Por Tomaz Campos em 01/fev/2018

O que o dedo médio de Temer diz sobre a tragédia da imprensa brasileira



Imagine Donald Trump caminhando em um domingo qualquer e suando as madeixas grotescamente acaju. Cercado de seguranças e do presidente do congresso americano, além de dois ministros. O presidente da câmara, por sua vez, acompanhado da filhinha de uns 10 anos de idade. No meio da caminhada, alguns manifestantes conseguem se aproximar um pouco mais e chamam o presidente de “bandido”, “ladrão” e “golpista”.

O constrangimento dos acompanhantes é latente, o sem jeito próprio dos bajuladores e serviçais salta na imagem.

Basta obviamente isso para que tome todos os noticiários da TV local. Sites, jornais. Ora, se ainda consigo distinguir o que é notícia ou não, um presidente sendo achincalhado em seu exercício dominical sempre foi e sempre será notícia. Em qualquer lugar do mundo.

Agora bote uma pitada de sal. Ou pimenta, como queira, na imagem descrita acima. Donald Trump, em mais um arroubo de sua sistemática demonstração de falta de compostura, olha para o lado de onde vinham os protestos e eis que…Faz o inacreditável, o inimaginável, o impensável, o impossível para alguém na condição de um chefe de estado: sim, ele fecha os dedos e deixa para fora o dedo médio. Aquele mesmo, como está no dicionário, “também vulgarmente conhecido como “dedo do meio”, “pai-de-todos” ou “dedo maior”.

Aquele que toda criança sabe ser um sinal feio, que não pode ser feito. Para agravar a total ausência de conhecimento do que é o papel de um chefe de estado, a liturgia do cargo, ao lado, lembre-se, existia uma criança de uns 10 anos. (Que bom exemplo o de um pai, levar a filha pra caminhar ao lado de um “ladrão”, “bandido”, “golpista”!).

A cena fica por alguns segundos, o dedo fica ali, como um monumento a um tempo bárbaro de uma nação, dissimulado, entre risinhos cínicos do dono do dedo e dos asseclas.

É claro que nem é preciso debater. Muito menos ser jornalista para avaliar se é notícia ou não. Não há qualquer dúvida de que, se já era notícia o presidente de uma nação sendo xingado ao ar livre em um domingo, o mesmo cometendo um gesto desses, já não é notícia apenas nacional. É algo do mundo. Uma aberração.

Siga o exercício de imaginação. Imagine que a TV americana tinha as imagens. Botou trechos das imagens no ar, com perguntas chochas sobre o de sempre (reforma da previdência, etc). Repita-se: então tinham as imagens. Mas a parte dos xingamentos e a inacreditável parte do dedo médio, não foram ao ar, não foi incansavelmente repetida, não foi citada, aquela bancada das 22h não comentou sobre…

Não fossem a internet e as redes sociais, ninguém saberia daquele descalabro.

Troque o presidente, o líder, a líder. Pense em Angela Merkel na mesma situação. O que faria a imprensa alemã? E Macron? Acha que a imprensa francesa ignoraria solenemente?

Agora pense na Coreia do Norte. Pense em Kim Jong-um. É 100% certo afirmar que no “Diário de Pyongyang” isso não iria ao ar, não seria notícia.

Pois muito bem.

Há outro lugar no mundo em que um chefe de estado ser xingado na rua e depois exibir o “pai-de-todos” também não é notícia.

Tragicamente, esse lugar é o Brasil. E a imprensa é a brasileira. Salvo o que não está contido na chamada “grande imprensa”, tal e qual Pyongyang, não foi notícia.

Foi no fim da tarde do domingo 21 de janeiro, dois domingos atrás. Está nas redes. Michel Temer percorria o trajeto entre o Jaburu e o Alvorada. Tendo ao lado Rodrigo Maia, e, ao que tudo indica, a filha deste, de uns presumíveis 10 anos. Ele, o histórico ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e também Alexandre Baldy (Cidades), além de seguranças um pouco atrás, fora do quadro.

Lá pelas tantas, vozes ao fundo começam a chamar o mandatário de “bandido”, “ladrão” e “golpista”. Rodrigo Maia ri nervoso, um riso serviçal, provavelmente o mesmo com o qual desmente ser o “Botafogo” da lista da Odebrecht. E sem graça. A cena segue. Até que, dissimulada e rapidamente, o presidente da nação, o chefe de estado, manda a tal liturgia do cargo pro mesmo Jaburu onde recebe empresários pra tratar de propina nos porões e ergue o tal dedo do meio.

É muito mais do que uma cena cotidiana. Uma cena qualquer. É um retrato do Brasil de 2018. Mas, por ossos do ofício, atentemos apenas para o aspecto da análise do malfadado jornalismo pátrio, esta tragédia que vai se apequenando e se tornando uma irrelevância total a cada dia. O mesmo jornalismo serviçal que duas semanas antes tinha noticiado a caminhada do presidente ao ser convocado por ele para mostrar, que, pós-operatório, “a saúde do presidente vai bem”.

Sinceramente, estando dito que aqui não estamos mesmo discutindo partido X ou Y, mortadelas ou coxinhas, e sim o jornalismo brasileiro, alguém crê mesmo que um presidente ser hostilizado publicamente e depois cometer um gesto obsceno não é notícia? Se existir esse alguém, por isso começamos com exemplos americanos, alemães, franceses e…norte coreanos.

Martin Baron, o histórico editor do Spotlight (sem a letra “R” no meio, por favor!), dá uma pista sobre como todo movimento de um presidente é notícia. Questionado em entrevista ao El Pais sobre se a imprensa deveria mesmo tratar os tuites de Trump como declarações oficiais, não fez por menos:

“É que são declarações oficiais do presidente. Em muitos casos provêm diretamente dele. Não podemos ignorar o que diz o presidente. Não podíamos ignorá-lo quando era presidente-eleito, e não podemos ignorá-lo agora que é o presidente dos EUA. E até o momento, levando em conta as políticas que já adotou, parece que os tuítes que publicou são um bom indicador do que pretende fazer como presidente”.

Ora, é claro que qualquer declaração, qualquer gesto de um presidente é oficial, é notícia. Mesmo quando o presidente é alguém useiro e vezeiro em receber na alcova, no porão, na calada da noite do Jaburu. Todo e qualquer movimento é público, pertence ao cargo e sua liturgia.

O que dizer de um gesto obsceno?

E o que dizer de uma imprensa que omite, ignora, finge não ver o gesto obsceno de um presidente?

Se Baron diz categoricamente que “não podemos ignorar o que diz um presidente”, Giannina Segnini, maestra que tanto inspira essa Agência Sportlight (agora com “R” no meio!), já citada por este humilde reportero como a maior repórter do mundo, é definitiva: “é preciso sempre recordar qual é a importância de nossa profissão como defensores do interesse público no mundo moderno”.

Já nem cabe mais questionar sobre como a imprensa brasileira tem tratado a “importância de nossa profissão como defensores do interesse público”?

O que grita aos olhos é em que momento deixamos de nos escandalizar com termos esquecido sobre a “importância de nossa profissão como defensores do interesse público”. Em que momento isso se tornou tão banal e se naturalizou tanto, a ponto de termos chegado a algo tão ridículo como, em meio a maior investigação da história do país, é pífia a participação da imprensa nisso tudo enquanto protagonista e não receptora de vazamentos sempre seletivos e a serviço de alguém.

Aquilo que outro monstro do ofício, Mário Magalhães, chamou um dia de “jornalismo com alma de release”. Pois, salvo as boas exceções de sempre, fazemos isso um pouco mais a cada dia: jornalismo com alma de release.

Nesses dois anos do presidente do dedo maior rijo e moral frouxa, sempre fico me perguntando: quando a imprensa vai cobrar mais satisfações dele, mais coletivas, mais dar a cara a tapa? E se não vierem, naqueles momentos quase quais “zona mista” em que se pega o cara de passagem, quando alguém irá fazer algumas perguntas para ele? Será que nunca, nesses dois anos, nunca se interessou em perguntar como é que um vice conspira contra a presidência? Nunca ninguém irá tratar sobre isso com o sujeito? Está no poder um cara que conspirou, derrubou, e vai passar incólume por tal pergunta fundamental? Ouvir dele o que tem a falar sobre isso. Porque independente de cor, mortadela, coxinha, é óbvio que há um interesse público em saber coisas do tipo. Nem essa pergunta mais básica foi feita a alguém envolvido em tantos escândalos.

E não bastasse todos os males, toda seletividade, de novo não é caso de partido, é falarmos de jornalismo: junte-se a tudo isso, a toda essa tragédia e irrelevância de um jornalismo risível, traços indeléveis da imprensa brasileira: misógina, machista, racista e preconceituosa.

Porque além da seletividade de cor ou partidarismo, há a seletividade machista na escolha do que é notícia ou não. Ou alguém imagina uma presidenta erguendo seu dedo médio para alguém e isso não ganhar todo o noticiário? O que iriam falar e fazer, muito além do óbvio absurdo que também seria uma quebra surreal da liturgia do cargo?

Não é só um dedo médio erguido num fim da tarde de Brasília/Pyongyang. É sobre o tal estado democrático de direito que estamos falando. Que, sem uma imprensa verdadeiramente “defensora do interesse público”, não pode ser considerado em pleno funcionamento.

(da Agência Sportlight)

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