Por André Barreto em 18/abr/2018

Esquivel defende Nobel a Lula, e alerta para risco à democracia na América Latina



Os povos da América Latina não caminham isolados, seja para o progresso ou para o atraso: há muitos paralelos na história dos países da região. É o que se extrai do pensamento do arquiteto, escultor e ativista pelos direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel. O argentino está em visita ao Brasil para se encontrar com lideranças políticas e impulsionar sua campanha para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja indicado para o Nobel da Paz de 2019 (as candidaturas para este ano já foram encerradas). Esquivel recorda que recebeu o prêmio em 1980, “quando estava preso (pela ditadura argentina), assim como Lula está detido agora por questões políticas”. No Rio de Janeiro, ele visitou o JORNAL DO BRASIL e participou de ato em homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL), realizado no Complexo da Maré. “As favelas daqui são as ‘chabolas’ venezuelanas”, comparou. 

As semelhanças, porém, não se limitam a miudezas. Para Esquivel, muitos países da América Latina conseguiram nos últimos anos progressos notáveis no combate à pobreza e à desigualdade social. No entanto, segundo ele, as conquistas da região estão hoje ameaçadas por “golpes de Estado brandos, como aconteceu em Honduras, Paraguai e agora no Brasil”, e também pela força do “poder econômico” e pela “ditadura do pensamento único”.

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Nobel para Lula 

“Conheço o Lula desde os anos 70, por seu trabalho como sindicalista no ABC, em São Paulo. Nem sempre tivemos uma relação direta, mas seguia seu trabalho, sua luta, até chegar à Presidência da nação. Lula está preso, mas quando meu nome foi indicado para o Nobel, eu também estava preso, acusado de ser subversivo e terrorista. Mas por que a indicação? Porque Lula, com suas políticas sociais, tirou da pobreza extrema mais de 30 milhões de brasileiros. Uma façanha. Não conheço outro exemplo dessa magnitude. Além de um feito único, é um feito humanitário, de responsabilidade social, cultural e política com seu povo. Em setembro vou apresentar oficialmente sua candidatura ante o comitê do Nobel, enfatizando que ele se encontra preso. Lula é acusado, porém sem provas. O prêmio seria o reconhecimento a um nome com uma luta social e política muito forte. Ele não busca enriquecer, e sim servir ao seu povo e à humanidade. Esse é o eixo central de sua candidatura. Pedimos autorização para um encontro com ele em Curitiba, mas ainda não tivemos nenhuma resposta. Ao meu lado viaja um grupo de deputados do Parlamento do Mercosul e congressistas argentinos. Caso consiga encontrá-lo, vou lhe dar um abraço e falar que é preciso resistir”. 

Brasil e a América Latina 

“Vemos com muita preocupação não só a situação no Brasil, mas em toda a América Latina. Houve golpes de Estado encobertos, que chamamos de golpes brandos, em Honduras, no Paraguai e no Brasil, com a destituição de Dilma Rousseff, sem nenhum tipo de justificativa. E agora o ataque a Lula, que pretende neutralizá-lo e impedi-lo de participar das eleições. Isso tem a ver com as políticas que estão sendo implementadas em todo o continente, e que também se relaciona com a política dos Estados Unidos para a América Latina. Não há casualidade.”

Retrocessos no continente 

“Há um forte retrocesso na América Latina, aumento da pobreza e da repressão. Acredito que estão se perdendo direitos. A democracia está se enfraquecendo, pois os direitos dos povos e os direitos humanos são agredidos. Vemos isso bem claro em todo o continente. E democracia e direitos humanos são valores indivisíveis. A solução para os problemas não são a intervenção do exército e da polícia, nem a repressão. São as políticas sociais, educação, saúde, trabalho e meio ambiente. É preciso encontrar alternativas para a situação que os povos vivem atualmente. Existe uma exploração indiscriminada, que querem confundir com desenvolvimento. No entanto, desenvolvimento e exploração não são a mesma coisa. Uma coisa é o desenvolvimento, que ajuda a melhorar a vida dos povos, e outra a exploração, que rouba todos os recursos, como estão fazendo muitas empresas multinacionais. A democracia na América Latina está em perigo”.

Ditaduras econômicas 

“Não acredito na volta dos militares à região, mas sim na ditadura econômica, nas quais governos autoritários se disfarçam de democráticos. Temos democracias mais formais do que reais. Por isso é importante mudar o sistema, de democracias delegativas para democracias realmente participativas. Todos sabemos o que são as monoculturas, de pinus, soja, trigo… Mas existe uma monocultura mais perigosa que todas essas. É a monocultura das mentes. A imposição do pensamento único, que nos está sendo imposto todos os dias. É a droga mais tóxica da humanidade atualmente. 

Argentina 

Na Argentina há uma perseguição muito grande aos povos originários, como é o caso dos Mapuches, assim como a algumas organizações sindicais e sociais e a jornalistas. A repressão tem aumentado. Existem grandes empresários e marcas, como a Benetton, que possui um milhão de hectares de terras no país. Boa parte roubada dos Mapuches. E o governo defende esses latifundiários. Ninguém pode possuir um milhão de hectares em uma nação, no caso da Argentina abrangendo três províncias da Patagônia. Há ainda outros empresários que têm extensões enormes de terras. Logicamente, as comunidades indígenas reivindicam seus direitos a elas. Uma vez viajei a Roma com um casal Mapuche e encontrei Benetton (Luciano Benetton), que me disse: ‘mas eu comprei as terras de boa-fé, o que posso fazer é doar uma parte delas’. O casal respondeu: ‘Não podem doar nada, pois as terras são nossas’”. 

Venezuela e Honduras 

“Conheço a Venezuela há 50 anos. Estive nos morros, nas ‘chabolas’ (favelas), onde as pessoas viviam sob plástico e papelão. A política de Hugo Chávez, que os Estados Unidos nunca aprovaram, inclusive tentaram derrubá-lo, como fazem agora com Nicolás Maduro, deu saúde, educação e moradia digna para as pessoas. A Unesco declarou a Venezuela livre do analfabetismo, como a Bolívia. Agora há que se ter em mente a queda dos preços do petróleo, assim como a pressão dos Estados Unidos. O país vive dificuldades, não podemos negar, mas outra coisa são as tentativas golpistas. Quando abrem instâncias de diálogo e convocam eleições, a oposição diz que não vai se apresentar. Se tem força política para se opor, que assim o faça. Há uma campanha muito forte contra a Venezuela. Por outro lado, ninguém fala de Honduras, onde existem grandes violações aos direitos humanos por parte do Estado. Jornalistas assassinados, presos e no exílio, a morte de Berta Cáceres (ativista indígena)… Mas não está na agenda dos grandes meios de comunicação.

Hegemonia americana 

Os grandes interesses econômicos estão por trás de muitas tentativas de derrubar governos na América Latina. Os interesses do petróleo, por exemplo. A hegemonia dos Estados Unidos na região não pode permitir que um país escape, como aconteceu com Cuba. Barack Obama quis fazer muitas coisas, mas não pôde. Ele quis fechar a prisão de Abu Ghraib, no Iraque, e Guantánamo, em Cuba, como prometeu na campanha, mas não conseguiu, pois essas questões quem decide é o Congresso, que está nas mãos dos republicanos. Obama foi o primeiro presidente americano a visitar Cuba, ele tinha vontade, mas quem dominava era o complexo industrial-militar, que promove guerras em nome da liberdade e da democracia, como no Iraque, onde estive e vi o horror, e Síria. Donald Trump, por outro lado, é patético. Estive em Berlim antes e depois da queda do muro, pensávamos que após 1989 o mundo seria renovado com diálogo, mas os EUA não permitiram. Trump promove a xenofobia. O tal do muro na fronteira com o México, que consequências em termos de racismo e intolerância pode ter?

Fonte: Jornal do Brasil

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