Por Tomaz Campos em 09/fev/2017

Defender a escola pública é defender direitos e cidadania



A jovem Bruna Sena, negra, pobre e criada só pela mãe desde bebê, foi a primeira colocada para o curso de medicina da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto. A sensacional atuação da estudante reitera a importância de lutarmos com todas as forças para defendermos o direito a uma educação pública digna, de qualidade e universal.

No entanto, se aprovada a “reforma do Ensino Médio” que está sendo proposta pelo governo ilegítimo de Michel Temer, conquistas como estas que possibilitam o acesso à educação em grau superior serão inviabilizadas, principalmente para a população negra.

Dentre outros fatores, a proposta prevê a eliminação de conteúdos programáticos obrigatórios que certamente são essenciais para a formação integral do(a) aluno(a), e não obstante, o governo ainda sinaliza acabar com os programas sociais de cotas nas universidades que, longe de serem uma solução, sem dúvida minimizam o retrocesso histórico da população negra que foi escravizada, explorada e apartada do direito ao conhecimento durante quase 400 anos neste país e que repercutem até hoje.

Somam-se a isto retrocessos na educação pública com a aprovação da PEC 55/16 atual Emenda Constitucional 95, que congela por 20 anos o orçamento para investimentos públicos em saúde e educação, que em particular irá impactar com a redução de salários dos(as) profissionais, inviabilizando, inclusive, a sua própria formação.

Outro retrocesso, a PEC 287/16 da reforma da previdência fará com que o(a) trabalhador(a) tenha que contribuir por 49 anos com o sistema previdenciário – sob a falsa alegação de falta de recursos. E ainda o PL 6787/16 da reforma trabalhista, a porteira aberta para ampliação das já precarizadas relações de trabalho, que aumentarão as desigualdades, atingindo especialmente jovens, negros e mulheres.

A CUT, seus sindicatos, federações e confederações lutam por um ensino público para que todos os (as) possam ter acesso a educação de qualidade, que assegure sua formação como cidadão e sujeito social, especialmente para a excluída juventude negra, que se vê tão cedo obrigada a abandonar seus estudos, diante da necessidade de trabalhar e auxiliar no sustento da família.

A aprovação de Bruna joga mais uma vez por terra os argumentos dos que se opõem às cotas, “justificando” que cotistas ao adentrarem as universidades não teriam como acompanhar os não cotistas. Bruna estudou em escola pública e fez cursinho comunitário, superando uma trajetória de dificuldades marcada pela pobreza e pelo preconceito social e racial instalados em nossa sociedade.

A estudante nos lava a alma por sua consciência social e seu compromisso com a vida e com as necessidades dos mais pobres, antes mesmo de formar-se médica, diferente dos exemplos recentes de profissionais médicos que lamentavelmente violaram preceitos e códigos éticos da medicina por não conseguirem respeitar opiniões divergentes e, ainda, propagarem e estimularem o ódio e a barbárie em redes sociais.

Parabenizamos a jovem Bruna Sena e sua mãe por suas trajetórias de vida e as convidamos a se somarem a nós dia 08 de março: Dia Internacional da Mulher e também dia 15 de março: Dia Nacional de Paralisação para, juntos, tomarmos as ruas, lutando contra os retrocessos e para exercermos o legítimo direito de defesa da saúde pública de qualidade, o direito ao emprego, a aposentadoria e a uma educação edificante, laica e emancipatória.

*Escrito por: Maria Julia Reis Nogueira, Secretária Nacional de Combate ao Racismo, e Rosana Fernandes, Secretária Adjunta Nacional de Combate ao Racismo

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