Por administrador em 13/ago/2014

Dinheiro, eleições e a reforma política



Não deveria, mas me pareceu sim absurda a informação – tida como natural, de que três empresas – JBS, dona da Friboi, cervejaria Ambev e Construtora OAS seriam responsáveis por 65% das “doações” às campanhas à presidência da república.

Sei que não cabe romantismo na “real politic” brasileira. Bater no portão da casa, bairro adentro; megafone em feira livre; porta de fábrica em desacordo com o patrão… isso tudo ficou no passado. Há muitos anos as disputas eleitorais são, antes de qualquer coisa, disputas econômicas. Raras – ainda que existentes – são as exceções.

Montanhas de dinheiro somadas à distribuição desproporcional do tempo de televisão são determinantes para colocar para a sociedade quais são as candidaturas “viáveis”.

Triste de ver.  Triste perceber a fragilidade da tão exaltada democracia brasileira.

E lá estará o Congresso nacional, com seus 80% de representantes diretos do empresariado, dos latifundiários e agronegócio, das religiões e de setores econômicos hegemônicos; Lá estará o Congresso, vazio da representação da população trabalhadora, negra, mulheres, Lgtb’s e indígenas. E lá estarão eles, Dilma com PMDB, Campos com Marina e Aécio com a extrema direita, disputando quem será o prestador de serviços da alta burguesia nacional e internacional pelos próximos 4 anos. Será esse nosso destino, uma vez mais?

 

Fogo! Prédio abaixo! Revolução! E tudo do zero. Mas enquanto não acontece, a reforma política me parece algo extremamente necessário, não acham?

Abaixo uma análise do Jornal Brasil de Fato, para nos provocar a reflexão.

 

 

reforma

12/08/2014

A campanha eleitoral e a necessidade de uma reforma política

Editorial da Edição 598 do Jornal Brasil de Fato

Os partidos fizeram as convenções e escolheram seus candidatos. As alianças entre eles estão feitas, sem nenhum critério ideológico ou qual­quer compromisso com a classe tra­balhadora. Tudo em nome do prag­matismo da vitória eleitoral e de al­guns segundos na televisão. Portan­to, a corrida eleitoral já começou. E os métodos manipuladores de sem­pre, também.

Os candidatos registraram o que pretendem gastar. Os três principais presidenciáveis vão gastar, somados, a bagatela de 1 bilhão de reais. E a so­ma de todos os candidatos a senado­res e a deputados, registraram a in­tenção de gastar 4 bilhões de reais, destes, 85% serão supridos por ape­nas 117 grandes empresas, em sua maioria empreiteiras, bancos e algu­mas indústrias. E claro, sempre have­rá algum doleiro generoso no meio.

Esse valor fica atrás apenas da cam­panha dos Estados Unidos. Nada mau, para um país que é a oitava eco­nomia mas está em terceiro em pior desigualdade social do mundo! Ou seja, a sociedade brasileira é tão rica que pode se dar o luxo de gastar essa dinheirama em apenas dois meses de campanha, com marqueteiros, con­tratação de pessoas, showsde músi­ca, banners, santinhos e outras por­carias. Os jornais publicaram que já foram contratados mais de 60 mil pessoas, apenas para atuar na inter­net e na campanha digital. Uma ver­gonha!

Por outro lado, o senador João Ca­pibaribe (PSB-AP), antigo militan­te da esquerda, entrou com um Pro­jeto de Lei no senado para limitar os gastos das Assembleias Legislativas estaduais e os tribunais de conta es­taduais, que deveriam fiscalizar seus gastos. O senador descobriu que os gastos anuais dessas duas institui­ções, nada democráticas, somam 9, 4 bilhões de reais para deputados esta­duais e outros 5,1 bilhões de reais pa­ra os ilustres conselheiros das contas públicas. São 14,5 bilhões por ano, para nada. Descobriu que os gastos com diárias e passagens dos nobres parlamentares somam bilhões de re­ais, tudo desviado para atender in­teresses particulares. Descobriu que um deputado no Acre,custa ao po­vo 4,7 milhões de reais por ano, e no Rio de Janeiro custa 15,9 milhões de reais por ano.

Tudo isso são apenas sinais da fa­lência do modelo político brasilei­ro. Há uma clara crise de representa­ção política. Crise e hipocrisia na ho­ra dos partidos escolherem os candi­datos. Crise na forma de financiar as campanhas, em que as grandes em­presas sequestraram a democracia brasileira, com seus caixas 2. Crise, na forma de fazer as campanhas, que não motiva mais ninguém. Basta lem­brar que, segundo o TSE, apenas 27% dos jovens com 16 anos fizeram o tí­tulo de eleitor esse ano.

Crise porque os candidatos não dis­cutem os problemas do povo brasilei­ro e suas causas. Não discutem pro­jetos para o país. Embora, por trás de cada um deles, de forma dissimulada, se encontrem interesses e projetos de classe. Infelizmente, a ampla maio­ria só defende os interesses da bur­guesia. Ou seja, esse tipo de regime político e de campanha só interessa à burguesia, que se utiliza desses méto­dos para controlar o Estado brasileiro e suas instituições.

Diante de tudo isso, os movimen­tos sociais, desde as pastorais até o movimento sindical, estão conven­cidos que somente uma reforma po­lítica, profunda – que vá além do fi­nanciamento das campanhas, da for­ma de eleger e que inclua mudanças na forma de funcionarem os partidos, os candidatos, o poder judiciário e o controle sobre os meios de comunica­ção –, pode de fato recuperar a demo­cracia representativa no Brasil.

Por isso, já estão organizados mais de mil comitês populares por todo o país, fazendo trabalho de conscienti­zação da população sobre a necessi­dade de uma reforma política. E farão um Plebiscito Popular, para que o po­vo se manifeste se é a favor da convo­cação de uma assembléia constituinte soberana e exclusiva, que faria as mu­danças políticas necessárias.

Os resultados do plebiscito popular serão levados aos Três Poderes insta­lados em Brasília – Executivo, Legis­lativo e Judiciário. E levarão também ao Jardim Botânico, no Rio de Janei­ro, onde está instalado o quarto po­der: a mídia burguesa – Rede Globo.

E a partir da pressão popular, se encaminhará a proposta de um de­creto legislativo que convoque, para o primeiro semestre de 2015, um ple­biscito formal, legal, para que toda população decida, se é necessário ou não a convocação de uma Assembleia Constituinte soberana. Ou seja, elei­ta de acordo com a vontade do povo, sem dependência econômica das em­presas. E exclusiva, ou seja, indepen­dente, separada do Congresso que se­rá eleito em outubro deste ano.

O Brasil de Fato, como veículo comprometido apenas com a classe trabalhadora, com os movimentos so­ciais, se soma nessa campanha de lu­ta por uma reforma política ampla e na luta popular para conquistá-la.

(Da Carta Capital)

Imprimir