saiu às ruas para expressar sua indignação e homenagear o presidente morto.
No Rio de Janeiro, capital da República, uma multidão amargurada, revoltada e colérica passou a percorrer as ruas, armada com paus, pedras e fúria. Arrancou dos postes propaganda da oposição, quebrou as vidraças da Standart Oil, apedrejou a fachada da embaixada dos Estados Unidos e os prédios onde funcionavam os jornais “O Globo” e “Tribuna da Imprensa”. Para arrematar, incendiou os caminhões que distribuíam esses jornais. Só a “Ultima Hora”, que era favorável ao governo Vargas, pôde circular naquele dia.
Horas depois, em frente ao palácio do Catete, um milhão de pessoas tentava ver o corpo do presidente. Muitos choravam compulsivamente, outros desmaiavam, e havia aqueles que, ao entrar na sala onde acontecia o velório, se agarravam ao caixão.
Às oito e meia da manhã do dia 25, a multidão acompanhou o corpo de Getúlio até o aeroporto Santos Dumont, em um gigantesco cortejo que se desenrolava pela praia do Flamengo, do Russel até a avenida Beira-Mar.
Quando o avião da Cruzeiro do Sul desapareceu no céu rumo a São Borja, aconteceu o inevitável: as pessoas perceberam que estavam em frente ao quartel da 3ª Zona Aérea. O que era dor virou cólera, e a multidão avançou contra a guarnição da força militar que era escancaradamente oposição ao governo Vargas. Os soldados da Aeronáutica, aterrorizados, dispararam contra a população civil desarmada durante 15 minutos. No tumulto, mulheres e crianças foram pisoteadas, uma pessoa morreu e muita gente saiu ferida.
A comoção nacional transformou inteiramente a situação política. Os golpistas tiveram de recuar às pressas. As tropas voltaram aos quartéis, e os líderes da oposição, inclusive Lacerda, preferiram se esconder da fúria popular.
Getúlio, o “pai dos pobres”, havia partido. O povo estava de luto, mas vigilante. Nas ruas, deixava claro que não aceitaria ver os inimigos do presidente, que o haviam levado à morte, dando novamente as cartas no Brasil.
*Publicado originalmente no Memorial da Democracia

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