Por Tomaz Campos em 11/ago/2017

Candomblé: religião de resistência



A história do Brasil é profundamente marcada pelos séculos de escravidão. Apesar de lançado à mais triste condição a que um ser humano pode ser submetido, o contingente negro viu na fé em seus ancestrais uma possibilidade de refazer os laços, manter e recriar tradições e reconstituir, mesmo em termos simbólicos, as famílias, que, como parte da estratégia do sistema escravagista, foram completamente esfaceladas.

Devolver ao negro essa noção de família foi a primeira função do candomblé, pois no espaço dos terreiros a identidade familiar foi recuperada, tendo nas mães e pais de santo suas figuras centrais. Assim como os quilombos, os terreiros foram espaços de resistência e luta.

Para preservar seu patrimônio cultural, foi preciso sobreviver e resistir a toda sorte de perseguição. As reminiscências africanas, seus rituais, cultos e divindades, apesar das diferenças étnicas, foram reunidas e organizadas numa religião: o candomblé, que surgiu oficialmente na Bahia nas primeiras décadas do século XIX com a chegada dos negros de origem nagô. Antes disso, a religiosidade afro-brasileira estava presente em diversas regiões, mas com muita repressão e pouca visibilidade.

Sob a égide de confrarias e irmandades de negros “católicos”, protegidos pelo sincretismo com os santos da igreja, os primeiros terreiros foram aparecendo e se firmando. Na Igreja da Barroquinha, em Salvador, nasceu o Ilê Axé Airá Intilé, provavelmente no início dos anos 1800, do qual se originou o Ilê Iyá Nassô Oká, primeiro terreiro oficialmente registrado no Brasil.

Desse importante terreiro saíram outras duas grandes casas: o Gantois, da célebre Mãe Menininha, e o Opô Afonjá, de Mãe Aninha e Mãe Senhora. O terreiro do Alaketu, de Mãe Olga, e a Casa de Oxumarê, de Mãe Cotinha de Ewá, também são casas centenárias e fundamentais na história de resistência e luta do candomblé.

Nesses terreiros, as famílias de santo criaram uma rede de proteção essencial para a preservação dos valores e tradições, costumes e fé desses povos, além de possibilitar a reconstrução de identidades e a manutenção da cultura, filosofia e visão de mundo africana, sem as quais o negro não teria sobrevivido à escravidão.

As religiões de matrizes africanas, em geral, e o candomblé, em particular, nunca viveram dias de paz e tranquilidade. Durante e depois da escravidão, a perseguição, tanto da sociedade quanto do Estado, foi implacável. Sobretudo nas primeiras décadas do século XX, com o claro projeto de exclusão da população negra, todos os traços culturais africanos foram duramente reprimidos, entre eles a capoeira, o samba e o candomblé, que sempre estiveram profundamente imbricados.

Os fatos romanceados por Jorge Amado em “Tenda dos Milagres” foram realmente vividos por negros e negras não só na Bahia, mas em todas as regiões do País. Terreiros invadidos e saqueados, sacerdotes presos e torturados, objetos de culto apreendidos e destruídos. Anos e anos de luta até que o Estado assumisse a laicidade e implementasse em sua Carta Magna a liberdade religiosa. Na prática, a perseguição continuou e até os últimos anos da década de 1970 os terreiros da Bahia necessitavam de autorização da Delegacia de Jogos e Costumes para realizar seus rituais, correndo o risco de ser interrompidos pela polícia a qualquer momento.

As décadas de 1960 e 1970 marcam a expansão do candomblé baiano para estados do Sul e Sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa época, o famoso pai de santo Joãozinho da Gomeia implantava seu terreiro na Baixada Fluminense, onde atendia gente importante da sociedade carioca, incluídos artistas e políticos. Mãe Menininha era aclamada nos versos de Dorival Caymmi e nas vozes de Maria Bethânia e Gal Costa. Sua fama corria o mundo e o mundo queria conhecer o Gantois. Mas a perseguição continuava.

A igreja católica se abria para o diálogo com as religiões afro-brasileiras. Contudo, o advento das igrejas evangélicas neopentecostais renovava a ideia de demonização dos orixás e das entidades da umbanda. Com a força da mídia, a perseguição ganha novos componentes. Jornais, revistas, livros, programas de televisão escolhem como alvo o candomblé e iniciam uma campanha de intolerância tão ou mais perigosa que a própria perseguição policial dos anos 1920.

Mesmo as garantias da Constituição de 1988 não foram suficientes para barrar ataques de toda ordem, alguns bem graves. Um deles levou à morte Mãe Gilda, uma sacerdotisa de Salvador, e em sua homenagem, 21 de janeiro foi instituído como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

A trajetória do negro no Brasil sempre foi de luta. Resistência, preservação e sobrevivência são conceitos indissociáveis na obra religiosa de matriz africana. Os terreiros devolveram ao negro a noção de família, possibilitaram a reconstrução de identidades e a manutenção de sua cultura.

O terreiro, o quilombo, a roda de capoeira e a escola de samba são, acima de tudo, estratégias de resistência. Lembremos os versos de Luiz Melodia: “Cantando samba a noite inteira, eu sou mais forte, eu sou mais gente, eu sou um rei”.

A cultura negra, da qual o candomblé e o samba são expressões máximas, tem sido nossa arma para lutar e sobreviver. Se a escravidão nos arrancou a realeza, o orixá nos devolveu.

(da Carta Capital)

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