Por administrador em 07/nov/2013

Os melhores do mundo em educação ainda estão insatisfeitos



Finlândia e Coreia do Sul têm desafios a enfrentar para se manter no topo das avaliações internacionais

Os estudantes da Finlândia e da Coreia do Sul têm notas de fazer inveja. Mesmo com modelos de educação tão diferentes, os dois países aparecem no topo de avaliações internacionais. O sistema finlandês, centrado na cooperação e na autonomia, foi o mais bem avaliado entre 40 países pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit em 2012. Em segundo lugar, apareceu o competitivo e disciplinador sistema sul-coreano. O estudo, chamado de The Learning Curve (A Curva de Aprendizagem), levou em conta mais de 60 indicadores quantitativos e qualitativos, como taxas de alfabetização e de conclusão de níveis de ensino. Entre os índices usados, está o do Pisa, que é a principal avaliação global sobre a qualidade da educação. Aplicada a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a prova analisa o desempenho de alunos de 15 anos em dezenas de países. Na última edição do Pisa, divulgada em 2010, a Finlândia e a Coreia do Sul ficaram, respectivamente, em terceiro e quinto lugares, na média dos quesitos avaliados – leitura, ciências e matemática. Bem à frente do Brasil, que ficou na 54ª posição entre 65 países.

Os bons resultados, no entanto, não dão tranquilidade aos dois países. Agora a expectativa está em torno da próxima lista do Pisa, que sairá em 3 de dezembro deste ano, com mais de 70 países participantes. Finlandeses e sul-coreanos querem subir ainda mais no ranking e se consolidar como modelos para todo o mundo.

Escolas avaliam traços de personalidade 

Os finlandeses podem não ser competitivos na escola, mas, a nível global, a história é outra. Saber que a Suécia se saiu melhor em algum quesito em testes internacionais, como resolução de problemas, é uma tragédia – mesmo que a Finlândia tenha ficado com a ótima segunda posição. A rixa é semelhante à existente entre Brasil e Argentina. “Eu não posso ficar dois minutos feliz com os resultados. A educação é tão importante que sempre há trabalho por fazer. Temos que ser ainda melhores em várias áreas”, disse a ministra da Educação da Finlândia, Krista Kiuru, na Latim America Leadership Summit, evento promovido em São Paulo na última semana pela Bett, uma feira britânica voltada à tecnologia educacional.

O país tem enfrentado alguns desafios. O número crescente de imigrantes eleva a atenção para um dos pilares do sistema, que é manter o mesmo nível de qualidade em todas as escolas públicas primárias. “Temos que apoiar todas as escolas, mas algumas precisam de ainda mais suporte, porque há o risco da segregação e há a entrada de crianças com diferentes níveis de aprendizado”, afirmou a ministra.

A Finlândia também ficou insatisfeita com o recente resultado da Piaac, uma pesquisa da OCDE que avalia as habilidades dos adultos entre 16 e 65 anos. O sistema de excelência da Finlândia tem cerca de 50 anos, e os adultos que o frequentaram tiveram resultados excelentes na Piaac em comparação a outros países. Mas os mais velhos não foram tão bem. “É uma prova de que o sistema funciona. Mas nós devemos deixar de lado aqueles que não tiveram acesso ao nosso sistema altamente qualificado? Não. Não podemos perder esse potencial. Temos que aprimorar as habilidades de todos. Senão, teremos falhado”, disse a ministra. A atenção do governo se volta hoje para os adultos com idade acima dos 50 anos. Todos podem e devem aprender, sem exceção. Essa é a maior lição da Finlândia, que vê a educação como um fator-chave para o bem-estar social e o crescimento econômico.

“Novas tecnologias com velhas pedagogias não servem para nada” 

Os problemas na Coreia do Sul são mais dramáticos. As crianças já saíram muito bem nos testes internacionais, mas são as mais infelizes do mundo desenvolvido. E o desempenho tem caído. Um em cada cinco alunos da educação básica já pensou em cometer suicídio. A maioria tem baixa confiança, habilidades interpessoais insuficientes e menos interesse em aprender. Aliado a outros fatores, a competitividade, que foi importante para a reconstrução do país após a Guerra das Coreias na década de 1950, cobra seu preço. As famílias pressionam seus filhos para que sejam bem-sucedidos e gastam cerca de 40% da renda com cursos extracurriculares.

O avanço das escolas particulares compromete uma das bases do sistema sul-coreano, que é oferecer oportunidades iguais a todos, afirmou, também na conferência em São Paulo, Sang Kon Kim, superintendente da Secretaria de Educação da província de Gyeonggi. “Se estamos realmente comprometidos com o futuro de nossas crianças, nós precisamos mudar nosso sistema educacional. Ao mesmo tempo, uma reforma educacional bem sucedida deve coincidir uma reforma social que respeite a dignidade humana”, disse. Segundo ele, em Gyeonggi, mudanças começaram a ocorrer para humanizar o ensino. As crianças trabalham em projetos colaborativos e os professores procuram estimular melhor a comunicação entre elas. No lugar da dura disciplina, há a valorização do estudo autodirigido e da autonomia do aprendizado. A expectativa é que alterações como essas, aliadas aos pontos altos do sistema educacional, que são a excelente infraestrutura e os professores altamente qualificados, permitam que a Coreia mantenha a sua liderança nos rankings mundiais.

“Estudei em Michigan sem sair de casa” 

“Mesmo melhores sistemas do mundo têm dificuldades, porque a mudança é limitada. A educação depende das pessoas para que as transformações aconteçam. Elas devem ter vontade e coragem de mudar. Infelizmente, essas pessoas não estão em todos os lugares. Na Finlândia, há ótimos professores fazendo coisas incríveis e, na escola ao lado, professores que apenas seguem a rotina”, afirmou a ÉPOCA Anthony Salcito, vice-presidente de educação da Microsoft, que visita dezenas de países por ano para conhecer desafios e usos inovadores da tecnologia em sala de aula.

Para o especialista, é nos momentos de crise que as mudanças são impulsionadas. No caso da Coreia do Sul, Salcito vê a baixa criação de empregos como um agravante da insatisfação dos jovens. “Os estudantes não foram preparados para serem empreendedores e criarem seus próprios empregos. É hora de ver outras oportunidades.”

Anthony Salcito afirmou que a insatisfação dos melhores sistemas do mundo é algo positivo, porque sempre é possível fazer mais para ajudar os estudantes. “Em todo lugar do mundo, os pais querem a mesma coisa para seus filhos: querem que sejam bem-sucedidos, que fiquem seguros, sejam felizes e atinjam seus potenciais. As crianças querem saber que tudo é possível, que podem sonhar.” E governos e educadores que trabalham para que as pessoas realizem seus sonhos precisam construir – e manter – sistemas de ensino de excelência.

 

 

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