Por administrador em 28/jan/2009

Fórum:marcha reúne 100 mil em Belém



O que têm em comum uma freira da companhia das filhas da caridade de São Vicente de Paulo, uma militante do movimento lésbico de Porto Alegre, um comunicador da Guiné Bissau, um índio do chaco paraguaio, um empresário do ramo de brinquedos, um pastor evangélico que atua contra a violência na escola? Pois eles e pelo menos mais 100 mil pessoas estavam juntas ontem, 27, na marcha de abertura do Fórum Social Mundial (FSM), comungando do mesmo sonho: sim, um outro mundo é possivel! Diferenças caminharam juntas em uma rara demonstração de tolerância da espécie humana.
A militante lésbica traduziu bem o sentimento que unia os participantes:”Respeito é a palavra. Você não precisa pensar como eu, não existe uma só verdade, mas a natureza mostra que o mundo só é possível na diversidade”, afirmou. Ela carregava um cartaz em que questionava: todo mundo tem direitos, todo mundo é cidadão, por que o seu amor pode e o meu não?”
O pastor Carlos Alberto Ferreira é conselheiro escolar e no fórum está apresentando um projeto para combater a violência nas escolas do Pará. Contrariando o senso comum ele é taxativo: “Há dois dias, em uma pregação, eu perguntei às pessoas se elas pretendiam participar das oficinas do Fórum e a maioria disse que não. Eu então questionei: vocês estão achando que Jesus só quer oração? De jeito nenhum, ele quer também ação”. A irmã Cecília também acredita que os religiosos não podem estar longe da luta do povo. Ela participou do primeiro Fórum em Porto Alegre e acha que eventos como esse ajudam a busca de mais tolerância e paz entre os homens.
Jornalista em seu país, Jacinto Mango, da Guiné Bissau, veio para participar das oficinas de mídia livre. Ele defende que os movimentos sociais criem uma rede de comunicação interplanetária para furar o bloqueio da grande imprensa, em poder dos grandes grupos econômicos.
Perdido como qualquer anônimo na multidão, o empresário Oded Grajew, um dos idealizadores do FSM, em entrevista ao Sinpro, disse que nas oito edições do Fórum Social Mundial (FSM) os participantes “avisaram” o mundo sobre o colapso do modelo econômico que gerou a crise financeira internacional que os mercados vivem atualmente.
Grajew rebateu as críticas de que o FSM é uma instância de reclamação, que não propõe soluções. Segundo ele, as alternativas foram apontadas ao longo dos anos, mas não tiveram repercussão entre os responsáveis pelas políticas públicas e pelos investimentos mundiais.
“Diziam que os recursos eram limitados. Agora na crise, de repente, apareceram trilhões de dólares para socorrer montadoras, bancos e empresas falidas e que poderiam ter sido usados para combater a pobreza, melhorar saúde, a educação”, argumentou.
Na avaliação de Grajew, o dinheiro repassado atá agora a empresas e instituições financeiras para amortecer os impactos da crise seria “mais que suficientes” para combater a fome, a pobreza e melhorar o acesso à saúde e à educação no planeta.
O ativista atribuiu parte da falta de visibilidade para as propostas do Fórum à cobertura da imprensa, que, segundo ele, tenta “folclorizar” a reunião.
A representante do Fórum Social Europeu, a italiana Rafaela Bolini, lembrou que nas primeiras edições do megaevento os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que “denunciavam a globalização neoliberal e o mercado capitalista” sofreram criminalização e até repressão política.
“E a denúncia era verdade. A denúncia dos perigos para a humanidade, para o planeta e para a natureza era verdadeira. E estamos aqui porque essa realidade precisa ganhar visibilidade”, enfatizou Rafaela.
Um dos desafios do FSM, segundo Rafaela, é evitar a fragmentação e construir propostas e alternativas à crise. “A solução para esta crise não será real se vier dos mesmos que a criaram”, avaliou.
“A construção de um novo mundo vai estar em nossa mãos, cabe a nós construí-lo. Temos um desafio monumental pela frente. Nosso desafio é repensar o desenvolvimento, mas com direito à esperança, à ousadia, à utopia”, acrescentou o sociólogo Cândido Grzybovski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e também membro do Conselho Internacional do Fórum.

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