Por administrador em 03/maio/2010

A luta por ensino de qualidade unifica a comunidade escolar



Existem poucos profissionais com a rotina de um professor. Poucos têm um contato tão direto e permanente com a comunidade quanto os professores.
A atividade de um professor vai muito além da sala de aula. Ele a leva consigo nos trabalhos dos alunos, nas provas, faz a preparação das aulas e, sobretudo, a preocupação com seus alunos é algo que não deixa de habitar seus pensamentos quando ele sai da escola e vai para a sua casa.
O professor não “desliga” nunca. A qualquer momento, vendo um filme, durante um passeio, assistindo à TV, poderá vir à sua mente a imagem de um aluno ou de uma aluna que requer mais atenção ou que se destaca. Em outro momento vai perceber, de repente, uma forma de ajudar outro aluno que precisa de uma orientação específica. O professor se dedica, se desgasta, vive diuturnamente a sua opção profissional, que é, na verdade, uma opção de vida.
Muitos professores ministram aulas em duas ou até três escolas. Muitos estão vinculados a mais de uma rede de ensino. Não é o ideal, nem recomendável, mas não há escolha. A professora e o professor têm necessidades, família, filhos. Eles têm direito a uma vida digna, de progredir com o seu trabalho.
Nossa categoria, em São Paulo é composta em mais de 70% por mulheres. Além da jornada dupla ou mesmo tripla de trabalho como professora, grande parte delas ainda cumpre sua jornada como mãe de família, cuidando da educação de seus filhos, além de enfrentar, muitas vezes, problemas familiares. Quantos filhos e filhas de professoras recebem os cuidados rotineiros de suas avós ou outros parentes enquanto a mãe cumpre sua função social com grande sacrifício em jornadas de trabalho cansativas?
Por que continuamos? Porque há em nós um compromisso que não se rompe. Um compromisso com todas aquelas crianças e jovens cujos rostos nos vêm à mente em momentos inusitados. Qual de nós, professores, já não imaginou um de nossos alunos ou alunas no futuro, como um profissional renomado, alguém que poderá fazer a diferença? Qual de nós já não viu no olhar de um jovem ou de uma criança, na sala de aula, a centelha de um futuro promissor? Quantos de nós já não nos emocionamos ao descobrir que alguns de nossos alunos realizaram um sonho que um dia compartilharam conosco em sala de aula ou numa conversa a sós? Este elo não se quebra facilmente, porque nós gostamos de ser essas pessoas que ajudam a juventude a descobrir os caminhos do futuro.
Mas o governo, responsável pelo nosso destino profissional e pela escola pública não enxerga nada além da necessidade de implementar o seu projeto para o estado de São Paulo. As autoridades não conseguem nos ver. Os dirigentes do Estado não se perguntam quem é este professor; quem é esta professora. Eles não estão verdadeiramente interessados em nos conhecer.
Quando paramos para pensar, tomamos consciência do quanto o trabalho de um funcionário público interfere na vida da população e como somos essenciais. Cabe ao profissional da saúde o tratamento cuidadoso para com aqueles que estão acometidos de alguma enfermidade ou acidentados. Aos profissionais da área da segurança cabe zelar pela integridade física de todos os cidadãos e pela tranqüilidade social. A nós, professores, cabe uma das tarefas mais honrosas que pode existir, que é formar cidadãos. Somos aqueles de quem a população espera atenção, cuidado, segurança, dedicação. E, no entanto, não recebemos do estado as condições para cumprir plenamente este nosso papel social, único e indispensável. Em uma palavra: não somos valorizados.
Quando escrevemos o texto do parecer que dá embasamento às diretrizes da carreira do magistério público (Resolução CNE/CEB 2/2009), percebemos o quanto a educação brasileira é fragmentada, ou seja, dividida em partes que não se combinam harmonicamente. Tudo aparece separado. A escola como estrutura e instituição muitas vezes adquire mais importância do que os professores, alunos e demais membros da comunidade escolar. Por isto dissemos naquele texto: em que pese todos os avanços que se possa ter em termos de estrutura e infra-estrutura na escola pública, se o ser humano que nela trabalha e estuda não tiver suas necessidades atendidas, ela não alcançará o êxito esperado pela sociedade. É preciso recuperar a escola como processo de humanização. O ofício do professor não é parte de uma engrenagem, mas é único, humano, e, como tal, precisa ser apoiado e reconhecido.
Qual é, portanto, o grande desafio? Na minha opinião, é resgatar o verdadeiro sentido do termo comunidade escolar. Ou percebemos que fazemos parte de um mesmo organismo social, que é a escola, que temos necessidades comuns, que dependemos uns dos outros, que estamos todos do mesmo lado, a educação pública, ou morreremos abraçados.
Mas a sociedade depende de seu próprio esforço. O governo não está interessado em atender à maioria da população. Pai, mãe, ele não se importa com as necessidades de seus filhos. Professor, professora, ele quer continuar apenas privilegiando uma parcela da sociedade que já é elitizada e tem todas as suas necessidades atendidas.
Isto fica claro quando o governo ignora uma greve de educadores, que mobilizou a categoria durante mais de trinta dias e dominou o noticiário, ocupou as ruas, causou comoção e gerou amplo debate. Como pode o secretário da Educação, diante de tudo isto, ter mantido sua rotina e ter se recusado a conversar com os professores durante a greve? Parece que existimos para eles apenas como peças de uma engrenagem, mas não como pessoas que merecem consideração e respeito.
A greve não é um acontecimento corriqueiro. Assim como uma febre em um organismo biológico, ela é sintoma de alguma doença no organismo social. E a doença é clara: abandono, descaso, desvalorização, desmotivação, um profundo cansaço frente à frieza com que somos tratados por aqueles que deveriam ser os primeiros a incentivar, valorizar, acolher, dialogar e buscar junto conosco – e não contra nós – as melhores saídas para os problemas da escola pública.
Professores, alunos, funcionários, pais: todos nós fazemos parte de uma mesma comunidade. Temos que fazer da unidade que somos também uma unidade de propósitos e uma unidade de ação. É preciso que todos percebam que não pode fazer bem à escola estadual uma lei que, através de uma prova, deixa sem nenhum reajuste salarial pelo menos 80% dos professores. Não pode dar bons resultados deixar toda uma categoria durante quatro anos sem nenhum reajuste de salários. O jornal Folha de S. Paulo apontou: apesar de ser o estado mais rico, SP paga a seus professores o 14º salário do Brasil.
Não é razoável, como faz o governo estadual, deixar professores sem tempo para preparar adequadamente suas aulas e desenvolver outras atividades necessárias à boa qualidade do ensino. Não é aceitável que o governo incorpore a GAM (Gratificação por Atividade do Magistério) em três parcelas anuais, quando poderia fazê-lo de uma única vez, e isto não quebraria o Estado. Além de tudo, é revoltante que o governo culpe os professores pelas deficiências que existem na rede estadual de ensino.
O governo não cumpre suas obrigações, mas o pior é que veicula inverdades na televisão e no rádio. Quem conhece um professor que ganhe R$ 7 mil por mês? Quem sabe de alguma professora que tenha recebido R$ 15 mil de bônus? Onde estão as classes com dois professores? Alguém conhece realmente salas de informática que funcionam em finais de semana com monitores nas escolas estaduais? Quem tiver condições de demonstrar estes fatos poderá fazê-lo aqui mesmo neste blog, pois o governo afirma estas coisas, mas não demonstra. O sindicato, portanto, não está mentindo quando diz que isto não existe.
Diante de tudo isto, reconforta-me sempre assistir ao filme Gandhi, no qual há uma passagem em que este grande líder da humanidade diz: “Quando me desespero, me lem
bro de que, na história, os caminhos da verdade e do amor sempre vencem. Sempre houve tiranos, assassinos; estes nunca conseguiram ser invencíveis. No final, sempre caíram.”
Vale a pena seguir em frente. Juntos, somos mais fortes, mais capazes e venceremos.
Maria Izabel Azevedo Noronha – Presidenta da APEOESP – Membro do Conselho Nacional de Educação

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