Por administrador em 04/fev/2014

Política e cidadania na escola



Estudantes demonstram interesse por política e ações de cidadania, mas professores ainda encontram dificuldade em abordar o tema

O jovem Gustavo Medrado, de 16 anos, aluno da Escola Estadual do Parque São Jorge, em Uberlândia (MG), tem muita vontade de contribuir com as questões políticas do País. Ele é um dos estudantes selecionados para integrar o Parlamento Jovem Brasileiro, projeto da Câmara dos Deputados que incentiva a participação política e que, em 2013, selecionou 78 participantes. “É uma honra muito grande poder fazer parte desta família que é o Parlamento Jovem Brasileiro”, afirma Gustavo em seu vídeo de apresentação. Para participar do programa, que acontece anualmente, o estudante deve enviar uma proposta de projeto de lei. Gustavo é autor de um projeto que dispõe sobre a criação de um programa federal que contemple estudantes do ensino médio engajados em ações que beneficiem a comunidade escolar com bolsas de estudos no Brasil e/ou em países que fazem parte do Mercosul, de forma a promover maior integração latino-americana. “O meu projeto vai tentar combater os altos índices de evasão escolar que hoje existem em nosso País e também proporcionar maior integração entre os países do Mercosul”, justifica Gustavo.

Como ele e os demais participantes do projeto da Câmara Federal – ao todo foram 1.631 projetos de lei encaminhados por jovens de todo o País na edição de 2013 –, outros estudantes demonstram interesse por política e ações de cidadania. Mas muitos professores ainda encontram dificuldade em abordar o tema em sala de aula, devido à falta de interesse dos alunos. A movimentação típica de ano eleitoral pode ser uma boa oportunidade de levar o tema para a sala de aula. Para Emerson Cervi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor em Ciência Política, não dá para esperar que crianças com menos de 14 anos tenham interesse em receber informações sobre eleições, especificamente. “Creio que possa ser mais produtivo se os conceitos [abordados em sala de aula] forem sobre cidadania, ação coletiva, bem público etc., que são [temas] mais gerais e fundantes, do que sobre eleições propriamente ditas”, considera. Cervi sugere práticas que discutam conceitos de democracia, responsabilidade, participação. “A consciência política se forma com prática, exemplos e participação”, acrescenta.

O escritor João Pedro Roriz, que é jornalista, arte-educador e autor da obra Almanaque da cidadania (Editora Paulus), também defende que a escola deve orientar os alunos sobre questões relacionadas à cidadania. “A prática dessa cidadania requer olhar perspectivo, paciência e visão de coletividade, que devem ser propostos já na primeira infância, por meio de jogos lúdicos, encenações teatrais, brincadeiras e exemplos”, observa. Roriz propõe a abordagem de temas como direito, política, cultura, moral e ética. “Também é importante falar sobre o cenário político do País e o ambiente em que a cidadania é exercida”, completa. O educador recomenda o uso de obras literárias paradidáticas para auxiliar o professor em sala de aula, bem como atividades de arte-educação, como palestras dramatizadas, exemplos divertidos e miméticos, apresentação de canções com temas educativos.

Ele reforça que não adianta apenas abordar a questão partidária ou a importância do voto, explicar o sistema de votação ou simplesmente dar lições sobre como usar a urna eletrônica. “É preciso ir mais fundo e destacar o processo que nos trouxe até aqui. E poucas escolas estão dispostas a fazer isso”, lamenta. Para ele, é preciso esclarecer que trabalhar pela coletividade vale a pena, “mesmo para quem está vivendo uma condição desfavorável”, e completa: “para isso, há belos exemplos de superação”. O escritor chama a atenção do professor para a conscientização. “É importante mostrar que a classe política e suas práticas são reflexos da sociedade e que qualquer mudança depende de todos, independentemente das condições social, intelectual ou financeira de cada cidadão. Nesse sentido, vale a pena que cada escola invista em formações continuadas, palestras e atividades de arte-educação também para os professores”, enfatiza.

Espaço ideal

A escola torna-se o espaço ideal para a formação cidadã, pois se trata de um lugar onde a criança e o jovem vivenciam suas primeiras experiências relacionadas ao convívio social. A professora de História Marilu de Freitas Faricelli, que leciona no Colégio Humboldt, de São Paulo, considera que o envolvimento dos alunos em projetos que focam cidadania e política traz inúmeros benefícios. “Tudo fica muito mais claro, e eles percebem a importância da participação política e as consequências de quando essa participação não existiu”, ressalta. Marilu desenvolve com os alunos do 8º ano o projeto Parlamento Jovem, em que eles são orientados a elaborar projetos de lei para os programas desenvolvidos pela Câmara Municipal de São Paulo e pela Câmara dos Deputados. “Aproveitamos o conteúdo relacionado à Revolução Francesa, em que é tratado o conceito do absolutismo, e fazemos um contraponto abordando a vida política da atualidade no Brasil”, explica a professora. Os alunos estudam o que é política, democracia e cidadania, além de como esses conceitos se desenvolvem, e, com base em questionamentos e demandas observadas, elaboram seus projetos de lei.

A professora de História Sônia Regina Cordeiro Silva, que leciona no Colégio Estadual João Paulo II, em Curitiba (PR), acredita que a escola é o espaço ideal para a formação política e cidadã. “A escola trabalha com conhecimento e tem que motivar o estudante para essas questões. Se todas as escolas fizessem isso, o cenário político brasileiro seria bem diferente”, comenta. Sônia desenvolve com alunos do 3º ano do ensino médio o projeto Participação Política nas Ruas e nas Praças da Cidade – O Lado Público da Cidadania, em que cada aluno “adota” um vereador da cidade para fiscalizar. As ações dos parlamentares são acompanhadas pelos estudantes por meio das sessões da Câmara, da imprensa e do site oficial dos vereadores. Depois, todo o relatório é divulgado em uma página do Facebook. “O objetivo é despertar a visão crítica e conscientizar os alunos”, ressalta. Ela uniu o interesse dos jovens pela rede social e as facilidades da internet em relação à divulgação das ações dos políticos.

Segundo Déborah Achcar, uma das responsáveis pelo projeto Parlamento Jovem Brasileiro, a participação dos estudantes aumentou durante os dez anos de realização das atividades. Entretanto, ela ainda é considerada pequena. “Ainda é pouco. Contamos muito com a ajuda dos coordenadores estaduais, das secretarias de Educação, que difundem a campanha nos estados. E o Facebook foi a grande sacada, pois [a rede social] ajuda muito na relação com os jovens”, conta. Déborah avalia que o projeto contribui para o professor abordar o tema em sala de aula, pois conta com informações, apresentadas de forma didática, sobre o que é um projeto de lei e os passos para a sua elaboração. Ela ainda considera que se engana quem diz que há desinteresse por política. “Só de dizer ‘bom dia’ a pessoa já está fazendo política. O que há é falta de conhecimento e, sem conhecimento, acabam ficando sempre os mesmos em um espaço que é para todos”, ressalta.

Consequências

Quando a escola se redime do papel de atuar com formação política e cidadã, e o país não investe na conscientização, as consequências são as piores possíveis, na opinião do professor da UFPR, Emerson Cervi. “Um país sem cidadania exercida desde a idade em que as pessoas começam a ter contato com o ambiente externo à própria família é um país que terá que gastar mais tempo, dinheiro e energia discutindo formas de fiscalização e punições dos desvios”, afirma.

O escritor João Pedro Roriz também acredita em resultados catastróficos para um cenário em que a formação cidadã não é trabalhada: “muitos desses cidadãos buscarão resoluções de curto prazo para seus problemas mais iminentes, colocando-se em risco e sobrepondo seus interesses aos direitos alheios”.

O alerta para a escola é que essa formação deve ser trabalhada de maneira contínua, e não apenas em períodos relacionados a eleições. A mobilização de jovens ocorrida em manifestações registradas em 2013 ainda não é um indicativo de mudança em relação à conscientização, segundo Cervi. “As manifestações cumpriram seu papel. Não dá para esperar consequências perenes de manifestações de rua como as ocorridas no ano passado”, adverte. “Elas serviram para mostrar um descontentamento generalizado, não apenas dos jovens, mas também de amplos segmentos da sociedade brasileira. Só por isso, já valeram”, enfatiza o professor.

Cidadania em prática

Conheça a seguir projetos que visam à formação política e cidadã do estudante:

Parlamento Jovem Brasileiro (Câmara dos Deputados – DF)

O Parlamento Jovem Brasileiro é um projeto da Câmara dos Deputados que seleciona, anualmente, 78 estudantes, os quais representam os 27 estados brasileiros e o Distrito Federal. Em 2013, o projeto completou dez anos. Na primeira fase, os estudantes precisam escrever um projeto de lei que seja relevante e se inscrever em suas escolas. Algumas escolas usam o projeto em aulas de redação, sociologia e língua portuguesa. Em seguida, as escolas enviam os projetos de lei para avaliação das secretarias de Educação dos estados, as quais fazem uma avaliação primária e enviam para a Câmara dos Deputados os projetos selecionados. Os projetos finais são escolhidos por uma comissão de assessores legislativos da Câmara, analisados e classificados de acordo com critérios como originalidade, justificativa e clareza. Durante cinco dias, os 78 jovens participam de uma jornada parlamentar na Câmara dos Deputados, onde atuam como deputados federais. A simulação da rotina dos trabalhos legislativos visa despertar os jovens parlamentares para a reflexão crítica e a representação política por meio da vivência do processo democrático. “Eles chegam meio sem jeito, desconfiados, mas ao sair já estão com atitude de parlamentar. Durante o tempo que passam aqui, eles trabalham como um deputado, com uma programação intensa”, explica Déborah Achcar, uma das responsáveis pelo projeto. O número de representantes jovens por estado é definido de maneira proporcional, como nas eleições. Desde 2011, além dos estudantes do 3º ano, os do 2º ano e os do ensino técnico integrado ao ensino médio também podem participar.

Para saber mais: www2.camara.leg.br/responsabilidade-social/parlamentojovem e www.facebook.com/parlamento.jovembrasileiro

Parlamento Jovem (Colégio Humboldt – São Paulo/SP)

Os alunos, orientados e supervisionados pelos professores de História, Filosofia e Geografia, criam, escrevem e desenvolvem projetos de ações política e administrativa para o estado de São Paulo, baseados nos problemas observados na atualidade e divulgados por meio de notícias. Os projetos são encaminhados para a Câmara Municipal de São Paulo, que também desenvolve o programa Parlamento Jovem – que tem como objetivo principal possibilitar aos estudantes uma visão de alguns aspectos da democracia, por meio da vivência de um dia de sessão parlamentar, e para a Câmara dos Deputados. Independentemente da análise e da apreciação nas Casas de Lei, todos os projetos são apresentados e discutidos em salas de aula. “Uma das grandes vantagens do projeto é que os alunos conhecem o processo, passam a entender que há regras, que é muito difícil aprovar um projeto de lei, que é preciso aprovar o orçamento, consultar a Constituição, fazer pesquisa”, comenta a professora de História Marilu de Freitas Faricelli. De acordo com ela, o projeto tem como objetivo principal o exercício da cidadania e a vivência de encaminhamentos políticos, sociais e econômicos diante dos problemas da realidade próxima da cidade em que vivem. Marilu comenta que muitos projetos são relacionados ao combate à corrupção e aos problemas da saúde pública. “São temas que fazem parte de nosso universo”, afirma. Nas aulas de língua portuguesa, são trabalhadas as regras específicas para o texto do projeto de lei; em filosofia, trabalha-se com a concepção de política e, em história, são abordadas as formas de governo, entre outros aspectos. “A conscientização dos alunos é muito grande”, acredita a professora.

Para saber mais: novo.humboldt.com.br/projeto/parlamento+jovem+++8+ano

Participação Política nas Ruas e nas Praças da Cidade – O Lado Público da Cidadania (Colégio Estadual João Paulo II – Curitiba/PR)

A professora de História Sônia Regina Cordeiro Silva, que leciona no Colégio Estadual João Paulo II, em Curitiba (PR), conta que decidiu desenvolver o projeto Participação Política nas Ruas e nas Praças da Cidade – O Lado Público da Cidadania para incentivar e motivar seus alunos do 3º ano do ensino médio. “Quando eu falava em política, a reação era vinculada àquela visão do senso comum, em que as pessoas odeiam o assunto”, destaca. Como a turma compreende os alunos que estão mais próximos de participar de uma eleição, ela não teve dúvidas e lançou o desafio. Por meio de um sorteio, cada aluno teve que “adotar” um vereador, acompanhá-lo e fiscalizar suas ações. Os estudantes foram até a Câmara Municipal de Curitiba, onde assistiram a uma sessão e apresentaram-se aos parlamentares “adotados”. O monitoramento ocorreu por meio do acompanhamento das sessões, das notícias divulgadas pela imprensa e de sites ou outras ferramentas digitais mantidas pelo próprio vereador. Na sequência, os comentários sobre as ações (boas ou ruins) foram postados no Facebook, na página Terceirão da cidadania. A cada postagem, os alunos podiam comentar, curtir ou compartilhar as mensagens. “A meta é despertar a visão crítica e conscientizar os alunos”, ressalta Sônia. Ela acredita que a internet facilita a participação política e o uso de uma rede social no projeto despertou o interesse dos estudantes. De acordo com a professora, a maioria dos vereadores foi receptiva e encarou a fiscalização como uma contribuição ao mandato. “O principal é os alunos entenderem que fiscalizar [o trabalho do parlamentar] é nosso papel como cidadão”, afirma.

Fonte: Revista Profissão Mestre

 

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