Por André Barreto em 15/jan/2018

Palestina: o rosto viral de Ahed Tamimi



Bassem Tamimi reabastece o fogão com carvão e faz mais café para os jornalistas que estão em sua casa, na pequena cidade de Nabi Saleh, na Cisjordânia. Todos ali têm o hábito do café. E todos têm direito a um afetuoso “habibi” (meu amor, meu querido em árabe), quer estejam aqui pela primeira ou pela vigésima vez. Na segunda-feira, ele voltaria ao Tribunal Militar de Ofer para comparecer à audiência que iria decidir se liberaria sua filha Ahed. Infelizmente, a audiência foi adiada e a adolescente, que ainda não sabe a data de seu julgamento, passará pelo menos mais uma semana na cela. No dia 19 de dezembro, ela foi presa às 4 da manhã por soldados que a tiraram de dentro de seu quarto com paredes cor-de-rosa cobertas com adesivos velhos do personagem Bob Esponja.

Quatro dias antes, Ahed Tamimi, 16 anos, havia insultado dois soldados israelenses que ocupavam o pátio de sua casa para desalojar atiradores de pedras, antes de chutarem e darem um tapa em um deles. Tudo sob os olhos de sua prima, Nour, 20 anos, e diante da câmera do telefone de sua mãe, Nariman, que transmitiu a briga ao vivo nas redes sociais. Desde então, o vídeo tornou-se viral e a imagem de Ahed, queixo erguido e cabeleira loira, tomou desde os muros da Cisjordânia às paradas de ônibus de Londres. Nour foi liberada sob fiança na sexta-feira, mas Nariman ainda está detida.

Ahed Tamimi não se tornou um símbolo agora. Já o era antes deste vídeo e, se há uma coisa em que palestinos e israelenses concordam, é que ela foi criada para isso. Para ser uma resistente, uma “lutadora pela liberdade”, como seu pai diz, com orgulho. Para ser uma “provocadora”, uma “atriz”, ridicularizam os israelenses. Já faz quase dez anos que Ahed participa das manifestações semanais organizadas por seu pai. Na sexta-feira após a prece, dezenas de moradores desta cidadezinha palestina de cerca de 600 habitantes, muitas vezes acompanhados por ativistas e jornalistas estrangeiros, marcham até um riacho do outro lado da estrada, onde fica a rica colônia de Halamish, com suas orgulhosas bandeiras com a estrela de David, seu arame farpado e seus loteamentos organizadinhos, ao estilo americano. Os moradores, que têm, há gerações, o hábito de tomar banho no riacho, lutam contra o desvio da fonte pelos colonos que, aos poucos, bloquearam o acesso ao riacho, transformando-o numa espécie de praia privada. Nas duas entradas da cidade foram instaladas duas pesadas barreiras de metal, de modo que o exército, posicionado em uma base próxima, controle o acesso em dias de manifestação, que termina sistematicamente em confrontos mais ou menos violentos. Nos dias bons, os militares bloqueiam a estrada e atiram as granadas ensurdecedoras e gases lacrimogêneos; nos ruins, atiram com balas de borracha. As crianças do vilarejo, os chebab, tentam expulsar os soldados atirando pedras seguindo táticas elaboradas durante a semana. Em oito anos, quase um em cada seis moradores foi preso. Os colonos, por sua vez, reclamam do cheiro do gás.

“Pallywood”

Os Tamimi filmam tudo: abusos, insultos, lesões. O tio de Ahed fundou uma agência de informação com o nome do clã, Tamimi Press. O ritual deu uma aura internacional a Nabi Saleh, que se tornou, no imaginário pró-Palestina, uma espécie de aldeia de Asterix combatendo quase sozinha a ocupação com abnegação e não-violência. Bassem Tamimi repete aos jornalistas: se uma terceira intifada acontecer, ele vai partir. Os israelenses, por sua vez, veem o lugarejo como a sede do que eles chamam, de forma depreciativa, de “Pallywood”, um teatro de provocação que utilizaria crianças como bucha de canhão por alguns cliques. Uma visão que beira a teoria da conspiração, retomada pelas altas autoridades israelenses. “A família Tamimi, que talvez nem seja uma família de verdade, veste crianças com roupas americanas e paga-lhes para provocar tropas da IDF [Israel Defence Forces] em frente às câmeras. Este uso cruel e cínico de crianças é um maltrato!”, ousou escrever no Twitter Michael Oren, ex-embaixador israelense em Washington e Secretário de Estado da Diplomacia.

Bassem Tamimi, por sua vez, assume sua estratégia, com frases de efeito que o ativista de longa data do Fatah teve tempo de aprimorar durante décadas de ativismo que lhe valeu quatro anos nas prisões israelenses por envolvimento na luta armada. No passado, membros do clã Tamimi também participaram de atos terroristas. “Hoje, a câmera é a arma mais poderosa e mais eficaz para a luta”, teoriza o pai da família. “Ela nos dá poder moral sobre o poder material de nosso inimigo. Os israelenses estão com raiva porque não podem mais monopolizar a mídia. Existem as redes sociais. Filmamos tudo, podemos provar tudo. Se eles querem dizer que é cinema, não me importo, não estou nem aí para suas análises”.
Regularmente, uma imagem particularmente edificante das sextas-feiras em Nabi Saleh dá a volta ao mundo. E Ahed sempre se destaca. Em 2012, vimos Ahed, ainda uma menina de 11 anos, frágil, mas impetuosa, de punho erguido diante de um soldado, ameaçando “explodir a cabeça” dele. O chefe de estado turco, Recep Tayyip Erdogan, até lhe ofereceu uma recepção bastante oficial e um iphone novo para continuar filmando. Os israelenses a batizaram de “Shirley Temper” – trocadilho que combina “gênio forte” em inglês com uma referência à estrela infantil de Hollywood Shirley Temple. Três anos depois, Ahed foi vista com uma camiseta cor-de-rosa com uma imagem do Piu-piu da Warner Bros, mordendo o pulso um soldado que tentava imobilizar seu irmão mais novo. Desta vez, a foto fez com ela fosse recebida presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas – na ocasião, Ahed vestiu um macacão camuflado. Bassem Tamimi está ciente e joga com o fato de a aparência de sua filha mexer com a opinião pública internacional. Seus cachos loucos, a ausência de véu, suas roupas adolescentes, sua melancolia revoltada bem millenial: como observou um colunista israelense, se cruzássemos com ela no shopping, ela não chamaria atenção. “Quando veem Ahed, os ocidentais, em sua maioria racistas, veem sua própria filha”, diz o patriarca dos Tamimi. “A oprimida é branco. Isso quebra o estereótipo do palestino de pele escura, que é um terrorista com uma arma na mão. Isso os perturba”.

Do lado israelense, foi um gesto, a bofetada humilhante, que perturbou a opinião pública. No vídeo, os soldados não se mexem para evitar uma escalada. “Eles nem a prenderam naquele dia, sequer escreveram um relatório”, diz Gaby Lasky, advogada de Ahed Tamimi. “Ela foi presa quatro dias depois, após o vídeo ter viralizado e os políticos interferirem”. Em um primeiro momento, os comentaristas israelenses elogiaram a fleuma dos militares, nova prova da “moralidade” do exército israelense. Mas rapidamente, os líderes da direita nacionalista se fizeram ouvir. Na rádio do exército, Naftali Bennett, ministro da Educação e líder dos ultranacionalistas do Lar Judaico, fez um apelo para que Ahed e sua prima “terminem seu dias na prisão”. O deputado do Likud Oren Hazan, conhecido por seu destempero, elogiou os soldados por seu “controle”, acrescentando que, em seu lugar, “teria enviado essas pequenas terroristas para o hospital mais próximo”, antes de se dizer “humilhado” pela liderança militar que não deixa os soldados “mostrarem quem é o verdadeiro dono da casa”.

Na televisão israelense, há um debate sem fim sobre como calar os Tamimi de uma vez por todas. Os excessos culminam em um editorial do diário Maariv, onde o famoso colunista Ben Caspit estima que “no caso das meninas, deveríamos fazê-las pagar, na próxima oportunidade, no escuro, sem testemunhas ou câmeras”. Uma sugestão interpretada como um apelo ao estupro por uma parte da esquerda israelense.

“Nenhuma tolerância”

“Em vez de um debate sobre a ocupação, a verdadeira causa por trás de tudo isso, o assunto nacional se limita à melhor forma de lidar com uma adolescente”, diz Hagai El-Ad. Para o diretor da organização B’Tselem, o caso mostra que não há mais “nenhuma tolerância com a resistência palestina. É quase uma piada: se um palestino filma uma manifestação, é terrorismo midiático; se defende o boicote, é terrorismo econômico; se quer levar um caso a um tribunal internacional, é terrorismo jurídico. Tudo o que não for acordar pela manhã e agradecer a Israel pela ocupação recebe este adjetivo…”.

Tudo indica que a justiça militar israelense – onde a taxa de condenação dos palestinos é de 99%, de acordo com as ONGs – quer fazer de Ahed Tamimi um exemplo. Com a consequência previsível de torná-la um ícone ainda mais importante do que é hoje. Doze acusações foram feitas contra ela, quase metade por “ataques”, e cinco contra sua mãe, acusada de incitação à violência. Algumas das acusações datam de vários meses, outras se referem a “ameaças” feitas durante sua prisão – a uma soldada que perguntou o que havia feito aos soldados israelenses, ela teria dito: “Tire minhas algemas que eu mostro”. No último fim de semana, o jornal Haaretz revelou imagens chocantes do rosto desfigurado de seu primo de 15 anos, Mohammed, atingido na cabeça por uma bala de borracha uma hora antes da filmagem do vídeo. Prova de que, definitivamente, não se trata de teatro. Bassem Tamimi diz ter um “vulcão” na barriga. “Estou triste, preocupado, mas também estou orgulhoso e confiante. Ahed é muito forte. Ela se tornou o espírito de sua geração”. Ele não tem arrependimentos, mas se incomoda quando perguntado se ele sacrificou a infância da filha pela causa. “Sim, criei meus filhos na resistência”, diz ele. “Se não houvesse ocupação, poderia mandar minha filha para a aula de dança”.

Fonte: Libération, tradução de Clarisse Meireles

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