Por Tomaz Campos em 27/mar/2018

“Educação de adultos a distância só vai gerar exclusão”



A proposta em discussão no Conselho Nacional de Educação – que prevê a oferta a distância de 40% do currículo do Ensino Médio– também pretende direcionar totalmente a Educação de Jovens e Adultos para este modelo. Só em 2017, na modalidade do Ensino Médio, o Brasil registrou cerca de 1,4 milhões de matrículas na etapa, segundo dados do Laboratório de Dados Educacionais da UFPR, a partir dos microdados do Censo Escolar 2017.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA), de fato, traz vários desafios ao Brasil mesmo no formato presencial, como explica o coordenador executivo adjunto da Ação Educativa, Roberto Catelli. Para ele, o País conta com atendimento a um grupo ainda minoritário, já que parte dos estudantes não consegue acompanhar a oferta noturna, maioria nos sistemas educacionais. No entanto, alerta que estabelecer o modelo a distância como única alternativa é uma “medida criminosa, que só vai gerar mais exclusão”.

“Precisamos lembrar que grande parte do público demandante da EJA é de pessoas que já saíram há algum tempo da escola e têm um problema sério com o seu valor social, devido a relações traumáticas. Então não basta sentar diante de um computador para estudar: é importante o contato presencial”.

Confira a entrevista.

Carta Capital: Como você vê a possibilidade da Educação de Jovens e Adultos ser ofertada 100% à distância?
Roberto Catelli: Um dos problemas da EJA é o modelo de oferta, mas restringir a um único modelo também não é algo positivo. A gente tem hoje um atendimento presencial ainda direcionado a um grupo muito minoritário de pessoas, já que poucas conseguem ficar das 19 às 23 horas na escola e acompanhar a oferta majoritariamente noturna. Já somos limitados com a oferta presencial como único modelo. Por exemplo, na cidade de São Paulo existe um outro modelo, que é o Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA), que são duas horas e quinze por dia de aula. É um modelo presencial de outro tipo que atende um outro grupo.

Outra possibilidade bastante alimentada pelo governo federal são os exames como o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, Encceja. No entanto, eu pesquisei esse assunto e a evidência é que ele favorece as pessoas mais jovens e mais escolarizadas, ou seja, aqueles que saíram a menos tempo da escola. Também não se aplica para a grande massa de pessoas que estão fora da escola e tem suas deficiências. Onde eu quero chegar?

A educação a distância pode ser uma outra oferta, para algumas pessoas que não conseguem frequentar uma escola presencial, não acho que ela seja impeditiva. O problema é se você transforma isso na principal política. Seria algo criminoso, que só vai gerar exclusão e não inclusão. Outra questão é que, sendo 100% a distância, você abre mão de um espaço de sociabilidade, de contato presencial com professores que possam permitir outro tipo de interação a esses indivíduos. Precisamos lembrar que grande parte do público demandante da EJA são pessoas que já saíram há algum tempo da escola e têm um problema sério com a questão do valor social que a escola tem, devido a uma relação traumática estabelecida. Então não basta sentar diante de um computador para estudar, é importante esse contato presencial.

CC: Acredita que esses estudantes não teriam autonomia para tocarem seus estudos sozinhos dado o tempo fora da escola?
RC: Não se aplica, por isso disse que o modelo a distância como única alternativa vai mais excluir do que incluir. Isso serviria só a um pequeno grupo, que provavelmente é o mais escolarizado, mais jovem e tem alguma habilidade com as novas tecnologias. Talvez esse seja um perfil que torne a proposta defensável. No caso de não poderem cursar o presencial por impeditivo do trabalho, por exemplo, o modelo serviria.

CC: Quais os desafios educacionais para que a formação oferecida contemple jovens e adultos em sua integralidade?
RC: Um ponto bastante importante é a questão curricular. Nas escolas de EJA hoje não temos desenhos curriculares específicos para esse público. É um um desafio colocado. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a EJA ficou de fora, o que é muito ruim e, para além disso, não temos no País nenhuma orientação curricular específica que indique as especifidades da modalidade e aponte para uma formação de professores. Com isso, outra pergunta que faço é: que conteúdo teria essa formação a distância?

CC:  O que avalia ser fundamental nesse desenho curricular para a modalidade?
RC: O currículo deveria ter mais foco na experiência de vida das pessoas e naquilo que, eventualmente, pode ser pensado como vinculação ao mundo do trabalho e com construções do mundo cotidiano, e não seguir uma lógica totalmente escolarizada como a aplicada a crianças e adolescentes.

CC:  Quais os desafios que o País tem diante da EJA no que diz respeito ao direito à educação dessa parcela da população?
RC: É uma dívida social que o Estado brasileiro tem com o cidadão. Quando a gente diz que 65 milhões de pessoas acima de 15 anos não tinham Ensino Fundamental em 2010 e outras quase 20 milhões não concluem o Ensino Médio depois dos 18, não estamos falando de um pequeno grupo de pessoas que fracassam na escola, mas da metade da população brasileira jovem e adulta. Então isso exigiria da parte do Estado investimentos muito substantivos para reparar essa dívida social. Isso não aconteceu e hoje ainda menos.

Estamos em um momento em que você tem o Programa Brasil Alfabetizado com recursos mínimos, com uma redução grande de turmas, uma escassez de propostas efetivas para a modalidade pelo governo federal, cortes na Secretaria de Educação, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), o Programa Nacional do Livro Didático sem novos editais. A gente vê um sucateamento da política de educação de jovens e adultos, apesar do grave quadro social, sem contar a própria Base que descartou a etapa do processo de construção. Não estou dizendo que deveria ser a mesma BNCC direcionada a crianças e adolescentes, mas isso faz com que de fato a EJA fique fora da política pública.

(da Carta Capital)

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