Por administrador em 02/abr/2014

A violência nas escolas do DF permanece



Já são 6 anos desde o assassinato do professor Carlos Mota, ocorrido em junho de 2008. Mas a situação da segurança nas escolas permanece a mesma. Nesse período, as autoridades (e o Estado) nada fizeram para a mudança do cenário. O batalhão escolar, que atende a rede pública de ensino do DF, permanece sendo desmontado e a redução do seu efetivo provoca situações que diariamente são relatadas pela imprensa local e junto ao sindicato.

Em 2008 o Sinpro lançou a campanha “Quem bate na escola maltrata muita gente” que visou discutir junto com a comunidade escolar e sociedade civil do DF, as formas de pacificação do espaço escolar e da comunidade. Ao longo desses anos, projetos foram desenvolvidos entre o sindicato e escolas da rede pública. Anualmente o Sinpro desenvolve, através do concurso de redação, temas relacionados com a discussão da violência que a educação pública sofre: agressão física, agressão verbal, falta de investimento, falta de segurança, enfim sobre a presença do Estado no espaço educacional.

Este ano, o tema da redação do concurso será “A escola publica que eu quero”. Nesse espírito, esperamos que as autoridades percebam que o que o população do DF deseja é uma escola pública livre da violência, com recursos públicos necessários para atingir a qualidade que todos e todas merecem.

Nesta quarta-feira (2), o jornal Correio Braziliense publicou uma matéria sobre a violência nas escolas públicas do DF:

Profissionais de educação sofrem com ameaças e agressões dentro das escolas

“Aqui é assim: toda vez que agimos para organizar e disciplinar, alguém diz: ‘Um já morreu’. Eu me pergunto: será que vai ser sempre assim no CED Carlos Mota?”

O desabafo é de uma funcionária da direção do centro educacional do Lago Oeste. A história do colégio está marcada pelo assassinato do então diretor, Carlos Ramos Mota, há seis anos. Dois estudantes e um ex-aluno participaram da execução do mestre. Em Ceilândia, a ameaça foi a um porteiro, que ouviu de um jovem que ele acordaria “com a boca cheia de formiga.” O autor das fortes palavras nem era matriculado, mas fumava maconha e portava uma arma de fogo no pátio do colégio. A série “O bê-á-bá da violência” revela essas e outras histórias sobre a rotina de medo vivida por funcionários das instituições de ensino do Distrito Federal.

Uma bala no peito calou o homem apaixonado pela educação, pai de três filhos e casado com a servidora pública Rita de Cássia Mota. Carlos Ramos Mota, 43 anos, morreu pelas mãos de dois estudantes da escola — Alessandro José de Souza e Carlos do Nascimento — e por Benedito Alexandre do Nascimento, ex-aluno e responsável por apertar o gatilho. O mentor do crime, segundo o Ministério Público, é Gilson de Oliveira, traficante da região que foi impedido por Mota de comercializar entorpecentes dentro da instituição de ensino. Gilson tem conseguido protelar o julgamento, agora marcado para 28 de maio. Benedito e Carlos cumprem pena de 18 anos de reclusão. Alessandro foi condenado a 16 anos de prisão.

Passados seis anos do crime, a rotina de violência continua a massacrar os funcionários da escola que agora leva o nome do ex-diretor. As ameaças de hojefazem referência ao assassinato de Carlos Mota. “Eles dizem: ‘Depois você morre, não reclama’, ou ‘Você está muito folgada, vou acabar com essa sua folga’. Isso é corriqueiro. Cadê o policiamento do Batalhão Escolar? Não temos. Se a agente chama, eles vêm, mas aqui é longe, demora. O Posto de Segurança Comunitária do lado da escola não tem policial e frequentemente somos seguidos por alunos”, conta uma educadora. A violência praticada contra os mestres também parte dos familiares de estudantes. Há pouco mais de uma semana, uma profissional da direção registrou queixa de ameaça contra o pai de uma aluna. “Ele foi agressivo, me chamou de incompetente. Se meus colegas não chegam, ele me daria uns tapas”, diz Milene (nome fictício). Recentemente, quatro alunos praticaram um sequestro relâmpago e abandona-ram a pessoa atacada no Lago Oeste. Na fuga, deixaram uma mochila para trás. A vítima e a polícia bateram na porta da escola. “Tudo isso gera muita insegurança. E o Estado, o que faz? Nada vezes nada”, reclama Milene. Quando questionados se o tráfico — motivo do assassinato do ex-diretor — deu uma trégua, a resposta dos servidores é evasiva. “Quando tinha polícia aqui, a gente ficava tranquilo. Temos as câmeras que monitoram todo o colégio. Não cabe a nós investigar nem ficar procurando”, sintetiza um deles.

Socorro

A reportagem tentou obter, em diferentes esferas do governo local, estatísticas sobre a quantidade de mestres ameaçados de morte, feridos ou assassinados por alunos. Não conseguiu. O apagão dos números é ainda maior porque nem todas as ameaças são registradas. Nem mesmo o Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) tem os dados. “Se eu prestar queixa cada vez que recebo uma ameaça, não vou conseguir trabalhar. Vou viver na delegacia”, diz uma professora de Ceilândia, que pediu para ter o nome preservado. Dentro de sala de aula, os confrontos explodem sempre que os aprendizes são contrariados. Ano passado, pelo menos quatro professores formalizaram denúncia na Delegacia da Criança e do Adolescente I (Asa Norte) contra alunos que os ameaçavam. Os casos ocorreram em Planaltina, Paranoá, Itapoã e Riacho Fundo. “Eles ficaram bastante assustados e pediram a transferência. Não sei se conseguiram ou continuam nas escolas”, relata a delegada Mônica Ferreira, titular da Delegacia da Criança e do Adolescente I (Asa Norte), sem revelar o nome das vítimas e das instituições de ensino.

Funcionários de uma escola de ensino fundamental de Ceilândia pedem socorro. “Sofremos com ameaças diárias na escola. Eles querem traficar dentro do colégio, fumar no banheiro e nas dependências. Não posso permitir. No entanto, devido ao trabalho realizado, sofremos represálias”, narra o diretor da instituição, que também pediu para não ser identificado. A escola já chegou a ser exemplo de boas práticas na guerra contra a violência. Atualmente, perde a batalha. Quando o Correio, na semana passada, esteve no local, o clima era de tensão porque jovens passaram a tarde atirando pedras e se jogando no portão para derrubá-lo. Quando a polícia chegou, não havia mais sinais dos vândalos.

O problema da falta de limites em casa

A vulnerabilidade de funcionários das instituições de ensino revela-se aos poucos. Alguns resistem em contar a rotina de medo. “Ameaça? Sim, já recebi. Faz duas semanas. Entrou um indivíduo fumando (maconha) e com um revólver. Pedi para sair e ele se negou. Veio o diretor e nada. Com muito custo, ele aceitou (sair da escola). Foi botar o pé aqui fora, ele me olhou e disse: ‘Abre teu olho. Você vai amanhecer com a boca cheia de formiga”, revela Silvio (nome fictício), 57, porteiro de uma escola de Ceilândia.

A delegada Mônica Ferreira, chefe da Delegacia da Criança e do Adolescente I (Asa Norte), alerta que os rompantes dos jovens não devem ser encarados como “coisa de adolescente”. “Uma psiquiatra do Instituto Médico Legal diz que o jovem é ‘LU’, ou seja, inconsequente, imprevisível e imprudente. O adolescente age de rompante quando é contrariado, faz as coisas como se não houvesse amanhã”, anali-sa Mônica. Independentemente do público atendido e dos atos infracionais praticados, os dele-gados das DCAs concordam em um ponto: as ocorrências envolvendo a comunidade escolar seriam menores se os pais conseguissem impor limites aos filhos. “O jovem não respeita o próximo. Isso advém da má formação da pessoa, da falta de valores morais e da desestruturação familiar”, avalia Amado Pereira, chefe da DCA II (Ceilândia).

A degradação das relações também é apontada pelo presidente da Associação dos Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Claudio Megimin. “Quando um aluno não respeita o professor é porque não respeita os próprios pais em casa”, acredita. Rosilene Corrêa, diretora do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF), reforça que a agressão por parte dos pais é rotineira. “Não é raro pais e mães de aluno ultrapassarem a fase do diálogo”, diz. ‘As escolas acabam desenvolvendo programas isolados. Não há uma política conjunta.”

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