O papel da mulher diante do conservadorismo de alguns candidatos

No artigo abaixo, a professora da Rede Pública do Distrito Federal Maria Cristina Mesquita da Silva faz uma avaliação conjuntural do papel da mulher nessas eleições diante do conservadorismo de alguns candidatos à presidência da República.
 
Hoje, antes de sair de casa, tive o desprazer de ouvir na TV uma declaração em áudio do Sr. Bolsonaro (Jornal Bom Dia Brasil de 04/10/2018). Nessa declaração ele dizia que o melhor que podia fazer pelas mulheres era investir em segurança pública, para que essas “senhoras”, “mães” tivessem a tranquilidade de que seus filhos voltariam para casa em segurança.
A despeito de toda ojeriza que esse senhor sempre me causou, tenho que admitir que essa declaração me angustiou e enervou ainda mais. Nela, está contida toda a compreensão da mulher e seu papel na sociedade, a partir da visão do candidato. Essa mulher despersonalizada, senhora abnegada do lar, genitora virtuosa que aguarda resignadamente sua prole retornar da batalha do dia.
A essa honrada mulher basta a segurança do seu filho, seu varão, cuja força é imprescindível à frente de batalha. Para essa mulher, não há que se falar em políticas públicas específicas. Nada há nela que justifique um programa voltado à SUA saúde, à SUA educação, à SUA segurança, à SUA equidade profissional e salarial.
Parece-me que esse senhor reside no mundo fantasioso das cartilhas dos anos 60. A Rede Globo atualmente apresenta uma novela que conta a história de pessoas do século 19 que, congeladas, acordaram em 2018. Bolsonaro bem podia integrar essa trama, talvez exceto por um detalhe: nem no século 19 esse mundo do seu imaginário chegou a existir; a não ser nas páginas das fatídicas cartilhas, essa fantasia se ilustrou.
Mulheres, é preciso dizer ao tal senhor que nós existimos. Sim, nós existimos!!! E pasme o sr. Bolsonaro, mesmo antes da geração dos nossos filhos. E temos vontades, somos a maioria da população brasileira e estamos cada vez mais chefiando os nossos próprios lares, e embora trabalhemos muitas horas mais que os homens, ainda somos nós as principais responsáveis por zelar por esse mesmo lar. E, veja só, nós estudamos mais que os homens.
E não é que temos até vontades próprias? Entre elas, a de ser mãe, quantas vezes nos aprouver ou até mesmo de não o ser (why not?).
Temos um corpo, composto sim por genitália e ventre, mas também por muitos outros aparelhos e sistemas. E queremos que esse corpo seja nosso. Ele há de servir à reprodução, ok. Mas quando, como e com quem nós quisermos e SE, e somente SE, nós quisermos.
Temos que dizer ao senhor Bolsonaro e seu séquito que, sim, queremos a segurança física dos nossos filhos, mas queremos também a segurança emocional, psicológica, social, moral, profissional, educacional PARA NÓS e para nossos filhos e para NOSSAS FILHAS.
Há muitas mensagens contidas em um simples discurso, mas também podem haver muitas outras em um simples voto. Espero que as mulheres possam, neste domingo, se aperceber disso e repassar a SUA mensagem enquanto cidadãs que AINDA têm muita importância por si mesmas, e que fazem toda a diferença!

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