Congresso CNTE | Avanço da extrema direita e disputas no cenário global pautam análise da conjuntura

A Conferência de Análise de Conjuntura, realizada durante o 35º Congresso da CNTE, em Brasília, nesta quinta-feira (15), promoveu uma reflexão aprofundada sobre o cenário político internacional e nacional. Em pauta, o avanço da extrema direita, a atuação das grandes potências e o papel estratégico da mídia na construção de narrativas políticas.

A exposição foi conduzida por Ângela Carrato, jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mediação da secretária de Relações de Gênero da CNTE, Berenice Darc, e participação do secretário de Relações Internacionais da CNTE, Roberto Franklin de Leão.

 

No centro da foto, Ângela Carrato, jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

 

 

Avanço global da extrema direita

Ângela destacou que a extrema direita vem conquistando espaço significativo em diversos países, especialmente na Europa, alterando o equilíbrio político do continente e influenciando decisões geopolíticas globais. Nesse contexto, afirmou que ações de lideranças como Donald Trump devem ser compreendidas como expressões de disputas de poder, interesses econômicos e estratégias internacionais, especialmente na relação com a China e na influência sobre países da América Latina, como a Venezuela.

 

Democracia brasileira em perspectiva histórica

A expositora fez um resgate histórico da democracia no Brasil, lembrando os 21 anos de ditadura militar. Segundo ela, havia a expectativa de que o período democrático posterior traria avanços mais rápidos e estruturais, o que não se confirmou plenamente.

Políticas neoliberais adotadas nos anos seguintes, como no governo Collor, somadas às crises políticas que se sucederam, evidenciam que o processo de consolidação democrática foi mais complexo do que se imaginava.

Ela também destacou o ambiente político do último mandato do presidente Lula, marcado por denúncias amplamente exploradas pela mídia. Naquele momento, havia a sensação de que o país entraria em um novo ciclo de estabilidade política — expectativa frustrada pelos acontecimentos posteriores e pela ascensão de forças golpistas e da extrema direita.

 

Poder político, economia e narrativa

Na avaliação apresentada, esses grupos seguem atuando de forma articulada, inclusive no campo econômico. Como exemplo, Ângela citou o envolvimento de ao menos 20 municípios, todos governados por partidos de direita, com recursos aplicados em um mesmo banco, o que evidencia uma relação estreita entre interesses políticos e financeiros.

Ela criticou a forma como a grande mídia trata episódios dessa natureza, muitas vezes com solenidade excessiva ou desviando o foco dos fatos centrais, contribuindo para a distorção da narrativa.

 

Mídia corporativa e criminalização política

A conferência também abordou o comportamento da mídia corporativa nos últimos anos. Segundo Ângela, desde o início do atual governo há um processo contínuo de criminalização política, que atinge não apenas o Executivo, mas também o Supremo Tribunal Federal, alimentando conflitos e divisões na sociedade.

Em contraste, após a prisão de Bolsonaro e de militares envolvidos em tentativas golpistas, parte da mídia passou a adotar um discurso mais condescendente, tratando-os como vítimas, o que revela contradições na cobertura jornalística.

 

Violência institucional e negligência

Outro ponto central da análise foi a naturalização das agressões cometidas durante o governo Bolsonaro, inclusive no contexto da pandemia da Covid-19. Ângela lembrou que mais de 700 mil pessoas morreram no país, muitas dessas mortes evitáveis, e que esse cenário de violência institucional e negligência foi, em grande medida, relativizado ou silenciado pela mídia.

Embora o desgoverno tenha terminado, ressaltou que seus efeitos e práticas ainda permanecem presentes na sociedade.

 

Educação como trincheira democrática

O debate também se voltou para o cenário político de 2025. Do ponto de vista parlamentar, segundo a expositora, trata-se de um ano curto, fortemente impactado por um processo eleitoral que, na prática, nunca foi interrompido. Nesse contexto, a mídia volta a atuar como agente central na tentativa de dividir setores progressistas e enfraquecer a unidade política.

Ao encerrar sua exposição, Ângela destacou o papel estratégico dos profissionais da educação. Para ela, professores e professoras são lideranças fundamentais nas escolas, nas famílias e nas redes sociais, com responsabilidade direta no combate à desinformação.

Apesar da dimensão dos desafios e da força dos adversários políticos, afirmou que é possível vencer novamente, desde que haja organização, consciência crítica e atenção permanente à atuação da mídia.

Fonte: CNTE

 

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