Por Tomaz Campos em 10/jul/2017

Escola sem noção



Não existirá esperança para o Brasil enquanto não houver uma revolução na qualidade da educação. Temos um dos piores sistemas educacionais do mundo, que forma uma maioria de estudantes sem conhecimentos básicos de português e matemática. Nenhum país conseguiu dar um salto de desenvolvimento sem antes construir um sistema acessível de ensino, que forme cidadãos capazes de dar rumo ao país e uma força de trabalho bem preparada.

Trata-se de uma constatação quase consensual, aliás. Esquerda e direita concordam que a educação tem que melhorar, sindicatos e grandes empresários, pais e alunos, professores e políticos. Isso é bom: para que a revolução educacional possa acontecer, é necessário que haja uma participação da sociedade inteira.

Especialistas de esquerda e de direita concordam que uma educação pública suficientemente boa é uma peça fundamental no sistema educacional de qualquer país – sem isso, só os ricos podem estudar e o resultado inevitável é um país injusto, com força de trabalho de baixa qualidade, incapaz de inovar e de crescer. Tanto é assim que raríssimos países desenvolvidos dão boa educação pública a menos do que 80% da população – nos Estados Unidos, são 92%. Mas uma boa educação tampouco é responsabilidade só do governo. Países onde o ensino tem qualidade realmente alta são aqueles que conseguem envolver a sociedade toda no trabalho coletivo de educar as novas gerações. Boas escolas não são isoladas de suas comunidades: elas são abertas para que todo mundo que tenha algo a ensinar possa transmitir o que sabe para as gerações seguintes. É fundamental também que os pais acompanhem muito de perto a jornada dos seus filhos, em diálogo constante com a escola.

Aqui no Brasil, como regra, vamos muito mal em todos esses aspectos. Tem uma história que considero bem ilustrativa da maneira equivocada deste país de encarar o assunto: é a história do Movimento Escola Sem Partido. O movimento nasceu em 2003, quando a filha de um procurador do Estado chamado Miguel Nagib voltou da escola e contou ao pai sobre o que ela tinha aprendido naquele dia. O professor tinha falado sobre personagens históricos que abriram mão de tudo em suas vidas para se dedicar de corpo e alma a uma ideologia. Ele deu dois exemplos: São Francisco de Assis e Che Guevara.

Nagib ficou furioso. Pareceu-lhe descabido que alguém pudesse fazer qualquer tipo de comparação entre um santo e um comunista. Indignado, ele foi conversar com outros pais, mas ninguém ficou tão revoltado quanto ele. Aí ele teve a ideia de criar um movimento contra aquilo que ele chamou de “doutrinação ideológica” nas escolas. A estratégia-padrão do movimento era mandar notificações judiciais para intimidar professores acusados como “doutrinadores”.

Claro que não é mesmo aceitável que professores doutrinem seus alunos: o papel da educação é dar os elementos para que os alunos desenvolvam a capacidade de pensar por si próprios. Não dá mesmo para defender que um professor se aproveite de uma posição de poder para tentar fazer lavagem cerebral em seus alunos. Mas, quando se investiga mais a fundo as brigas que o Escola Sem Partido comprou, fica claro que, no fundo, o movimento não é contra a “doutrinação”. É contra o pensamento livre. Um dos seus princípios mais básicos, por exemplo, é defender “o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. No fundo, o que o movimento quer é controlar os professores, para garantir que os alunos não aprendam “ideias perigosas” na escola, como o feminismo. Ou a justiça.

E isso é péssimo, porque um elemento central em qualquer escola que funcione é a liberdade de ensinar. Na Finlândia, por exemplo, que tem o melhor sistema de educação do mundo, professores não precisam nem seguir um currículo detalhado – apenas diretrizes vagas de onde se quer chegar. Cabe a cada um encontrar, de maneira criativa, o caminho até o coração dos alunos. Está bem claro que um sistema assim é muito mais eficaz: alunos aprendem melhor com professores apaixonados, criativos, engajados. Sem falar que sistemas que dão mais liberdade invariavelmente atraem professores mais talentosos – dar aulas sob a ameaça constante de notificações judiciais tira todo o prazer de ensinar.

Ok, Nagib era um pai paranoico que, querendo ajudar, estava atrapalhando a educação. Não é o primeiro nem será o último: até aí tudo bem, lida-se com isso. O mais maluco dessa história aconteceu mais recentemente, a partir de 2015, quando a crise política chegou ao fundo de poço de onde nunca mais saímos. Com os partidos políticos soterrados por denúncias, o Escola Sem Partido, compreensivelmente, começou a ganhar adeptos. Foi aí que algo bizarro aconteceu: diante da baixa popularidade dos partidos, sabe quem resolveu lucrar com o Escola Sem Partido? Acredite: os partidos.

Como por exemplo o PR, que está todo enlameado por denúncias. É o partido do senador Magno Malta, um colecionador de acusações de corrupção. Ele esteve envolvido, por exemplo, no repulsivo escândalo dos Sanguessugas, no qual foi acusado de desviar dinheiro que estava destinado para a compra de ambulâncias. Enfim, o sujeito é gente boa.

Pois então: Magno Malta, representante de um dos piores partidos, é relator do projeto de lei Escola Sem Partido, que tramita no Senado, com a proposta de proibir que os professores discutam questões de gênero ou “doutrinem” os alunos. O projeto é uma baboseira, do ponto de vista pedagógico é um desastre, mas encontra apoio porque surfa na baixa popularidade dos políticos. Como esse, há outras dezenas de projetos semelhantes tramitando na Câmara, nas Assembleias dos estados e nas câmaras de vereadores de várias cidades, quase todos de autoria de políticos duvidosos, tentando desviar as suspeitas de si para os coitados dos professores brasileiros, que aliás estão entre os mais mal pagos do mundo (enquanto senadores como Magno Malta estão entre os mais bem pagos do mundo).

Outro partido que vem tentando se aproveitar do Escola Sem Partido foi o DEM, ex-PFL, que também tem currículo vergonhoso. Seu jovem vereador Fernando Holiday, de São Paulo, que lançou sua carreira política pelas redes sociais, estava meio por baixo em março deste ano, após uma acusação de ter usado caixa dois em sua campanha. No mês seguinte, talvez para desviar a atenção de si, ele começou a fazer blitzes em escolas públicas de São Paulo, como se fosse um tipo de polícia política, com o celular em punho, ameaçando professores e postando nas redes sociais.

O apelo do Escola Sem Partido é compreensível. Num país onde política é sinônimo de sujeira, é de se entender que os pais não queiram que grupos políticos transformem a escola em palanque. O irônico é que quem está fazendo isso são partidos como o DEM e o PR, e políticos como Holiday e Malta. Eles é que estão invadindo o território sagrado da educação em busca de holofotes para seu marketing político.

Não é com ações judiciais que se melhora a escola, nem com caça a bruxas: é com participação da sociedade e com liberdade para criar num ambiente efervescente de debate e diversidade. Esse é o único jeito de fazer com que os alunos se apaixonem por aprender. Miguel Nagib tem todo o direito de não concordar com o professor de história da filha dele. Se ele vivesse na Finlândia, não no Brasil, essa discordância teria dado origem a um debate amplo e diverso, com a participação dos alunos. Não a uma notificação judicial e a projetos de lei de políticos picaretas.

*Denis R. Burgierman  é jornalista

(do Nexo Jornal)

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