Por administrador em 01/fev/2010

Comissão de Direitos Humanos homenageará Neide Castanha



A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados realizará uma audiência especial em homenagem à companheira Neide Castanha, nesta quarta-feira, 3, às 14h, no Plenário 9 do corredor das Comissões. Os amigos e familiares da combativa defensora dos direitos das crianças também convidam para missa de sétimo dia que será realizada nesta terça-feira, 2, às 20h, na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, na EQS 311/312 Asa Sul.
Abaixo reproduzimos texto da poeta Elisa Lucinda sobre a morte de Neide.

Não deixe o samba morrer

“Neide Castanha sonhou e trabalhou por um mundo melhor, mesmo quando ela não morasse mais aqui”

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, diz o velho-novo Chico. É assim que me sinto quando não compreendo a lógica de idas e partidas deste mundo. Explico: meu coração já estava inconformado com a morte prematura da jovem jornalista daqui, da TV Justiça, que aos 27 anos fica sem direito à volta, na mesa de uma lipoaspiração. Vítima da indústria da vaidade, a moça deixa um filho e sonhos pelo caminho. No impacto dessa dor, eu já vinha me perguntando sobre nossa finalidade aqui nessa Terra, e a resposta, que ainda está na validade, confirma-me o nosso papel de melhorar esse mundão.

Cada um vem e despeja nele sua sabedoria, seus esclarecimentos, suas conclusões, na intenção de evoluí-lo. Assim, pensava meu coração, quando foi atropelado, bombardeado, trucidado pela nota de falecimento da brasileira de primeira grandeza Neide Castanha. Uma porrada, uma lástima, parecendo um equívoco de Deus. Quando minha mãe morreu, minha sogra, que reconhecia o seu valor solidário no mundo, disse: “Daria pra encher um trem de pessoas para irem no lugar de sua mãe.” Sei que essa é uma lógica humana, mas é a minha lógica, e o mesmo afirmo da Neide. Da sua trajetória, sabemos que fez um caminho único, vitorioso, raro e difícil, porque ascendeu socialmente. Ela, negra vinda de uma família sem privilégios, desenhando uma história de inclusão. Neide é pioneira no olhar dentro das ações públicas e também não governamentais sobre crianças e adolescentes. Doutora nisso, sua ideologia prática bolou o Cecria, um centro de atendimento focado principalmente nas meninas que vivem em situação de abandono nas ruas de Brasília.

Experiente, vinda de São Paulo, a selva síntese das contradições de um Brasil, Neide previu, com seu largo conhecimento sobre gênero que, quando se tira uma menina da rua, tira-se um ventre do abandono e, ao salvar um ventre, pode-se salvar uma geração. Então, como assim Neide morreu!? Construída sua autoridade entre políticos, empresários, sociólogos, professores, psicólogos, instituições, pensadores. Premiada, querida por todos e consolidado o seu respeito nos direitos humanos na comunidade nacional e internacional, não sei quais são os planos de Deus em retirá-la do nosso mundo ainda tendo tanto a fazer.

Era minha amiga, me hospedou no Lago Sul há 20 anos. Foi nos ver, a mim e à Geovana no teatro em São Paulo em dezembro último, e não nos abraçamos como se fosse a última vez. Descobri um tumor aqui no intestino, ela me disse, ou no estômago (não sei), vou retirá-lo. E ainda completou, “nossa, Elisa, como essa doença é silenciosa, o caroço é grande e eu não sinto nada, descobri num exame de rotina. Mas vai dar tudo certo!” Otimista, valente, de volta aos braços de seu amor, segura de que venceria mais essa batalha, Neide não estava com ares de quem iria se despedir da vida. A operação foi um sucesso, retiraram 100% do mal e ela falece por uma reação alérgica a um dos componentes da quimioterapia, porque às vezes o remédio mata e essa foi a novidade que nos traiu.

Essa morte escureceu a semana, empobreceu o mundo. Inconformada, penso várias coisas: então a ciência avança, reverte tantos quadros, câncer já não é sentença de morte, mas a doença ainda avança? É epidêmica? Onde nos contaminamos? Nos cigarros? Nos agrotóxicos? Nos remédios que tomamos? Socorro! O que está acontecendo? Onde estamos? É desafio nosso, precisamos matar essa charada, afinal viemos melhorar o mundo. A luta contra a peste não começou ontem nem vai acabar amanhã, mas agora só penso no que nos cabe na ausência física, ousada e insubstituível de nossa Neide. Sua morte não pode nos esmorecer, encolher nossa esperança.

Deixou como herança uma atitude estruturada, um pensamento solidário, altruísta e possível, que mesmo sem ter sempre todos os holofotes sobre sua obstinada ação, fez e faz nascer um Brasil mais justo e novo. Nós, que conhecemos o seu pensamento, suas dificuldades e glórias, seus alcances e revoluções na reconstrução da cidadania da juventude brasileira, herdamos sua obra como dever de casa. A bola agora é nossa. Pois este “samba” que ela começou, Neide morreu confiando-o a nós. Portanto, atenção, políticos, simpatizantes, idealistas, humanistas, apaixonados, inconformados, militantes, empresários e governantes, há muito trabalho começado por essa dama por aí.

Neide Castanha sonhou e trabalhou por um mundo melhor, mesmo quando ela não morasse mais aqui.

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