Por administrador em 14/jul/2009

Onde estão os pais como nossos pais foram?



Lembro-me que quando era criança, ainda existia uma divisão clara e respeitosa das Instituições (família, escola, igreja e Estado), onde cada um exercia seu papel precípuo, de maneira que todos participavam de todas elas, no entanto nenhuma era sobrecarregada.
A família era a mais importante delas, pois a ela cabia educar as crianças, ensinando-as como se comportar, como se sentar, se vestir, comer, os conceitos de respeito aos mais velhos e às outras instituições. A família formava o caráter das crianças, os pais ensinavam, educavam e a televisão agia apenas no entretenimento das crianças, íamos pra cama cedo porque tínhamos de acordar cedo para ir à escola sem atrasos, limpos e uniformizados.
Meus pais orientavam a mim e a minha irmã que era necessário que tivéssemos responsabilidade, tínhamos horário de chegar da escola, não pensávamos em parar para brincar no parque ou na praça, ir pra casa dos coleguinhas? Nem pensar. Também éramos orientadas para que não confiar em estranhos, ou melhor, nem mesmo falar com estranhos. Além disso, tínhamos que respeitar os mais velhos e nossos professores eram vistos como as pessoas mais importantes, e devíamos respeito a eles.
À escola cabia apenas ensinar a ler, a escrever, a fazer contas e resolver situações matemáticas. Aprendíamos também a ter respeito por nossa pátria. Nossa formação na escola era principalmente a formal, afinal a educação, o respeito e as boas maneiras eram aprendidas em casa.
Aos domingos meus pais nos levavam a igreja, onde participávamos das missas. Fizemos a catequese. Aprendemos que Deus castigava quem pecava (hoje tenho um visão bem diferente daquela época), então devíamos respeitar as regras, sob pena de Deus baixar sua mão contra nós.
Assim como meus pais, muitos pais tinham uma maneira peculiar de criar os filhos. A família criava as crianças para saberem enfrentar o mundo, não éramos movidos a presentes, por mais que desejássemos algo que passava no comercial da TV, tínhamos a consciência de que nem sempre ou quase nunca poderíamos ter (claro falo da realidade de uma família de classe média baixa). Nós filhos por sua vez não nos deslumbrávamos com os brinquedos caros que víamos na TV ou nas lojas, apenas sonhávamos em um dia possuir tal brinquedo, e aprendemos que era preciso estudar e trabalhar para realizar nossos sonhos de criança.
Não pense que tínhamos tudo na mão como hoje, nada disso, tínhamos tarefas de casa para realizar, e isso não era visto como exploração do trabalho infantil, era apenas educação para a vida e valorização do trabalho.
Quando nos tornamos adolescentes nossos pais conheciam nossos amigos, lembro que os trabalhos da escola eram feitos em grupo. Nos reuníamos aos sábados na casa de algum integrante do grupo, nossas mães, as que não trabalhavam fora, tinham prazer de receber nossos amigos, faziam até bolo pro lanche da tarde.
A vida escola era acompanhada pelos pais, que tinha conhecimento do desempenho em cada disciplina e não achavam normal nos sairmos mal na escola e também não culpavam a escola e nem tampouco nossos professores. Nossos pais acreditavam que a nós cabia a responsabilidade de estudar, aprender e pedir ajuda quando necessário.
Nossas festas eram ótimas, sem drogas, sem bebidas, sem sexo e com supervisão de nossos pais, que cediam suas garagens pra gente brincar. Um dia perguntei a mãe de um amigo que nos recebia sempre com um sorriso largo no rosto, o porque dela aceitar tamanha bagunça em sua casa, ela me respondeu que além de gostar da nossa turma, preferia nos ter sob seu teto e sua supervisão a nos ver nas esquinas.
Crescemos, hoje somos adultos e sempre relembramos nossas dificuldades, nossas diversões, nosso aprendizado. E podemos dizer sem medo de errar que nossa geração foi bem formada e a mais feliz.
Bummm!!!!!!!! Tudo mudou…
Essa família que forma o caráter está cada dia mais rara. Hoje deixamos que as secretárias, a televisão, a internet, a rua sejam responsáveis pela educação antes fornecida pela família. A escola também passou a exercer o papel antes precípuo dos pais.
Atualmente a figura do professor não passa para muitos pais de alguém que tem a obrigação de tomar conta dos seus filhos para estes trabalharem, figura essa que nem de longe parece o que aprendi a respeitar. Quando criança sonhava em ser professora, me fascinava a idéia de ser inteligente como meus professores. Mas infelizmente hoje a imagem do professor não tem o mesmo respeito de outrora.
Hoje o professor além das funções inerentes a sua profissão, se viu obrigado a exercer outras funções. Tendo em vista que o aluno é um ser humano e tem que ser visto como um todo, então precisamos sanar as suas dificuldades. Quando é pedagógico o fazemos, dando reforço da matéria no horário contrário, mudamos a metodologia no momento que observamos que a utilizada não alcança um ou outro aluno, e até compramos materiais para aquele que não tem e que os pais não se importam em adquirir ou às vezes não têm condições.
No entanto, existem situações que nos cabe procurar encaminhamento em outras áreas: dentista, oftalmologista, psicólogo, fonoaudiólogo. Quantas vezes vamos pra casa preocupados com nossos alunos que têm uma família, entretanto não têm quem lute por eles. Muitas vezes esquecemos nossos problemas, deixamos os problemas de nossos filhos, maridos, para nos preocupar com nossos alunos. Levamos trabalho pra casa, estamos adoecendo…
Acredito que o acumulo de funções está adoecendo os professores. Conversando com uma amiga e colega de trabalho, chegamos à triste constatação de que nossa escola assim como tantas outras, está doente. Síndrome do pânico, ansiedade, depressão, medo, problemas de voz, fibromialgia, são algumas das doenças que nós professores enfrentamos hoje.
Parece que no momento que a instituição família se desestruturou, todas as outras também saíram dos trilhos, nem mesmo o Estado com seu poder de polícia têm conseguido manter-se respeitado. Todos os dias assistimos nos noticiários crianças e adolescentes que cometem crimes, outros que são atraídos por pedófilos, sem contar as festas regadas por bebidas, drogas e sexo.
Por isso eu pergunto: Onde estão os pais como nossos pais foram?
Lucimeire Vaz Lima – professora da rede.

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