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Três líderes sindicais rurais são assassinados em Mato Grosso

Em menos de uma semana do mês de agosto, três líderes sindicais foram assassinados em Mato Grosso, vítimas de conflito agrário com latifundiários. Antes de morrer, Maria Lucia, Josias Paulino de Castro e Ireni da Silva Castro chegaram a avisar às autoridades competentes que estavam sendo ameaçados, mas foram silenciados por tiros sem que fosse tomada qualquer providência. Diante do crescente índice de barbaridades que atingem o campo matogrossense, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais solicitou uma série de providências imediatas e efetivas para cessar o problema.

No dia 19 de agosto, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – Contag encaminhou ao Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA documento que solicita, entre outros pontos, a realização dos “inquéritos com rapidez e qualidade, para identificar todos os culpados, sejam eles mandantes ou executores, inclusive designando Delegados Especiais se for o caso, assegurando a conclusão dos processos com a efetiva e ágil punição dos culpados”. A Confederação também exige “imediata proteção à vida das lideranças sindicais e dos trabalhadores e trabalhadoras ameaçados por se manterem na luta pelo direito às terras”.

A Contag ainda quer realizar uma reunião com diversos ministérios, o Governo de Mato Grosso, e as entidades sindicais que representam os trabalhadores rurais em nível nacional. “Reafirmamos que a solução definitiva dos conflitos pela posse da terra é a realização de uma reforma agrária, ampla e massiva e capaz de democratizar a propriedade da terra e criar bases para a construção da mudança do atual modelo de desenvolvimento que é excludente, predatório, concentrador da terra, da renda e do poder por um modelo sustentável e solidário”, afirma nota da Contag em repúdio aos assassinatos em Mato Grosso.

Mortes anunciadas
Josias Paulino de Castro, 54 anos, e sua esposa Ireni da Silva Castro, de 35, foram encontrados no dia 16 de agosto, crivados de tiros de arma de fogo calibre 9mm, usada exclusivamente pelas Forças Armadas. Josias era presidente da associação Aspronu – Projeto Filinto Müller e lutava pela legalização das terras do distrito de Guariba, Município de Colniza.

Ele, por diversas vezes, denunciou as emissões irregulares de títulos definitivos da área em nome de fazendeiros e empresários, além da extração ilegal de madeiras. De acordo com Josias, em documento feito pela Contag, as denúncias envolviam também políticos, servidores do estado e a polícia que, segundo ele, estariam envolvidos ou coniventes com as ações de grilagem de terras públicas e em crimes ambientais nas mesmas áreas.

“Estamos morrendo, somos ameaçados, o Governo do Mato Grosso é conivente, a PM de Guariba protege eles, o Governo Federal é omisso, será que eu vou ter que ser assassinado para que vocês acreditem e tomem providências”, disse Josias na última vez que denunciou os crimes, no dia 5 de agosto, durante reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, realizada em Cuiabá, com a presença do Ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva, dentre outros agentes públicos.

No dia 13 de agosto, Maria Lúcia foi assassinada com três tiros fatais, no Município de União do Sul. Ela era assentada na Gleba Macaco, no Assentamento Nova Conquista 2, área reconhecida legalmente como terra pública da União, onde coordenava a luta pela regularização do Assentamento que conta com 25 famílias de trabalhadores rurais.

Em razão de sua liderança e lutas, Maria Lúcia recebeu diversas ameaças de morte, inclusive feitas publicamente pelo fazendeiro Gilberto de Miranda e seus capangas. Segundo a Contag, as ameaças foram presenciadas por oficiais de justiça quando cumpriam uma liminar de manutenção de posse contra o fazendeiro.
“Dessas terras só saio morto e estou pronto para uma batalha, tanto pra morrer quanto pra matar. Todos que entrarem nessas terras sem prévia comunicação ou sem a sua autorização estão correndo risco, já que as terras estão bem protegidas por homens fortemente armados”, disse em uma das ameaças o fazendeiro Gilberto de Miranda, enquanto expulsava da área os servidores judiciais.

De acordo com o documento da Contag enviado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, no dia do crime, ocorreu um incêndio no lote ocupado por Maria Lucia. Quando ela se dirigiu ao local para afastar o gado do fogo, se deparou com um funcionário de Gilberto Miranda que, segundo testemunhas, vinha rondando a região com uma arma de fogo à mostra, intimidando as famílias. Após proferir ameaças, o capanga iniciou uma discussão e disparou os tiros, assassinando Lúcia. Tanto o capanga quanto o fazendeiro foram presos, mas como o funcionário assumiu a culpa pelo assassinato, o delegado local liberou Gilberto da prisão, alegando falta de provas para mantê-lo na cadeia.

Por um fio
Um dia após a morte de Maria Lúcia, o ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de União do Sul, Cleirton Alves Braga, por pouco também não perdeu a vida, vítima de tentativa assassinato. Ele conta que quando voltava para o assentamento Gleba Macaco, no Projeto de Assentamento Nova Conquista 2, foi seguido por dois carros com pessoas desconhecidas. Para fugir dos perseguidores, correu pelo mato e se escondeu próximo à sua casa, de onde viu uma camionete atropelar propositalmente a cadela da família enquanto os homens que nela estavam davam tiros para o alto.

Secretaria de Comunicação da CUT Brasília