Por Tomaz Campos em 14/jul/2017

Educação deve ser pensada em redes de interação



No exame que estamos realizando do livro Foco triplo: uma nova abordagem para a educação, abordamos no primeiro texto o foco interno, analisado por Daniel Goleman, maior especialista do mundo em inteligência emocional, enquanto que, nosegundo texto, abordamos o foco no outro, a empatia, desenvolvido pelo mesmo autor.

Aqui, começaremos a analisar a parte do livro a que se dedicou especificamente Peter Senge, professor de liderança e sustentabilidade na escola de gerenciamento do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Coube a ele tratar da inteligência sistêmica, da visão da educação enquanto redes de interação, ou conjunto de processos que acontecem dentro de sistemas.

Para desenvolver a Aprendizagem Socioemocional (ASE), bastante defendida no livro, mas também com propostas de sua repaginação, é preciso entender que educador e educandos interagem uns com os outros, entre si e com outros agentes. A vida humana é, em regra, um conjunto enorme de interações que a moldam.

Segundo Senge, “para a ASE ser bem-sucedida precisamos de um currículo bem elaborado e exequível, mas precisamos também de estruturas de apoio, como um bom treinamento para ajudar os professores a desenvolver novas habilidades, um bom treinamento para traduzir essas habilidades em ambientes de sala de aula exigentes e redes de pares [peer networks] fortalecidas de professores para se ajudarem mutuamente ao longo caminho”.

A sociedade é um sistema complexo e tudo o que acontece dentro dela, a vida humana, é uma rede de interconexões que precisam ser bem compreendidas. É necessário o desenvolvimento de uma faculdade de inteligência sistêmica, que permita ao indivíduo não mais ver o mundo apenas da forma para a qual foi treinado, com reduções e dualismos, o que lhe leva a segmentar sua percepção sobre as coisas. Ele deve passar a inter-relacionar melhor os elementos, percebendo as dinâmicas subjacentes e os efeitos emergentes das diferentes relações entre eles.

Nessa mesma linha, Senge destaca a importância de compreender a “complexidade dinâmica” dos sistemas, o que ele consubstancia especialmente na questão de causas e efeitos não serem tão lógicos quanto se pensa.

Ele cita inicialmente como exemplos o giroscópio, um “dispositivo relativamente simples, com suas rodas giratórias interconectadas… Mas quando você empurra uma das rodas para baixo, ela pode na verdade se mover para a esquerda”. Senge quer destacar que nem tudo acontece pela causa que pensamos, nem todo efeito que buscamos acontecerá pela causa à qual estamos acostumados.

A complexidade nos mostra que há interconexões de causas e efeitos as quais produzem os chamados “efeitos emergentes”, quase sempre inesperados. As tendências individualistas, por sinal, que nos fazem pensar o mundo girando em torno de nós, nos pregam inúmeras peças por esperarmos resultados que não acontecem, gerando, assim, por falta de desenvolvimento socioemocional, estresse, agressividade etc.

Senge cita, então, o exemplo do seu filho que, ao ser buscado um dia na pré-escola, afirmou que o seu amigo, antes muito chegado a ele, era um chato. Ao aprofundar no assunto, Senge conta que o amigo do seu filho teria jogado areia no rosto dele ou feito algo que o desagradou. Seu filho, porém,  já não lembrava mais – ou não dava valor àquele fato como causa da postura do seu amigo – que ele havia dito algo desagradável antes ou não teria compartilhado, quando deveria, algo com tal amigo.

O próprio desenvolvimento do foco interno e do foco no outro, portanto, depende de se desenvolver a compreensão sistêmica e complexa. Do contrário, não se consegue interconectar os benefícios de longo prazo com os prejuízos de curto prazo para concluir que aqueles superam estes; nem se consegue interconectar as nossas ações com as do outros, entendendo o processo de pergunta e resposta espiral que vai se desenrolando e do qual depende, para ter mais sucesso, de uma empatia bem desenvolvida nos três aspectos examinados no último texto.

Senge cita ainda o exemplo interessantíssimo de uma escola no Arizona que fora influenciada por um professor do MIT e que, mais de 20 anos atrás, já aplicava e ensinava o pensamento sistêmico para os alunos.

Quando Senge e sua esposa visitaram a turma do oitavo ano a encontraram sem professor, mas totalmente organizada. “Tratava-se do oitavo ano – uma sala com cerca de trinta adolescentes de mais ou menos catorze anos e sem professor. O que se esperaria ver? O caos, certo? Mas os alunos pareciam nem se dar conta de que não havia professor entre eles. Como descobrimos, estavam todos trabalhando em um projeto de um ano para planejar um novo parque em construção na região norte da cidade. (…) Aquilo não era atividade extracurricular. Era parte do currículo de ciências do oitavo ano!”

Nota-se a enorme diferença de uma educação estruturada em um método sistêmico, tendo o pensamento complexo em foco, e a educação brasileira prevalecente, na qual se privilegia longas exposições e memorização. Atividades práticas, que interferem positivamente na vida real, permitem o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e intelectuais que serão necessárias na vida dos indivíduos, não se tornando ele um sujeito mecanizado e memorizador de conteúdo para aprovação em testes.

Ainda sobre a atividade descrita acima, Senge explica como descobriu que, de fato, o processo era prazeroso e útil ao aprendizado da turma:

“Eles estavam trabalhando em opções alternativas para dispor trilhas no parque. Um menino queria por as trilhas em tal e tal lugar, mas o outro discordava. (…) Assim, lá estavam eles se batendo com a complexidade dinâmica de um problema real e descobrindo o que, atualmente, os educadores sistêmicos chamam de dois ‘Hábitos de um Pensador Sistêmico’. Um pensador sistêmico: 1) Reconhece o impacto dos delays ao explorar relações de causa e efeito. 2) Descobre onde afloram as consequências involuntárias”.

Senge cita também outros exemplos de professores que aplicam o pensamento sistêmico na sala de aula com sucesso. Num deles, o do professor de matemática do ensino fundamental Rob Quaden, que se tornou célebre pelos seus métodos sistêmicos inovadores, assemelha-se muito ao que Hipollyte Leon Denizard Rivail propunha em seu livro de aritmética, como visto tem texto passado.

Quaden integra o ensino social, emocional e matemático, permitindo o desenvolvimento de diferentes habilidades socioemocionais e intelectuais numa única classe, levando os alunos a encontrar, muitas vezes, saídas heterodoxas para os problemas que seriam normalmente resolvidos de um modo único, engessado e ortodoxo se a abordagem de ensino fosse a tradicional.

Em suma, essas experiências têm em comum uma educação muito mais prática e dinâmica, que procura interconectar o conteúdo com a realidade, permitindo que os alunos tenham alguma liberdade para decidir o que querem fazer e abrindo grande espaço para que eles discutam e tomem as rédeas das atividades, tudo com um sagaz professor fazendo muito mais o papel de coordenador de atividades do que de mestre do saber e autoritário definidor dos caminhos a serem seguidos.

Quando as respostas são dadas pelos professores para memorização, quase sempre como únicas soluções para os problemas, tal qual a imensa maioria dos livros didáticos hoje se apresenta, o raciocínio do aluno se torna unidimensional, pois ele não discute as muitas possibilidades adequadas e inadequadas, buscando até mesmo subverter o método inicialmente utilizado para solucionar aquele problema, o que representaria estimulá-lo a “pensar fora da caixa”.

Incentivar os alunos a encontrar seus próprios métodos e a discuti-los amistosamente permite que, desde cedo, além de trabalhar a empatia e outras habilidades, eles pensem em quão complexos são os problemas e quão simplórias são muitas das soluções propostas pelos adultos.

É evidente que tudo isso se torna muito mais fácil com um professor que tenha sido bem capacitado para pensar de forma sistêmica, transdisciplinar e complexo.

Esse é o caminho da educação do futuro: professores bem capacitados que consigam estimular nos alunos o desenvolvimento, dentro de uma única atividade, de inúmeras habilidades socioemocionais e intelectuais que os preparem para a vida, e não para testes onde se exige memorização de conteúdos ou mesmo a apresentação de habilidades que não foram adequadamente desenvolvidas em salas de aula.

(da Carta Capital)

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