Por administrador em 07/nov/2014

Para Aloysio de Carvalho, a Mídia opera como um campo discursivo da direita



O professor da Universidade Federal Fluminense, Aloysio de Carvalho, foi palestrante da mesa “Cumplicidade da imprensa e dos empresários com a ditadura”, realizada na quinta-feira (6/11), durante o 20º Curso Anual de Comunicação do NPC. Nessa entrevista ele fala sobre o padrão de atuação da imprensa liberal e mostra como a mídia se articula politicamente e assume o papel de ator político no contexto social do país, mediando e formando um consenso na sociedade, como foi observado nas últimas eleições. Autor do livro “A Rede da Democracia”, um estudo sobre a influência dos jornais O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), Aloysio explica como essa articulação de meios de comunicação opera como um padrão discursivo na sociedade brasileira. Confira.

O que foi a Rede da Democracia?

Ela foi uma organização de mídia criada em outubro de 1963, quase no fim do governo Goulart, e próximo do golpe militar. Foi uma forma de organização dos representantes da imprensa liberal. Lideram essa articulação política no campo da imprensa O Jornal, O Globo e Jornal do Brasil. A ideia foi do veículo O Jornal que era uma publicação ligada ao império do Chateaubriand, dono, à época, da maior organização de mídia do país, com revista, canais de TV e jornais. Essa organização se articulou para se opor ao governo Goulart e pedir a intervenção militar. É um momento de crise final do governo Goulart no qual as massas já estavam nas ruas reivindicando a reforma política, sobretudo, a reforma agrária. Essa organização de mídia vai dar espaço para militares, políticos e empresários que estavam contra o governo Goulart se pronunciarem. É, portanto, um exemplo de como determinados setores da imprensa liberal atuam e fazem uma espécie de associação editorial, compartilhando uma mesma linha editorial. Os pronunciamentos de militares eram publicados nos respectivos jornais ao mesmo tempo e reproduzidos em diversas mídias. Eram pronunciamentos diários e a Rede da Democracia tinha afiliados de rádios que repercutiam no país inteiro e depois eram publicados também nos jornais.

A Rede da Democracia foi uma peça fundamental na queda do governo Goulart?

Fundamental eu não diria por que o pilar da queda do governo Goulart foram os militares, mas como organização de mídia ela exerceu um papel importante no campo discursivo na sociedade. É um momento de crise no qual essa organização midiática vai cimentar uma articulação com a UDN, os IPES e Ibade, uma forma de criar um consenso pré-golpe. Então, tem um papel importante na história como agente participativo junto com os militares e tem um padrão de atuação. Criar uma organização de mídia é uma forma de se associar extra institucionalmente. Cada jornal deveria debater com o público leitor. Mas esses três jornais se juntaram e se articularam para pedir a intervenção militar. Esse padrão de atuação aconteceu no governo Vargas e acontece agora na democracia brasileira, como acabamos de ver nas eleições. Vimos como a Folha se articula com O Globo e Estadão, além da Veja e como quase conseguiram alterar um resultado das eleições.

Em que medida essa perspectiva de organização midiática da década de 1960 ainda existe? Quanto há de responsabilidade da mídia na forma do governo lidar com as manifestações populares das Jornadas de Junho do ano passado?

Esses representantes da imprensa liberal desde a década de 1950 têm um padrão de atuação. Outro exemplo é a forma de atuação deles no governo Vargas no caso do jornal Última Hora. A Tribuna da Imprensa, O Globo e O Jornal se juntaram contra o jornal Última hora e isso está muito bem documentado no estudo que fiz sobre o cerco da imprensa na Era Vargas. Eles têm um padrão de atuação no campo discursivo que vem da década de 50. Fizeram isso com o Lula e fazem no governo Dilma, sempre que há um caráter muito popular no governo. Esse padrão discursivo desqualifica a representação política e deslegitima, como está ocorrendo agora. A Dilma acabou de ser eleita e existe um clima de deslegitimação de sua eleição, deslegitimação da presidente eleita pelo próprio voto popular. Para os representantes da imprensa liberal parece que quem foi eleito foi Aécio Neves. Então, existe um clima de não aceita a escolha popular como expressão da opinião pública e se coloca a imprensa como expressão maior dessa opinião pública.

Então, a mídia seria também nesse momento um dos agentes responsáveis por inflar uma extrema direita que pede intervenção militar novamente no país como aconteceu em São Paulo?

O ponto de origem desse caldo é sim a própria mídia que instigou a tal ponto esse tipo de oposição, que agora está colhendo esse resultado: pessoas que não aceitam e não querem se submeter a um veredicto popular e se colocam contra a democracia e as leis instituídas no país.

Fonte: Blog do 20º Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação
Por Tatiana Lima

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