Por administrador em 06/fev/2009

Presidente da CUT: este é o momento de cumprir acordos



Artur Henrique (foto), presidente da CUT Nacional, desafia os governos a abandonarem o receituário neoliberal, em especial neste momento de crise. “Sempre que o modelo mostra que é inviável eles apresentam como solução o corte de gastos com pessoal, com aumentos salariais, com políticas sociais, com investimentos em obras e serviços. Mas os trabalhadores defendem a mudança dessa lógica: este é o momento em que precisamos cumprir os acordos salariais com os servidores, ampliar a contratação por concurso no serviço público e cobrar das empresas a contrapartida de não demissão e de não precarização das relações trabalhistas”, afirmou ele, em entrevista ao Sinpro na última quinta-feira. Confira a íntegra da entrevista:

Sinpro – Como a CUT está avaliando essa crise?
Artur – A primeira coisa que precisamos registrar é: quem são os responsáveis por essa crise? São aqueles que aceitaram as regras impostas pelo consenso de Washington, um receituário neoliberal implementado no Brasil nos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso e que se caracterizou pela diminuição brutal da força do Estado, com a privatização e entrega de empresas estatais. Esse modelo desmoronou e um dos berços do neoliberalismo, a Inglaterra, hoje estatiza bancos. Temos que vencer essa disputa e, como trabalhadores, dizer que não aceitaremos mais que a receita para sair dessa crise parta de quem a criou.
A segunda coisa que precisamos analisar é que essa crise atinge mais fortemente alguns setores que outros. Em alguns, como no setor automobilístico, por exemplo, ela não afeta tanto as grandes montadoras, mas atinge fortemente a metalúrgica de autopeças. Em 2008 foram vendidos três milhões de veículos, o lucro das montadoras bateu todos os recordes, então é preciso que os que lucraram muito aceitem diminuir suas expectativas, ao invés de simplesmente jogar a conta nas costas dos trabalhadores, demitindo e provocando uma reação em cadeia que provoca a recessão.
Veja o caso da Vale do Rio Doce: a maior empresa mineradora do mundo, patrimônio do povo brasileiro, foi entregue pelo governo Fernando Henrique por três bilhões de reais e somente no ano de 2008 lucrou 23 bilhões de reais. Essa empresa foi uma das primeiras a anunciar demissões em massa! Isso não é aceitável.

Sinpro – O que poderia ser feito para evitar um quadro de recessão?
Artur – Em primeiro lugar deve se garantir o emprego. Só assim, com a garantia de salário e emprego, o trabalhador poderá consumir com tranqüilidade, com a certeza de que poderá honrar com os compromissos assumidos.

Sinpro – Como os governos devem agir para dar a sua contribuição?
Artur – Sempre que o modelo mostra que é inviável eles apresentam como solução o corte de gastos com pessoal, com aumentos salariais, com políticas sociais, com investimentos em obras e serviços. Mas os trabalhadores defendem a mudança dessa lógica: este é o momento em que precisamos cumprir os acordos salariais com os servidores, ampliar a contratação por concurso no serviço público e cobrar das empresas a contrapartida de não demissão e de não precarização das relações trabalhistas.
Precisamos diminuir ainda mais os juros e cobrar dos bancos a diminuição do spread bancário, que torna o preço do crédito brasileiro o mais alto do mundo. O Banco Central já deu mostras de tendência de queda, mas é preciso mais. O Copom não pode se reunir novamente só daqui há 45 dias.
Outra coisa que defendemos e parece que o governo federal está começando a fazer, é cobrar das empresas que receberão recursos dos bancos públicos a contrapartida de não demitir. Não podemos aceitar que dinheiro do BNDES, oriundo de recursos como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) seja concedido a empresas que irão demitir. Também devemos exigir contrapartida em caso de isenção fiscal a empresas ou setores.
Os bancos públicos devem ser incentivados a conceder mais crédito para o setor produtivo. É fundamental manter e ampliar as políticas públicas e sociais e os investimentos que gerem emprego e renda. O governo federal, os estados e os municípios, todos têm a sua contribuição a dar e acreditamos que o reforço do mercado interno é que compensará a retração do mercado externo.

Sinpro – O que os trabalhadores podem fazer para defender essas idéias?
Artur – Nós da CUT estamos organizando uma série de atividades nos estados para protestar contra as demissões. No dia 11, próxima quarta-feira, vamos realizar atos pelo emprego e pela renda em várias cidades. Cada estado deve elaborar a sua pauta de acordo com sua realidade específica. No Espírito Santo, por exemplo, os trabalhadores se manifestarão em frente à Vale do Rio Doce. Vamos defender que a manutenção de empregos e salários é a garantia de que o mercado interno continue em expansão.

Sinpro – Esse discurso de corte de gastos está sendo usado aqui no DF pelo governo Arruda para não cumprir acordos.
Artur – Tenho acompanhado a mobilização dos professores, para garantir que a lei do Plano de Carreira seja totalmente cumprida. Considero um absurdo que os professores estejam enfrentando essa incerteza, pois se a lei foi exaustivamente debatida, resultou de um processo legítimo de pressão e negociação, foi aprovada e assinada pelo governador, não há sentido em usar o argumento de corte de gastos. O reajuste concedido pelo governo Lula ao Fundo Constitucional foi baseado em arrecadação já contabilizada. O dinheiro é repassado mensalmente ao governo Arruda. Ao pagar melhores salários aos professores deve se levar em conta que isso significará mais consumo e, conseqüentemente mais arrecadação de impostos e aquecimento da economia como um todo.
Não dá para descumprir compromissos usando o expediente da crise. Se eu por exemplo, que tenho um financiamento imobiliário de um banco privado, me recusar a pagar a prestação, em pouco tempo serei despejado do imóvel. Porque devemos aceitar calote do governo? Por isso considero legítimo que os professores se preparem para uma greve caso o acordo não seja cumprido. É lamentável que isso seja necessário, até porque os professores estarão lutando para se cumpra a lei.

Imprimir